REVOLUO RUSSA E SOCIALISMO SOVITICO

Daniel Aro


de alguns, em detrimento da grande maioria, demonstrara ser cada vez mais fictcia.
A igualdade jurdica no encontrava correspondncia na prtica; a liberdade sem a igualdade transformava-se em mito; os governos representativos representavam apenas
uma minoria, pois a grande maioria do povo no tinha representao de fato. Um aps outro, os ideais presentes na Declarao dos Direitos do Homem foram revelando 
seu carter ilusrio. A resposta no se fez tardar. 
Idias socialistas, anarquistas, sindicalistas, comunistas, ou simplesmente reformistas apareceram como crticas ao munndo criado pelo capitalismo e pela liberal-democracia. 
As primeiiras denncias ao novo sistema surgiram contemporaneamente  Revoluo Francesa. Nessa poca, as crticas ficaram restritas a uns poucos revolucionrios 
mais radicais, como Gracchus Babeuf. No decorrer da primeira metade do sculo XIX, condeenaes da ordem social e poltica criada a partir da Restaurao dos Bourbon 
na Frana fizeram-se ouvir nas obras dos chamaados socialistas utpicos como Char!es Fourier (1772-1837), o conde de Saint-Simon (1760-1825), Pierre Joseph Proudhon 
(1809-1865), o abade Lamennais (1782-1854), tienne Cabet (1788-1856), Louis Blanc (1812-1882), entre outros. Na Inglaaterra, Kar! Marx (1818-1883) e seu companheiro 
Friedrich Engels (1820-1895) lanavam-se na crtica sistemtica ao capitaalismo e  democracia burguesa, e viam na luta de classes o motor da histria e, no proletariado, 
a fora capaz de promover a revooluo social. Em 1848, vinha  luz o Manifesto comunista, connclamando os proletrios do mundo a se unirem. 
Em 18?4, criava-se a Primeira Internacional dos Trabaalhadores. Trs anos mais tarde, Marx publicava o primeiro voluume de O capital. Enquanto isso, sindicalistas, 
reformistas e coooperativistas de toda espcie, como Robert Owen, tentavam huumanizar o capitalismo. Na Frana, o contingente de radicais aumentara bastante, e propostas 
radicais comearam a mobilizar um maior nmero de pessoas entre as populaes urbanas. Os socialistas, derrotados em 1848, vieram a assumir a liderana
por um breve perodo na Comuna de Paris, em 1871, quando foram novamente vencidos. Apesar de suas derrotas e mltiplas divergncias entre os militantes, o socialismo 
foi ganhando adeptos em vrias partes do mundo. Em 1873, dissolvia-se a Primeira Internacional. Marx veio a falecer dez anos mais tarde, mas sua obra continuou a 
exercer poderosa influncia. O segunndo volume de O capital saiu em 1885, dois anos aps sua morte, e o terceiro, em 1894. Uma nova Internacional foi fundada em 
1889. O movimento em favor de uma mudana radical ganhava um nmero cada vez maior de participantes, em vrias partes do mundo, culminando na Revoluo Russa de 
1917, que deu incio a uma nova era. 
No incio do sculo XX, o ciclo das revolues liberais parecia definitivamente encerrado. O processo revolucionrio, agora sob inspirao de socialistas e comunistas, 
transcendia as fronteiras da Europa e da Amrica para assumir carter mais universal. Na frica, na sia, na Europa e na Amrica, o camiinho seguido pela Unio Sovitica 
alarmou alguns e serviu de inspirao a outros, provocando debates e confrontos internos e externos que marcaram a histria do sculo XX, envolvendo a todos. A Revoluo 
Chinesa, em 1949, e a Cubana, dez anos mais tarde, ampliaram o bloco socialista e forneceram novos modelos para revolucionrios em vrias partes do mundo. 
Desde ento, milhares de pessoas pereceram nos conflitos entre o mundo capitalista e o mundo socialista. Em ambos os lados, a historiografia foi profundamente afetada 
pelas paixes polticas suscitadas pela guerra fria e deturpada pela propagannda. Agora, com o fim da guerra fria, o desaparecimento da Unio Sovitica e a participao 
da China em instituies at recenteemente controladas pelos pases capitalistas, talvez seja possvel dar incio a uma reavaliao mais serena desses acontecimentos. 
Esperamos que a leitura dos livros desta coleo seja, para os leitores, o primeiro passo numa longa caminhada em busca de um futuro, em que liberdade e igualdade 
sejam compatveis e a democracia seja a sua expresso. 
1. A Santa Rssia entre reao, reforma e revoluo 15 
3. A revoluo pelo alto e a construo do socialismo num s pas 77 
4. A Segunda Guerra Mundial e o apogeu do socialismo sovitico 103 
5. O socialismo realmente existente: o desafio das reformas 119 
6. A perestroika e a desagregao da Unio Sovitica 135 
7. A Rssia ps-socialista: 
apogeu e crise da utopia do mercado 157 
Linha da fronteira do Imprio Russo em 1917 Linha do 'front' entre vermelhos e brancos em meados de 1919 -  - 
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1. A SANTA RSSIA ENTRE REAO, REFORMA E REVOLUO 
Nas duas primeiras dcadas do sculo XX, a Rssia tsarista foi alcanada por quatro revolues que a devastaram e a transsformaram, e tambm o mundo,' numa profundidade. 
que pouucos poderiam prever. Para tentar compreender o processo,  preciso comear pelo estudo da histria do imprio russo, das condies e das tradies que marcaram 
as foras sociais e poolticas que tomariam parte nos conflitos de onde surgiu a Unio Sovitica, principal experincia socialist contempornea. 
A RSSIA IMPERIAL: 
SOCIEDADE, INSTITUlOES POLlTICAS E ECONOMIA 
Em fins do sculo XIX, o imprio tsarista, com seus 22,3 milhes de quilmetros quadrados, era o maior Estado do munndo em dimenses fsicas: de leste a oeste, do 
Pacfico norte s fronteiras com o Imprio Austro-hngaro, cerca de oito mil quiilmetros. De norte a sul, do Oceano rtico s fronteiras com a Turquia, quase trs 
mil e duzentos quilmetros. A populao estimada de 132 milhes de habitantes (recenseamento de 1897) fazia da Rssia a principal potncia demogrfica da Europa, 
uma das maiores do mundo, abaixo apenas das grandes sociedades asiticas, o Imprio das ndias, sob o domnio britnico, e a China, o Imprio do Meio. 
No interior das suas fronteiras, paisagens e climas diferennciados: as florestas e os frios do norte; as estepes ao centro, innterminveis, com a grande mancha das 
terras negras (tchernaaziam), extremamente frteis, do oeste da Ucrnia  cordilheira dos Urais; ao sul, as altas montanhas do Cucaso, combinadas com as temperaturas 
amenas do litoral do Mar Negro. 
As populaes constituam um autntico mosaico de povos e religies. Russos e ucranianos (quase metade da populaao total) formavam a base mais coesa de sditos 
do tsar, emmbora houvesse contradies, sobretudo no ocidente da Ucrnia, onde era forte e tradicional o sentimento nacionali;ta. No extreemo ocidente do imprio, 
povos que se consideravam europeus e ressentiam a dominao dos russos asiticos, como um insulto: poloneses, estonianos, lituanos, letes, finlandeses, sem contar 
importantes minorias de judeus e alemes. Nos territrios da sia central e em seus confins, descendentes de turcos e monngis; no Cucaso, georgianos, armnios, 
turcos, iranianos, currdos. Superpondo-se s contradies de ordem nacional, combiinando-se com elas, as diferenas religiosas: cristos ortodoxos, uniatas, protestantes, 
catlicos; judeus; muulmanos; animistas; budistas. 
A essa extrema diversidade, contrapondo-se a ela, a autoocracia imperial russa, simbolizada pela guia de duas cabeas, visando simultaneamente o Oriente e o Ocidente. 
A seu servio, a burocracia civil, a polcia poltica, as Forras Armadas e a Igreja Ortodoxa. 
A burocracia civil reunia cerca de quinhentos mil funncionrios em fins do sculo XIX, os olhos e ouvidos do tsar. Consstituda por Pedro, o Grande, desde o incio 
do sculo XVIII, com base numa carreira de quatorze nveis, o tchin, integrava refeerncias europias, modernas, e asiticas, prprias do Antigo Reegime. Elitista 
(os oito nveis superiores eram reservados a nobres ou a pessoas agraciadas com a' condio de nobres), nomeada de cima para baixo, politicamente irresponsvel, 
ineficiente, rotineira, corrupta, objeto de stira e escrnio, odiada pelo cidaado comum, desprezada pelas elites, nem por isso a burocracia poderia ser considerada 
um corpo est!anho. Ao contrrio, em seu funcionamento, era uma das snteses mais expressivas das tradies conservadoras da sociedade russa, das ambigidades de 
sua resistncia aos processos de modernizao. 
A dimenso repressiva da burocracia era assumida pela polcia poltica. Na Rssia, at 1905, no havia liberdade de 
organizao, de manifestao, de expresso. Nem oposio recoonhecida, mas dissidncias, logo desqualificadas como inimigas e perseguidas. A polcia poltica encarregava-se 
de controlar, silennciar, desarticular, prender, exilar e, em casos extremos, matar opoosicionistas de qualquer-natureza. Criada no reino de Nicolau I, a sinistra 
Terceira Seo da Chancelaria, diretamente ligada ao tsar, mais tarde rebatizada com9 Okhrana, e integrada ao Ministrio do Interior, passou  histria como uma 
fora de grande efiicincia operacional, considerada ento a melhor do mundo. 
As Foras Armadas, principalmente o exrcito, constituam um temvel dispositivo imperial. Ao longo de trezentos anos, desde o incio do sculo XVII, quando se entronizou 
a dinastia dos Romanov, o imprio expandiu-se de forma sistemtica, permanente. Guerras de conquista transformaram o relativaamente pequeno principado de Moscou 
do sculo XVII numa grande potncia imperial em fins do sculo XIX. A oeste, finlanndeses e os Estados blticos, e mais uma frao dos poloneses, cuja dominao 
seria compartilhada com prussianos e austraacos. Ao sul, o Cucaso, a pennsula da Crimia, o norte do Mar Negro. A leste, as vastides da sia central e da Sibria 
oriental, passando pela usurpao de duas importantes provncias da China, Amur e Ussuri, que permitiram a construo de uma cidade no Pacfico norte, Vladivostok. 
Na progresso para o leste, os russos atravessaram o Estreito de Behring, o Alasca e chegaram a alcanar o norte da atual Califrnia. 
Mas no se detinham, aparentemente insatisfeitos, pr~~tendendo realizar outras ambies imperialistas. A oeste, dois objetivos: de um lado, fermentar o movimento 
irredentista dos povos eslavos do sul e a desagregao do Imprio Austrogaro, construindo uma rea de influncia nos Blcs; de outro, deslQcar o Imprio Otomano, 
o homem doente da Europa, conntrolar os portos do Mediterrneo oriental, de mares quentes, e a cidade sagrada de Constantinopla, a segunda Roma. No extremo oriente, 
entre outros, a transformao da Mandchria, rica proovncia mineral a nordeste da China, e da pennsula coreana em reas de influncia. A estrada de ferro transmandchuriana 
e a 
base naval de Port Arthur pareceram, em certo momento, aprooximar a realizao desses objetivos. 
Na poltica imperial russa, combinavam-se ambies geoopolticas, estratgicas, tradicionais, tpicas do expansionismo de Antigo Regime, e a ganncia moderna por 
negcios lucrativos de uma emergente burguesia russa, muitas vezes em aliana com as finanas internacionais. 
Entretanto, as Foras Armadas no eram apenas uma fora de ao externa. Internamente, funcionavam como uma reserva fundamental para debelar rebelies sociais e 
nacionais, rurais ou urbanas, que pudessem escapar da vigilncia e da represso da burocracia civil e da polcia poltica. 
Para consolidar a ordem, o tsarismo ainda contava com a Igreja Ortodoxa. Ela conservava uma certa autonomia, no podendo ser considerada um mero instrumento do poder 
tsarista. Seria tambm um equvoco imagin-Ia como um todo monoltico. Havia uma grande diversidade entre os altos hieerarcas imersos na vida mundana dos grandes 
centros urbanos, os monges recolhidos em oraes nos mosteiros fechados, e os procos (os popes) de aldeia compartilhando com os fiis as agruras e as circunstncias 
da vida de misria, de lama e de voddca, nos confins dos campos russos. Entretanto, era uma Igreja comprometida, em grande medida, com uma religiosidade crist conformista 
e resignada, subserviente, subordinada funcionallmente ao poder tsarista, dependente dele (subsdios e emoluumentos), supervisionada nos altos escales pelo procurador 
do Santo Snodo, nomeado pelo tsar. A divisa oficial do imprio #um Tsar, uma Nao, uma F e a convico de que Moscou era a encarnao da Terceira Roma, sede de 
um cristianismo ntegro, ainda no corrompido pelas tentaes d mundo - fazia da Orrtodoxia uma religio oficial, mesmo porq~e o tsar era um sobeerano de direito 
divino, o que trazia bvias implicaes nas relaaes entre o Poder e a Religio. 
Burocracia civil, polcia poltica, Foras Armadas, Igreja Ortodoxa. Por sobre esse conjunto complexo de instituies, a figura do tsar, com suas duas dimenses 
inseparveis: a do pai, 
sempre severo, s vezes implacvel, mas atento s demandas dos sditos, um verdadeiro paizinho, atencioso e carinhoso com suas crianas (o tsar batiuchka); e a do 
terrvel e indmito conquisstador, o tsar imperator, pouco visvel mas onipresente, justiceiro, chefe supremo da F e mensageiro da Razo. 
Os povos do imprio, os eslavos e os russos, em particuular, tinham pelo tsar reverncia, amor, temor, confiana. Quando os problemas no se resolviam, ou se agravavam, 
e surgiam as crises, as fomes, as guerras, as desgraas, a tendncia era sempre a de culpabilizar os responsveis imediatos: o burocrata, o poliicial, o militar. 
 guisa de consolo, diro para si mesmos, reverenntes, os camponeses (mujiks) russos: Deus est to alto, e o tsar to longe - provrbio simblico, condensado de 
tradies. 
As instituies polticas da autocracia imperial regiam uma sociedade fundamentalmente agrria. Cerca de 85% da populao vivia no campo, em fins do sculo XIX. 
De um lado, na base da sociedade, trabalhando a terra, vivendo dela, a imensa massa de dezenas de milhes de mujiks, habitando pequenas aldeias, organizados em com 
unas agrrias, o mir (universo, paz), uma instituio ancestral dotada de uma assemblia (a obchina), onde se reuniam os patriarcas de cada famlia, para eleger, 
dentre os mais velhos, o chefe local, o staarosta, a quem se atribuam diversas funes: resoluo de pequeenos conflitos, recolhimento de impostos, recrutamento 
militar etc. Alm disso, a obchina responsabilizava-se pela distribuio/ redistribuio peridica das terras comunais, segundo as necesssidades (as bocas) e as 
possibilidades (os braos) estimadas. Aqui residiam a fora e a fraqueza do mir russo. A fora provinha de um igualitarismo bsico, propiciando solidariedade, concretiizada 
no trabalho comum, nas mltiplas atividades de auxlio mtuo, conferindo identidade e coeso social. A fraqueza derivaava do desestmulo  inovao, ao progresso 
familiar e individual fundado em rendimentos crescentes dos respectivos lotes, semmpre ameaados em sua integridade pela sombra das peridicas rcdistribuies, previstas 
pela lei e pelos costumes. 
No topo da pirmide social, dominando aquela sociedade agrria, algumas dezenas de milhares de proprietrios de terra (cerca de 107 mil famlias), os pomeschtchiki, 
quase todos vincuulados a famlias nobres. Embora em declnio ao longo do sculo XIX, conservavam fora poltica e prestgio social, formando a principal base social 
da autocracia tsarista. 
A agricultura russa apresentava uma paisagem desigual: no sul e no oeste j havia grandes propriedades produzindo cereais e acar de beterraba para exportao, 
controladas por capitalistas ou por nobres convertidos aos negcios. Era a Rssia que se transformava no celeiro da Europa, principalmente da Inglaterra e da Alemanha. 
Os mujiks trabalhavam a terra com os braos e rudimentares instrumentos. Cerca de 60% eram classsificados como pobres, os biednakis; abaixo deles, sem acesso  terra, 
os assalariados, os batraks (cerca de 1,5 milho); 22% eram considerados medianos, ou remediados, os seredniakis; finalmennte, num estatuto relativamente mais elevado, 
menos de 19%, os kulaks. Mas seria um exagero cham-Ios de ricos. Controlaavam muitos dos demais camponeses em seus kulaks (punhos), porque lhes emprestavam dinheiro 
e sementes. E gozavam de prestgio social, dispondo de melhores condies, como a de oferecer instruo bsica  famlia. Entretanto, compartilhavam das condies 
penosas que marcavam a vida de todos os que trabalhavam nos campos russos: pequenas aldeias de casas de madeira apertadas, dando para ruas de poeira (vero) e de 
lama (inverno), sem os confortos bsicos da vida moderna, sujeitos a surtos de doena e de fome. . 
Em 1890, mais de metade das famlias tinham menos de dois cavalos, em mdia. Um tero dos mujiks dispunha apenas de pequenos lenos de terra (1 a 2 deciatinas/l 
deciatina = 1,09 hectare). Em 1905, uma pesquisa oficial !ll0strou que, nas terras comunais, metade das famlias possuam menos de oito deciaatinas, ou seja, abaixo 
do limiar considerado mnimo para soobreviver com tranqilidade. 
Os mujiks trabalhavam em condies muito baixas de produtividade, comparadas com os padres europeus, registran-
do-se, apesar de progressos localizados, avanos muito lentos: nos anos 60 do sculo XIX, por exemplo, cada agricultor produuzia, em mdia, 2,21 puds de trigo (1 
pud = 16,38 kg). Ora, em 1905, a produo girava em torno de 2,81 puds, ou seja, um crescimento de apenas' 27% em quase quatro dcadas. Circunsstncias histricas 
e sociais condicionavam o fenmeno: tcnicas de produo tradicionais (assolamento trianual), instrumentos de trabalho pouco eficientes (ainda predominava o antigo 
arado de madeira, a sokha), escasSez de ,trao animal e de fertilizantes orgnicos e qumicos, retalhamento excessivo e insegurana quanto  posse a longo prazo 
dos pequenos lotes, periodicaamente redistribudos, como j se disse, no interior da comuna. 
Uma sociedade atrasada, sem dvida, considerada no contexto da Europa. Melhor seria dizer: que se atrasou. Com efeito, em 1815, depois da derrota definitiva da aventura 
napoolenica, por ocasio do Congresso de Viena, a Rssia imperial aparecia como grande potncia poltica, militar, demo grfica, econmica. Seus exrcitos haviam 
desempenhado papel essenncial na destruio da Frana revolucionria. Em torno de sua fora, estruturou-se a Santa Aliana, destinada a manter a paz e a ordem na 
Europa e no mundo. Nas dcadas seguintes, e at o fim da primeira metade do sculo XIX, a Rssia manteve-se como a polcia do mundo, a reserva onde podiam apoiar-se, 
e se apoiavam, conservadores e reacionrios de todos os quadrannteso O pensamento progressista a denunciava. Os revolucionrios a abominavam. 
Quando, em 1848, eclodiram as revolues sociais e naacionais europias, a primavera dos povos, o tsarismo cumpriu o pacto que assinara com a ordem estabelecida, 
projetando sua sombra sinistra, inibindo a rebeldia com ameaas, ou, quando foi o caso, na Europa central e oriental, matando as revolues com seus exrcitos. Salvando 
a ordem, o imprio tsarista parecia um gigante inabalvel. 
Pouco anos depois, no entanto, ao tentar submeter o Immprio Otomano, tradicional rival, a diplomacia russa avaliou mal a correlao de foras. A chamada Guerra 
da Crimia (1853-
1856), contra a aliana anglo-francesa, embora travada em terriitrio russo, revelou os ps de barro do gigante: exrcito mal equipado, soldados desmoralizados, 
oficialidade despreparada, meios de comunicao sofrveis, linhas de abastecimento mal organizadas. Foi uma catstrofe para o imprio, obrigado a reecuar de suas 
pretenses imperialistas tradicionais na rea domiinada pelo Imprio Otomano. 
A ROSSIA TRADICIONAL 
E A REJEiO DA MODERNIDADE OCIDENTAL 
Introduzira-se naquelas quatro dcadas, entre 1815 e 1855, um descompasso que se tornara histrico entre a Rssia tsarista e as potncias capitalistas mais dinmicas 
da Europa. Como se a Rssia no tivesse sido capaz de acompanhar o proocesso de modernizao (a Revoluo Industrial) que estava mudando a paisagem econmica e social 
da Europa ocidental desde fins do sculo XVIII. Em 1820, a Rssia produzia mais ferro que a Frana ou os Estados Unidos, ou a Prssia, e o equiivalente a um tero 
da produo inglesa. Quarenta anos depois, produzia dez vezes menos do que a Inglaterra, um tero do que produziam os EUA e tinha sido j ultrapassada pela Frana 
e at pela Prssia. Tomando um outro setor econmico chave da poca, o carvo, repetem-se os termos de uma comparao dessfavorvel. A produo inglesa atingia em 
1860 a marca de 67 milhes de toneladas, os EUA e a Prssia avizinham-se dos quinze milhes de toneladas, enquanto a Rssia produzia menos de cem mil toneladas ... 
Tornou-se comum, desde ento, atribuir-se ao reino do tsar Nicolau I, entre 1825 e 1855, a responsabilidade pela consstruo do atraso. No h dvida de que se tratou 
do reino mais obscurantista que a Rssia teve ao longo do sculo XIX. E tammbm no se duvida de que o tsar excedeu-se com gosto e convico no exerccio da represso, 
contribuindo com ordens e estmulos para organizar uma sociedade de trevas, "onde cada comissrio de polcia  um soberano e em que o soberano  um comissrio de 
polcia coroado" (A. Herzen). Uma sociedade 
vigiada, censurada, policiada, reprimida. Mas no se poderia dizer que era estagnada ou congelada. 
A propsito de uma sociedade histrica, sempre em moovimento, nunca ser prprio o emprego da metfora do congelaamento, ou da estagnao. Tambm no parece adequado 
atriibuir a um tsar, por poderoso que fosse, suficiente fora para reger e enquadrar todo um imprio, diverso e mltiplo. Na verrdade, naquele mundo de trevas, era 
possvel identificar, em ao, foras sociais e polticas, cert~mente muito diferentes, mas unidas, numa hostilidade bsica ao padro de vida que ento se estabelecia 
na parte ocidental da Europa. Nesse sentido, o tsar poderia ser visto como o chefe obscurantista de uma socieedade apegada a valores tradicionais. 
O Ocidente, o desafio ocidental, as idias perigosas e malditas de um Ocidente em constante mutao, cultuando o bezerro de ouro com suas idias materialistas e 
valores subversiivos diversos: individualistas, liberais, socialistas, revolucionrios. A Rssia hierrquica, nobre, comunitria, religiosa, tradicional, no aceitava 
esse padro. 
Na primeira metade do sculo XIX, um grande debate condensou a reflexo sobre estes dois caminhos: de um lado, pequenos grupos de nobres e/ou de intelectuais, a 
intelligentsia emergente, cultores do modelo ocidental, sintonizados com o pensamento liberal ou revolucionrio da Frana, Inglaterra e Alemanha, os ocidentalistas. 
De outro, os eslavfilos, partidrios das tradies caras  sociedade russa, rejeitando as maneiras de ser e de viver ocidentais. Nicolau I,  sua maneira,  maneira 
policial, exprimiu essa recusa. E seu reino foi tanto mais longo quanto profunda era a recusa russa ao modo de vida ocidental. 
Contudo, o revs desmoralizante na Guerra da Crimia evidenciara os limites da opo tomada, e o tsar, falecido em maro de 1855, no sobreviveria  derrocada de 
sua utopia de trevas. Era necessrio manter a recusa, mas por um outro camiinho: o caminho das reformas. 
o PROGRAMA REFORMISTA: 
EM BUSCA DE UMA MODERNIDADE ALTERNATIVA 
Alexandre lI, filho e sucessor, assumiria as reformas to logo acedeu ao poder. 
Desde 1848 funcionavam comisses secretas para pensar a questo da servido, considerada o n maior que prendia a Rssia ao passado, um entrave ao desenvolvimento 
econmico e social, uma chaga moral, envenenando e tornando miserveis as relaes sociais. Desenvolvendo-se a partir do sculo XVII, a servido teve um percurso 
prprio no imprio russo. A cada impulso modernizante, ao longo dos sculos XVII e XVIII (reforrmas de Pedro, o Grande, e de Catarina II), o sistema, longo de se 
abalar, ganhava corpo e razes. Enquanto se enfraquecia na Europa, fortalecia-se na Rssia. No mesmo movimento, autoonomizando-se perante o Estado, cresciam a importncia, 
a fora e o prestgio dos nobres, dominando os mujiks, convertendoose, segundo a tradio russa, muito simblica, em senhores de almas. Entretanto, a derrota na 
guerra j no deixava dvidas. Mesmo porque o cataclismo fora precedido e acompanhado por crises na ordem econmica e por crescentes demonstraes de insatisfao 
nos campos e nas cidades. As presses vinham agora de toda parte, tornando-se inexorveis. Para sobreviver, era preeciso reformar ou perecer. 
As reformas sob o impulso e a liderana de Alexandre II marcaram poca. 
A principal, de longe, foi a abolio da servido, decretada em fevereiro de 1861. Emancipou todos os servos, observados curtos perodos de transio, segundo modalidades 
de servido e caractersticas regionais. Atribuiu terras aos mujiks, mas no todas, como era sua reivindicao histrica. E no aos indivduos ou s famlias, mas 
s comunas, reorganizadas e reforadas em sua funo bsica de redistribuir a terra aos habitantes do miro Mas o acesso definitivo  terra no seria gratuito. Os 
mujiks teriam que pagar por elas, e caro, em dezenas de prestaes anuais, ao Estado, que assumiu a o papel de intermedirio, fiinanciando o processo e ressarcindo, 
em tese, os nobres pelas 
terras que estavam perdendo. Em tese, porque, sendo colossais as dvidas da nobreza, o processo, em muitas regies, reduziuuse a uma liquidao de hipotecas. 
Seguiram-se, ao longo dos anos 60 e 70, outras reformas, tambm fundamentais; alcanando diferentes dimenses da sociedade. 
Nas finanas pblicas, determinou-se a confeco de um oramento de Estado, devidamente publicado, e organizou-se uma nova sistemtica de impos~os com procedimentos 
de conntrole sobre o Tesouro, a arrecadao e as despesas. Dinamizaaram-se as estruturas educacionais, melhorando o ensino em todos os nveis e conferindo margens 
de autonomia s universiidades. Na administrao da Justia, criaram-se garantias  maagistratura, at ento inexistentes, e instituiu-se o jri, com diireito de 
defesa assegurado ao ru com debates contraditrios, pblicos. Do ponto de vista do poder poltico, instituies interrmedirias permanentes foram autorizadas: nas 
provncias e disstritos, os zemstva; nas cidades maiores, as dumas. Dispunham de uma certa autonomia, oramento prprio, poder para contraatar pessoal e jurisdio 
sobre certos setores: educao, sade, transportes pblicos, iluminao etc. Finalmente, mas no meenos importante, uma profunda reorganizao nas Foras Armaadas: 
do alto comando ao recrutamento, as estruturas militares foram reformadas no sentido de adapt-Ias s exigncias moderrnas que j no se podiam ignorar depois da 
Guerra da Crimia. 
Desde que foram promulgadas, entre os contemporneos, e at hoje, nas batalhas historiogrficas, as reformas de Alexandre II foram, e so, objeto de acesas controvrsias. 
Modernizantes, sem dvida, conseguiram superar alguns entraves histricos, sobretudo o principal deles, representado pelo regime da servido. Mas mesmo a grande 
reforma seria questionada e at rejeitada, com diferentes argumentos e por foras disparatadas. 
Os mujiks haviam ganho a emancipao e a terra, mas permaneceram como cidados de segunda classe, objetos de mltiplas restries e controles. Como j se viu, no 
consegui- 
ram toda a terra, e ainda tiveram que pagar pela parte que lhes coube. Acederam s terras em complicadas negociaes com os senhores, mediadas freqentemente por 
autoridades arbitrrias. Da por que muitos se sentiram logrados. Em certas partes do imprio houve insatisfao e revoltas, sufocadas a ferro e fogo. 
Os revolucionrios, mesmo os mais moderados, sentiiram-se ultrajados e trados. Denunciaram a reforma como engoodo e farsa. E declararam guerra ao tsarismo. De seu 
exlio lonndrino, Alexandre Herzen, que, em certo momento, cultivara a convico de que as reformas poderiam ser, e seriam, mais proofundas, evitando-se com elas 
um desfecho catastrfico de revolltas e represso, acusou o golpe e alinhou-se com a intelligentsia mais radical. Esta, estimulada e liderada na Rssia por N. Tchernichevsky, 
que sempre duvidara do alcance real de reforrmas empreendidas pelo alto, no dissimulou a hostilidade, radicalizando atitudes e posies. Na revista legal O Contempoorneo 
(Sovremenik), cresceu a agitao cultural e poltica, o que levou a seu fechamento. Tchernichevsky seria preso e deportado em 1862. No mesmo ano, porm, a fundao 
da primeira orgaanizao revolucionria clandestina Terra e Liberdade (Zemlia i Valia) marcou uma reviravolta. A intelligentsia passava  luta sem quartel contra 
o tsarismo, recorrendo inclusive a aes armadas. 
A nobreza enfraqueceu-se de modo decisivo. Entrou em processo de lento declnio, do qual, como classe, no mais se recuperou, embora alguns setores, capazes de adaptar-se 
aos novos tempos, tenham conseguido at aumentar suas riquezas. - Avantajou-se o Estado, o' grande vitorioso, sem dvida. Com a nobreza perdendo mpeto e o reforamento 
da depenndncia estatal das estruturas comunitrias em cada aldeia, o mir e a obchina, o Estado, designado como intrprete do interesse geral, parecia reunir condies 
para impulsionar reformas ainda mais abrangentes. Mas isso tambm no aconteceu. Pressionado pelas foras conservadoras e por conselheiros reacionrios, o tsar considerou 
que fora longe demais. Demitiu, fez retrogradar, ou isolou, as lideranas reformistas mais ativas e conseqentes, o chamado partido vermelho, que se agrupara no 
Ministrio do
Interior sob a liderana do conde Lanskoi, reunindo funcionrios nobres e plebeus, entre os quais os irmos Nicolau e Dmitri Miliutin, principais crebros das mudanas 
empreendidas. 
Ao contrrio da intelligentsia, partidria das mudanas pela revoluo, com base em insurreies camponesas igualitaaristas, representavam uma outra tradio russa 
- a intelectocraacia, uma outra via, a da promoo das mudanas por meio de reformas pelo alto, pelo Estado. Em comum, intelligenti e inteelectocratas tinham a perspectiva 
de uma outra modernidade, disstinta do modelo ocidental, preservando valores que conferiam especificidade  sociedade russa. Mas seus projetos baseavammse em distintas 
foras sociais e formulavam diferentes objetiivos e formas de encaminhamento. 
Com o recuo do tsar, o processo reformista perdeu fora, estiolou-se a meio caminho. 
Superestimando a insatisfao popular e os fatores de crise, imaginando a configurao de um impasse catastrfico, immportantes setores da intelligentsia pensaram 
ter chegado a sua hora. D. V. Karakozov, em ao isolada, tentaria sem xito matar o tsar, em abril de 1866, inaugurando na Rssia a tradio do justiiamento de 
autoridades com o objetivo de desestabilizar a ordem. 
Ao mesmo tempo, surgiam outras idias e lideranas raadicais. S. Netchaeve a defesa da construo de uma organizao clandestina, reunindo revolucionrios comprovados, 
completaamente devotados  causa, homens sobre-humanos, capazes de resistir com xito ao cerco da polcia poltica. P. Tkatchev e a idia fixa de alcanar o poder, 
tom-lo, para fazer dele um insstrumento de transformao social. P. Lavrov e a proposta de um paciente trabalho de transformao das conscincias pela propaganda 
do iderio revolucionrio, a ser realizado por hoomens e mulheres de uma dedicao a toda prova, dispostos a abandonar seus quadros de vida em prol da emancipao 
da sociedade em que viviam. 
Animados por tais projetos, em meados dos anos 70, miilimes de jovens partiram para o campo, na tentativa de sublevar os mujiks em nome de uma real emancipao, 
negada pela refor- 
ma tsarista. Foram ao povo (narod) e passaram  histria com a aura de revolucionrios abnegados e determinados (narodniks), dispostos a tudo, at mesmo a entregar 
a prpria vida em defesa de uma modernidade revolucionria e dos ideais de liberdade poltica e de igualdade social. Mas o povo no os reconheceu, nem a seus projetos 
salvacionistas. Entre 1873 e 1877, seriam presos (1.611), muitas vezes delatados pelos prprios mujiks, processados e condenados (844), sob a simpatia condoda, 
mas impassvel, da sociedade. 
Enquanto a fria revolucionria multiplicava aes e orrganizaes (fundao de uma segunda Terra e Liberdade, em 1876), fortaleciam-se os setores conservadores, 
solicitando meedidas e polticas de contra-reforma. Nessa dialtica infernal, condenado em 1879  morte pelos revolucionrios, o tsar seria finalmente executado, 
em maro de 1881, depois de vrias tentaativas frustradas, por uma nova organizao radical, a Vontade/ Liberdade do Povo (Narodnaia Valia). Num aparente paradoxo, 
o tsar emancipador terminava seus dias estraalhado a bombas. Contudo, ao contrrio do que esperavam os revolucionrios, no se desestabilizou a ordem, nem o povo 
se comoveu, salvo para chorar o imperador morto. O atentado teve assim dois reesultados: a ascenso de um novo tsar, o fIlho do defunto, Aleexandre III, comprometido 
com as foras mais . reacionrias do imprio, e a intensificao da represso poltica. 
MUTAOES E CONTRASTES NA RSSIA IMPERIAL 
Mas as reformas empreendidas, embora parciais e incommpletas, abriram horizontes novos  Rssia. Brechas por onde entrariam diferentes foras polticas, sociais 
e econmicas, confiigurando, desde os anos 60, e sobretudo a partir dos anos 90, outras mutaes. 
O crescimento demogrfico explosivo: entre 1865 e 1890, a populao cresceu 156%. De 1890 a 1913, mais 145%. Em nmeros absolutos, um salto de 75,1 para 170,9 milhes 
de allmas, sem que se verificasse no perodo nenhuma anexao territorial e/ou populacional expressiva.  certo que as precrias 
estatsticas russas autorizariam diversas estimativas, mas no h divergncias entre elas na caracterizao da ordem de grandeza das transformaes demogrficas 
verificadas. Ou seja, apesar da baixa produtividade da economia em geral, e da produo agrcola, em particular, em virtude do aumento da taxa de nataliidade e 
da reduo da taxa de mortalidade, houve um cresciimento aprecivel da populao: entre 1861 e 1870, uma proogresso anual de cerca de um milho de habitantes; desde 
ento e at 1913, mais 2,4 milhes por ano. Um aumento formidvel de bocas a alimentar, de braos  procura de trabalho. Uma presso extraordinria, se no fosse 
bem administrada, podeeria ter conseqncias dramticas. 
A progresso da rede de estradas de ferro, induzida pelo Estado, basicamente por consideraes de ordem estratgica, teve, como j fora o caso na Europa ocidental, 
um imenso immpacto na intensificao do comrcio interno e externo e no auumento da produo de setores industriais correlacionados: o carvo (as minas do Donetz), 
o ferro (Krivoi Rog), a metalurgia (os complexos do Donetz e do vale do Dniepr), o petrleo (Baku). Em 1865, uma dcada depois de emergir da derrota da guerra da 
Crimia, a Rssia dispunha de apenas 3,8 mil quilmetros de estradas de ferro. Em 1913, era de 70,2 mil quilmeetros a rede disponvel. Um crescimento de 809% numa 
primeira fase, entre 1865 e 1890. Da a 1913, mais 229%. 
O comrcio externo, apoiado no aumento das exportaaes, basicamente de cereais, registrou quase sempre supervits expressivos, permitindo compras de mquinas e 
equipamentos no mercado internacional, encorajando o fluxo de emprstimos da Frana e da Blgica, sobretudo, mas tambm da Alemanha e da Inglaterra, e uma corrente 
importante de investimentos euroopeus, principalmente em setores tecnolgicos de ponta. Em 1900, nas minas, alcanavam cerca de 70%; na metalurgia, cerca de 42%; 
propores semelhantes eram registradas nos setores qumico e eltrico. 
Enquanto os capitais internacionais assenhoravam-se, direta ou indiretamente, dos setores industriais mais dinmicos, 
fortalecia-se a burguesia russa nos centros industriais mais anntigos: Tula e Riazan, na Rssia central, Kharkov, na Ucrnia oriental, as cidades ao longo do Rio 
Volga, todas dedicadas a atividades mais tradicionais, mas tambm importantes: tecidos, vesturio, alimentos, mobilirio etc. Os russos conservavam tambm posies 
no setor bancrio altamente monopolizado, muitas vezes associados a interesses internacionais. 
Formava-se uma articulao de capitais nacionais e innternacionais, patrocinada, estimulada e protegida pelo Estado. Uma poltica sistemtica, implementada por um 
outro intelecctocrata, S. Witte, entre 1892 e 1903, aplicara um conjunto de medidas coerentes, construindo um quadro favorvel para o crescimento industrial e as 
exportaes: tarifas alfandegrias altas, reserva de mercado, oramento equilibrado, moeda forte, fiscalidade baseada em impostos indiretos, poltica agressiva de 
atrao de capitais externos, encomendas diretas a setores deterrminados (indstria blica) e, quando era o caso, controle direto, como no caso das estradas de ferro 
(dois teros controlados pelo Estado). A Rssia imperial abria, finalmente, as portas para o desenvolvimento do capitalismo, numa perspectiva de suubordin-Io aos 
interesses do Estado. Nos setores mais dinmicos da economia, carentes de tecnologia sofisticada, e, por extenso, no conjunto da sociedade, criava-se uma situao 
de depenndncia aos capitais internacionais, mas a Rssia conseguiria manter um grau considervel de autonomia. Como gostava de dizer S. Witte, e com razo, "a Rssia 
no era uma China': 
A incidncia desse processo no crescimento urbano foi notvel. At s vsperas da Primeira Guerra Mundial, embora ainda uma sociedade fundamentalmente agrria, a 
Rssia assisstiu a uma transformao significativa da paisagem de suas cidaades e do peso relativo destas no conjunto do imprio. No incio do sculo XX, So Petersburgo 
e Moscou j tinham mais de um milho de habitantes (1,2 e 1,0 milho, respectivamente). Destacavam-se mais alguns outros centros urbanos, registrando grandes progressos: 
na Polnia russa, Varsvia e Lodz, com 640 e 400 mil habitantes, respectivamente; nos Estados blticos, Riga 
-. 
. . 
(290 mil habitantes); na Ucrnia, Kiev, Kharkov e Odessa (250, 100 e 400 mil habitantes). Algumas dezenas de pequenas cidaades, essencialmente industriais, surgiam 
como do nada, reuninndo de 50 a 100 mil pessoas. A populao urbana quase dobrara em menos de quarenta anos, alcanando cerca de 15% (alguns estimariam em 18%) da 
populao total. 
A classe operria industrial aumentara dois teros em pouco menos de dez anos, passando, entre 1890 a 1900, de cerca de 1.500 trabalhadores a quase 2.400. Considerada 
uma mdia de 4/5 pessoas por famlia, um pouco mais de doze milhes de pessoas vivendo em torno dos setores industriais. 
Todos esses nmeros, expressivos em si mesmos, evidennciando um notvel progresso, careceriam, no entanto, de uma certa relativizao: boa parte das cidades ru~sas 
era ainda cerrcada pela economia e cultura agrrias, ou ainda profundamente impregnada por hbitos e costumes camponeses. A prpria ciidade de Moscou, a segunda 
maior do pas, continuava imersa numa atmosfera camponesa, o casario de madeira, a presena dos mujiks no prprio interior da classe trabalhadora, voltando maaciamente 
aos campos na poca das colheitas e das semeaduras. 
Numa outra dimenso, e apesar dos progressos referidos, inegveis, a economia russa evidenciava limitaes no contexto internacional. O estudo comparado de alguns 
setores estratgicos (energia, ao, estradas de ferro, carvo, algodo), entre 1860 e 1910, quando a Rssia passou por seus booms de cresciimento, mostra a posio 
retardatria do imprio tsarista. Longe, em dcimo lugar, atrs no apenas das grandes potncias da poca (EUA, Inglaterra, Alemanha, Frana e Japo), mas tammbm 
da Blgica, Sucia, Sua e Espanha. O quadro ainda se tornaria mais dramtico se adicionados os ndices de produtiividade no campo. J outros clculos, considerando 
o volume total da produo, poderiam apresentar resultados mais animaadores, mascarando as extremas desigualdades de um imenso pas de grande populao, uma potncia 
aparente, mas ainda 'ol1servando decisivas fragilidades. 
A mensurao dos avanos e a avaliao dos progressos, questes aparentemente simples, gerarariam grandes batalhas historiogrficas. As questes em jogo no eram 
nem um pouco desprezveis: demonstrar, ou no, o tsarismo como fator de blooqueio histrico inarredvel, justificando, ou no, uma revoluo emancipadora. Mais tarde, 
evidenciar, ou no, os progressos realizados, como forma de provar, ou no, as bases materiais e, em conseqncia, as possibilidades da construo do socialismo 
na Unio Sovitica. 
Mas sempre houve um consenso: o desequilbrio, o atraso e as carncias da agricultura. Os progressos efetuados pelas granndes culturas de exportao no conseguiam 
impedir a constaatao de que a Rssia estava exportando alimentos em troca da fome das prprias populaes. 
Assim, o influxo do capitalismo na Rssia, apesar do proogresso proporcionado, no foi capaz de resolver os problemas acumulados e acentuou contrastes no processo 
de desenvolviimento econmico em curso. Em espaos contguos, era comum constatar a existncia do que havia de mais avanado e de mais atrasado no mundo de ento. 
Na bacia carbonfera do Donetz, na Ucrnia, coexistiam indstrias metalrgicas de ponta e o arado de madeira, empregado ainda por cerca de 50% das explooraes agrolas 
vizinhas. Tambm no sul, modernssimas refiinarias de acar combinavam-se com o trabalho semi-servil dos mujiks. Sem falar das indstrias de material de preciso 
de So Petersburgo, ou da indstria petrolfera de Baku, onde equipaamentos de ltima gerao, do ponto de vista da tecnologia dissponvel, eram manejados, s vezes, 
por operrios trabalhando em condies de vida de um outro sculo. Diferentes etapas hisstricas, universos contraditrios, mas entrelaados, integrados. 
O desenvolvimento desigual e c0l1'!binado (Trotski) no se resumia ao mundo da economia e da produo. Marcava o connjunto da sociedade, onde se mesclavam, como 
diferentes expressses de uma mesma Rssia, os refinados aristocratas que se exxprimiam com mais conforto em francs do que na lngua maaterna e o mujik rude e iletrado. 
As moas rendadas da elite e as 
camponesas atracadas nas pesadas fainas agrcolas. Os bailes cinntilantes de cristais e pratarias em que confraternizavam as famlias ricas e poderosas e as ftidas 
cantinas onde comiam os trabaalhadores. 
Em cada dimenso da cultura contempornea, a Rssia sustentava a comparao com o que havia de melhor: a graa dos bals (S. Diaghilev) e das bailarinas (A. Pavlova), 
o teatro (A. Tchekhov), a pera (S. Prokhofiev), a poesia (V. Maiakovski, A. Akhmatova), a prosa (L. Tolstoi, F. Dostoevski, M. Gorki), a msica (N. Rimski-Korsakov, 
S. Rachmaninov, I. Stravinski), a pintura (M. Larionov). Os bulevares e a graa de So Petersburgo, a Veneza do Norte das trezentas pontes, e as aldeias lamacentas 
nas estepes sem fim. Elites brilhantes, civilizadas. Sociedade fossca, bruta, chula. Flores no pntano. Prolas e porcos. 
Progresso e atraso em doses to desproporcionais consstituam uma perigosa mistura de arrogncia e de ressentimento. Segundo as circunstncias, a combinao poderia 
gerar explooses imprevisveis. 
As elites conservadoras, porm, mantinham-se, em geral, agarradas ao sempiterno amaldioamento das mudanas, de qualquer mudana, fosse qual fosse sua natureza. 
Tinham do progresso material uma concepo meramente instrumental. Imaginavam-no apenas como uma ferramenta para consolidar a prpria dominao, como se fosse possvel 
separar mquinas e fbricas dos valores subjacentes e dos modos de vida que as pressupunham. A rigor, desejavam conjurar os abismos retroocedendo no tempo. J haviam 
condenado as reformas empreenndidas por Alexandre II, fazendo o possvel para entrav-Ias, saabot-Ias, derrot-Ias. Com muito mais razo, condenariam os surtos 
capitalistas, que ocidentalizavam a Rssia. Agrupavammse na corte imperial e nas instituies conexas (Conselho de Estado, Senado do Imprio), incentivando o tsar 
a defender as prerrogativas de autocrata e a recusar concesses de ordem poltica. 
Mesmo no topo da pirmide, entretanto, comeavam a destacar-se correntes renovadoras, liberais. 
Eram muito diversas e contraditrias, desde os mais mooderados, que pressionavam por um ensaio de monarquia consstitucional, pela convocao de uma assemblia consultiva 
e pelo reconhecimento de uma plataforma de liberdades civis, aos mais radicais que passaram a se organizar na ilegalidade: em 1902, na Alemanha, fundaram uma revista, 
Liberdade, que circulava clandestinamente na Rssia. Na seqncia, em 1904, sempre na ilegalidade, formariam um partido, a Unio da Liberdade, commprometido com 
a luta contra a autocracia e por um programa favorvel  convocao de uma Assemblia Constituinte. As corrrentes liberais reuniam nobres reconvertidos em empresrios, 
capites de indstria, professores, advogados, mdicos, repreesentantes e funcionrios dos zemstva e das dumas, enfim, os filhos das reformas e dos surtos desenvalvimentistas 
desencadeados desde os anos 1860. Pensavam em controlar a autocracia, alguns poucos chegavam mesmo a desejar sua derrubada. Na diversidade que era a deles, compartilhavam 
a convico de que aquelas tradies tiinham seus dias contados e que era necessrio preparar o futuro, para que a transio pudesse se realizar em ordem. 
Entretanto, tambm na clandestinidade, outras alternaativas, revolucionrias, se gestavam. 
o POPULISMO REVOLUCIONRIO RUSSO 
O papulisma, apesar das derrotas polticas, da desarticulaao de suas principais organizaes, Zemlia i Valia e Naradanaia Valia, e das duras perseguies a que 
foram submetidas seus partidrios, sobreviveu aos reveses. Com base em mltiplos grupos autnomos, formados nas cidades e em centros rurais, ao longo dos anos 90, 
empreendeu-se a fundao de um novo partido, afinal constitudo em 1902: o Partido Socialista Revoluucionrio. Reunia militantes histricos, ainda aureolados pelos 
enfrentamentos dos anos 70 e 80, como Catarina BrechkooBrechokovskaia, a decana do movimento revolucionrio russo, Natanson, Gotz, e indivduos de uma gerao mais 
jovem, como G. Guerchuni e V. Tchernov. Assumiam todos a tradio revoolucionria multifactica construda desde os anos 60: a propa- 
ganda revolucionria, o trabalho de organizao, as greves, a ao direta, os atentados a autoridades consideradas responsveis pela ordem vigente. Ao mesmo tempo, 
o novo partido forrmulou um programa comprometido com as liberdades civis e polticas, por uma Assemblia Constituinte, adaptando-se, assim, s novas circunstncias 
promovidas pelas transformaes por que estava passando a sociedade russa. Muitos consideravam os socialistas revolucionrios (SRs) mais como uma confederaao de 
grupos do que como um partido, no sentido prprio do termo. O fato  que, apesar da fluidez de suas estruturas orgaanizativas, ou por causa disso mesmo, e tambm 
porque se referiam a toda a gesta herica da resistncia ao tsarismo inncorporando-a, os SRs encontravam eco na sociedade, dissemiinando-se, parecendo corresponder 
a certas tendncias que, embora difusas, estavam bem ancoradas na sociedade russa: os ideais comunitrios e igualitrios, as demandas libertrias e a recusa aos 
valores propagados pela modernidade ocidental. 
Os populistas desejavam construir uma outra moderniidade. No gratuitamente aproximaram-se de K. Marx. Os naarodniks apreciavam em Marx a crtica devastadora ao 
sistema capitalista. Foi um intelectual populista, Natanson, que traduziu pela primeira vez O capital para a lngua russa. Encontravam no revolucionrio alemo argumentos 
adicionais para a propaaganda no sentido de evitar na Rssia o capitalismo, considerado um regime execrve1. Por isso mesmo, procuraram-no, estabeelecendo intensa 
correspondncia sobre a hiptese de ser possvel na Rssia efetuar, com base nas comunas rurais e nas tradies igualitrias do campo russo, um salto revolucionrio 
histrico, das estruturas comunitrias tradicionais ao socialismo, sem passsar pelo capitalismo. 
Marx chegou a admitir a possibilidade do salto sob duas condies: a de que as comunas agrrias resistissem com xito ao avano do capitalismo e, mais importante, 
a de que uma reevoluo russa fosse acompanhada pela vitria do proletariado internacional, ensejando que este ltimo, avanado, pudesse vir em socorro da Rssia 
atrasada. 
A SOCIAL-DEMOCRACIA E O MARXlSMO NA ROSSIA: 
BOLCHEVIQUES E MENCHEVIQUES 
A corrente social-democrata constituiria uma outra verrtente do movimento revolucionrio. Originou-se de uma ciso ocorrida no congresso da Zemlia i Valia, em 1879. 
Descontentes com as aes diretas de vanguarda, espetaculares, mas consideeradas ineficazes, um grupo de militantes, entre eles G. Plekhanov e P. Axelrod, defendia 
um trabalho poltico de agitao das consscincias, a longo prazo. Mais tarde, j no exlio, aproximarammse das idias de K. Marx e F. Engels, alinhando-se com as 
grandes teses da social-democracia internacional que ento se afirmavam em diversos pases da Europa central e ocidental. 
Em 1883, fundaram um grupo, Emancipao do Trabaalho, e uma editora, a Biblioteca do Socialismo Contemporneo, retomando, em outro viis, a tradio constituda 
por A. Herzen desde os anos 50, no exlio londrino. Tratava-se, mais uma vez, de produzir textos, tericos e informativos, e contrabande-los para o interior do 
imprio para despertar conscincias e formar grupos revolucionrios. 
Descrentes quanto s comunas agrrias, em dvida quannto ao potencial revolucionrio dos mujiks, tenderam a incorpoorar o marxismo evolucionista-determinista ento 
em voga no ambiente intelectual da social-democracia internacional, cujo catecismo era a anti-Dhuring, de F. Engels. 
Plekhanov, ao longo dos anos 80 e 90, foi quem melhor encarnou a ortodoxia desse marxismo russo nascente: o sociaalismo na Rssia no mais se bsearia, como pensavam 
os poopulistas, no campesinato, nas tradies rurais igualitrias e na comuna agrria, mas no progresso urbano, na classe operria emergente, na fbrica. 
Nas condies existentes, tratava-se, numa primeira etapa, de concentrar energias e formar as mais amplas frentes poltiicas no sentido da derrubada da autocracia 
tsarista e da construuo de uma Repblica democrtica, fundada no reconhecimento das mais amplas liberdades civis e polticas, definidas e consaagradas por uma 
Constituio. Nesse quadro, o capitalismo, a 
burguesia e a classe operria teriam, afinal, plenas condies de livre desenvolvimento. Os revolucionrios marxistas, na priimeira etapa, deveriam formar o seu 
partido, propagar o socialissmo e lutar contra o tsarismo, preservando sua autonomia orrganizativa e uma identidade poltica prpria. 
Instaurada a Repblica, comearia uma segunda etapa, quando as condies histricas, marcadas pelo enfrentamento direto entre burguesia e proletariado, permitiriam 
a luta aberta e direta pelo socialismo, como j ;vinha acontecendo no contexto da Europa ocidental. 
As teses da revoluo em duas etapas demarcaram os campos entre populistas e marxistas. Para os primeiros, os marrxistas no passavam de mais uma verso da tradio 
ocidentaalizante. Fantasiados de revolucionrios, iriam, de fato, paralisar as energias revolucionrias e induzir ao conformismo histrico,  espera da consecuo 
da primeira etapa. Para Plekhanov e seus discpulos, em contraste, os populistas no passavam de soocialistas utpicos, abnegados, sem dvida, mas incapazes de compreender 
as novas circunstncias histricas. Queriam fazer a roda da histria voltar para trs. Nesse sentido, eram reacionrios, no sentido prprio da palavra. 
Nos anos 90, no contexto de uma intensa luta terica e poltica, e em condies de clandestinidade, os primeiros parrtidos polticos socialistas marxistas russos 
comearam a tomar forma. Em 1892, surgiu o Bund, organizao de judeus marxistas, intelectuais, artesos e operrios. Em 1894, na Polnia russa, forrmou-se um outro 
partido social-democrata, igualmente inspiirado no marxismo. No ano seguinte, em So Petersburgo, apaareceu a Unio de Luta pela Emancipao da Classe Operria, 
reunindo intelectuais marxistas e lideranas operrias. Um pouco mais tarde, em 1898, fundou-se, afinal, um partido soocial-democrata russo. Embora desmantelado 
pouco depois pela polcia poltica, estabeleceu um marco. 
Do exlio, em torno de um jornal, Fasca (Iskra), a partir de fins de 1900, iniciou-se um outro processo de articulao de grupos para refundar o partido, liderada 
pelos veteranos do 
Grupo Emancipao do Trabalho (G. Plekhanov, P. Axelrod e V. Zassulitch), em aliana com intelectuais marxistas de uma nova gerao, j experimentados em lutas, 
exlios e prises, V. Ulianov, L Martov e Potresov. Estruturou-se uma rede, em que cedo se afirmou a liderana de V. Ulianov, conhecido pelo pseuudnimo que passou 
 histria: Lenin. 
A rede foi crescendo. Algum tempo mais tarde, as condiies amadureceram para a realizao de um novo congresso. Reunindo 51 delegados, de grupos atuantes na Rssia 
e no exlio, foi realizado no estrangeiro, em julho e agosto de 1903, onde as condies de segurana eram mais propcias. Mesmo assim, teve que enfrentar problemas 
com a polcia. Iniciado em Bruxeelas, os delegados tiveram que encerr-Io em Londres. 
O Congresso parecia destinado ao sucesso. Havia acordo em torno de aspectos bsicos: a revoluo em duas etapas, orienntaes para as lutas sociais, consolidao 
de uma identidade prpria, distinta da tradio populista. 
Entretanto, na ltima parte dos trabalhos, quando se traatou de aprovar o estatuto do partido, surgiu uma divergncia inesperada: Lenin e Martov apresentaram propostas 
diferentes. 
A do primeiro, de acordo com teses defendidas em traabalho publicado em abril de 1902, Que fazer? [Chto Delat?] , defendia uma concepo de organizao mais estrita: 
s poderia ser considerado filiado, com direito de voto, os militantes que participassem regularmente em organizaes do partido. Lenin propunha uma organizao 
de profissionais, totalmente devootada  ao poltica, capaz de resistir ao rigor repressivo da polcia poltica tsarista, disponvel, sem restries, para as 
tarefas revolucionrias. Em termos tericos, retomava frmulas de K. Kautsky sobre a relao entre teoria e prtica, atribuindo aos social-democratas a funo de 
levar a conscincia socialista ao proletariado de fora para dentro. Deixada a ela mesma, a classe operria, na melhor das hipteses, estaria apta a alcanar uma 
conscincia sindicalista, que enseja a luta para melhorar as conndies de venda da fora de trabalho, sem questionar o sistema capitalista, que pressupe essas 
condies.
A teoria kautskiana, impregnada de elitismo, no provoocou controvrsias. Mas o mesmo no ocorreu em relao  proofissionalizao do partido ou com a proposta, 
derivada, que reservava a condio de filiados aos que participassem reguularmente de uma de suas organizaes. 
Martov props uma outra abordagem: seriam filiados todos os que concordassem com o programa poltico e observasssem as orientaes da direo partidria, sem a obrigao 
de participao regular em uma de suas organizaes. 
Para muitos, uma diferena quase imperceptvel, consideerando-se as condies que os social-democratas ento enfrenntavam na Rssia. Mas houve um debate longo e 
apaixonado sobre a questo. A proposta de Martov venceu por escassa maiooria: 27 a 24 votos. 
Entretanto, quando o Congresso votou a questo decisiva da composio da direo partidria e do comit de redao da Iskra, a correlao de foras mudara. Oito 
delegados, que haviam votado com Martov, tinham se retirado do plenrio. Seis vinculavam-se ao Bund: reivindicavam autonomia interna no partido para os marxistas 
judeus, negada por esmagadora maiooria. Outros dois, considerados economicistas, partidrios de uma nfase decisiva no trabalho sindical, tambm abandonariam o Congresso, 
contrariados com crticas pesadas s suas teses. 
Assim, os partidrios de Lenin mantiveram seus 24 votos, mas a Martov s restavam dezenove. A maioria (boI' chinstvo ) tornara-se minoria (men'chinstvo), e a minoria, 
maioria. O Coomit Central e a direo do jornal foram eleitos com maioria de partidrios de Lenin. 
Martov considerou o resultado inaceitvel, recusou-o, acirrando os nimos. Pouco depois do Congresso, nova reviraavolta. G. Plekhanov, que votara com Lenin no Congresso, 
incliinou-se pelos adversrios, modificando a correlao de foras no comando da Iskra (constitudo por Lenin, Martove Plekhaanov). Agora, as denncias viriam de 
Lenin, que fundou um outro jornal, Avante! (Vperiod), aprofundando a diviso, que se tornou uma verdadeira ciso. 
A social-democracia russa estava nascendo rachada em duas alas: de um lado, Lenin e seus correligionrios. Passariam  histria com o nome de bolcheviques, de bol'chinstvo 
(maiooria), embora, desde o Congresso de fundao, nem sempre fosssem majoritrios, apesar de mais organizados e eficientes no trabalho prtico. De outro, Martov 
e seus partidrios, que acaabaram aceitando a pouco desejvel alcunha de mencheviques, de men'chinstvo (minoria). 
Os debates que se seguiram, pela virulncia dos termos empregados, nem sempre compreendidos pelos no-iniciados, deixariam profundas feridas. Em 1905, apesar das 
presses pela reunificao, empreendidas pelas instncias dirigentes da Interrnacional Socialista e tambm por bases social-democratas no interior da Rssia, bolcheviques 
e mencheviques realizaram no exlio congressos polticos distintos, cristalizando a separao. 
Assim, quando a grande revoluo social de 1905 aponntou no horizonte imediato, aqueles que tanto haviam sonhado e se preparado para ela encontravam-se divididos 
e enfraqueecidos para participar com sucesso dos acontecimentos. 
No processo das revolues russas, h quatro conjunturas que se entrelaam, embora no seja possvel estabelecer entre elas uma relao de causalidade 0!1 de encadeamento 
inevitvel: 1905, as duas revolues de fevereiro e outubro de 1917 e a semmpre esquecida de 1921. Com o passar do tempo, houve uma tenndncia, sobretudo entre os 
revolucionrios vitoriosos, mas tambm entre especialistas no assunto, a' construir um nexo neecessrio entre esses episdios, como se fossem elos de uma mesma corrente. 
Nessa configurao, a revoluo de 1905 teria sido o prlogo das de 1917, a insurreio de outubro aparecendo como eplogo e a de 1921 considerada apenas uma revolta, 
ou desqualificada como um episdio contra-revolucionrio. Trataase de uma iluso retrospectiva, no incomum na histria. 
As revolues aconteceram sem prvia determinao de qualquer natureza e no estavam inscritas em nenhuma lgica. No muitos contemporneos, mesmo revolucionrios 
experiimentados, que as desejavam, lidaram com elas como hipteses provveis. Outros nem sequer as previram. Foram construdas no contexto de entrecruzamentos e 
de choques de imensas forras sociais e polticas em ao, de opes tomadas por suas lideeranas e partidos, condicionadas por circunstncias, nacionais e internacionais, 
que nenhuma delas, individualmente, controolava. Por essas razes, os resultados foram sempre inesperados e surpreenderam a Rssia e o mundo. 
Uma catstrofe social, um vendaval histrico, sentidos e assumidos como tais por todos os contemporneos. 
A REVOLUO DE 1905 
Em 1905, a revoluo comeou num domingo de inverno, 9 de janeiro. Uma grande manifestao reuniu-se, pacfica, para 
levar ao tsar, por meio de um manifesto, queixas e reivindicaaes. O tom geral era de Antigo Regime: os sditos, como criannas, suplicavam ao tsar paizinho (batiuchka) 
ateno e proteeo. Mas as reivindicaes eram modernas: jornada de trabalho de oito horas, salrio mnimo, eleies, assemblia represenntativa. Misturavam-se 
as pocas no que diziam e nas formas em que se manifestavam e se organizavam os trabalhadores, avanando em direo ao Palcio de Inverno em So Peterssburgo, com 
suas mulheres, cones e crianas. 
O tsar no se dignou a receb-los, nem estava no Palcio. 
A tropa disparou a metralha sobre a populao indefesa, fazendo dezenas de mortos e centenas de feridos. 
O massacre no intimidou. Gerou indignao e revolta, dando incio  revoluo. 
Ao longo do ano, nas cidades, em torno dos operrios em luta, trs imensas ondas de manifestaes e greves quase submergiram o pas: em janeiro-fevereiro, em maio, 
em setemmbro-outubro. Exigiam a realizao do programa poltico e social que marcara as ltimas dcadas da histria da socialcia na Europa ocidental: liberdades 
polticas e sindicais, previidncia social, condies dignas de vida e de trabalho. E adotaram a greve poltica de massas como forma de luta, organizando-se, a partir 
de uma desconhecida cidade ao norte de Moscou, em conselhos (sovietes), que se disseminariam como uma praga por todo o imprio. 
Os sovietes tiveram enon;ne e imediato sucesso: formas de organizao geis, flexveis, informais, descentralizadas, com uma hierarquia interna frouxa e uma burocracia 
mnima, quanndo no inexistente, com um conceito de representao fluido, sem mandatos fixos, adaptada, nessa medida, aos rigores immpostos por uma legislao altamente 
repressiva e por uma efiiciente polcia poltica. Construdos para impulsionar as lutas sociais e polticas, no se limitaram a isso, desempenhando tammbm, em situaes 
crticas, determinadas funs governamenntais (abastecimento, trnsito, iluminao, sade pblica etc.), ensaiando-se, assim, como poder paralelo, alternativo. 
As lutas urbanas abrangeram tambm as camadas mdias da populao e as correntes liberais que, desde 1904, mobilizaavam o pensamento crtico do pas por um regime 
de liberdaades e pela Assemblia Constituinte. Acionaram um recurso muito empregado pelos liberais franceses no sculo XIX - a reaalizao de banquetes onde se faziam 
articulaes polticas e disscursos veementes contra a ordem vigente. Em maio de 1905, as unies profissionais organizaram uma federao, a Unio das Unies. Entre 
outras reivindicaes, propunham a eleio de uma Assemblia Constituinte com base no sufrgio universal. O movimento, no entanto, no se restringiu s cidades. 
Nos campos, a exemplo dos movimentos sociais urbanos, os camponeses desencadearam invases, depredaes, saques, protestos, organizando cooperativas, associaes, 
comits, quesstionando a cobrana de impostos e o recrutamento compulsrio para as Foras Armadas. Em maio, formou-se uma Unio Pan-Russa de camponeses. Em julho, 
um congresso, com uma centena de deputados, representando 22 provncias, aprovou um programa que previa a nacionalizao da terra e tambm a eleiio de uma Assemblia 
Constituinte. Entre os soldados e maarinheiros, eclodiu igualmente a rebeldia na forma de motins, na base de Kronstadt, no Golfo da Finlnida, e na histrica reevolta 
do Encouraado Poternkin, no Mar Negro, ao largo de Odessa, imortalizada pelo fIlme de Eisenstein. Finalmente, as naes no-russas, principalmente no Ocidente (poloneses, 
finnlandeses, letes) e no Cucaso (georgianos), sublevaram-se conntra a opresso imperial, exigindo autonomia cultural e poltica, e, entre os mais radicalizados, 
a completa independncia, que chegou a ser proclamada, e a sobreviver por um curto perodo, na Gergia. 
Os movimentos tinham causas profundas que se podiam sintetizar nos contrastes agudos que permeavam o imprio: uma sociedade que se tornava moderna, cada mais complexa, 
dilaacerada entre o modelo ocidental e uma modernidade alternativa, ainda imprecisa. No comando da sociedade, um poder poltico (autocracia) de Antigo Regime, infenso 
a mudanas, agarrado a 
privilgios e a tradies absolutistas. Fbricas e empreendiimentos econmicos cada vez mais sofisticados, apontando para o futuro, e condies de trabalho e de 
vida de um sculo preetrito. Expanso demogrfica continuada e um regime de terras anacrnico, excludente. Uma nao dominante sempre obrigada a recorrer  fora 
bruta para impor-se, uma vez que seus valoores e maneira de viver no eram compartilhados, respeitados ou considerados superiores. 
A esse caldeiro de contradies seria adicionado o fator crtico de uma guerra aventureira contra o Japo, pelo controle de uma vasta rea de influncia nos confins 
da sia, compreenndendo a Mandchria, no nordeste da China, e a pennsula cooreana. Iniciada desde 1904, a guerra foi um desastre. Com troopas mal preparadas, desinformadas, 
surpreendidas por ofensivas desfechadas de surpresa, tendo subestimado os inimigos, consiiderados inferiores, num teatro de operaes longnquo, a Rssia acumulou 
derrotas catastrficas, navais (Port Arthur e Tsushiima) e terrestres (Mukden). 
Desenvolvendo-se longe das fronteiras, era impossvel apresent-Ia como de defesa nacional, e assim a guerra no moobilizou ou comoveu a sociedade. Mas produziu 
efeitos deletrios: elevao do custo de vida, desorganizao dos transportes e do abastecimento, intensificao da represso, sem contar os mortos, os feridos, 
os traumas, o cortejo de sofrimentos que acompanha todas as guerras. 
A guerra acirrou as contradies, alimentou o descontenntamento, fermentou a revoluo. A partir de um certo momento, ela parecia verdadeiramente incontrolvel. 
Nessas circunstncias, e pressionado pelos conselheiros mais lcidos, entre os quais o primeiro-ministro, o conde Witte, o tsar aceitou, afinal, fazer concesses 
substanciais aos moviimentos sociais e tambm assinar os termos de um acordo que pusesse fim  guerra. 
A paz, assinada em setembro de 1905 (Tratado de Portssmouth), permitiu sustar a radicalizao das contradies sociais e, mais importante, trazer de volta das frentes 
militares tropas 
de elite que seriam fundamentais para controlar e reprimir as lutas e os movimentos sociais. 
Tambm tiveram um impacto decisivo as concesses forrmuladas pelo tsar no chamado Manifesto de Outubro. Embora vazadas em linguagem ambgua, prometiam algo indito 
na histria russa: liberdade de expresso e de organizao, partidria e sindical, e a convocao de uma assemblia representativa da sociedade russa, a Duma. 
As correntes liberais aceitaram os termos do Manifesto. 
Os moderados organizaram prontamente um grupo poltico que aderiu s idias propostas pelo tsar: os outubristas. J os liberais mais radicalizados, agrupados na 
Unio pela Liberdade, fundaram o Partido Constitucionalista Democrtico, os kadetes (da sigla russa KD). Mesmo entre os movimentos populares, a paz assinada e as 
concesses do tsar, por surpreendentes, impresssionaram. Tendeu a cindir-se dessa maneira a convergncia obbjetiva de diferenciados atores sociais e polticos que, 
at ento, conferia fora ao movimento revolucionrio em curso. 
A radicalizao continuou, entretanto, presente em diiversas regies do campo, em muitas cidades e fbricas. Alguns sovietes, os mais organizados e radicalizados, 
consideraram as promessas do Manifesto de Outubro imprecisas e insuficientes, preferindo apostar no confronto. Foi o que fez o soviete de So Petersburgo ao convocar 
os trabalhadores para uma nova greve geral e a populao a no pagar os impostos. 
A correlao de foras, no entanto, havia se alterado. A polcia, em operao fulminante, fechou o soviete e prendeu quase todos os dirigentes. As reaes foram 
insuficientes para reverter o xito da ao repressiva. O soviete de Moscou, recenntemente fundado, ainda tentou empreender uma reviravolta, conclamando a populao 
a se insurgir. Em dezembro de 1905, os trabalhadores da velha capital russa atenderam ao chamado e se rebelaram, chegando a controlar algumas partes da cidade. Isolados, 
porm, no contexto do imprio, foram barbaramente massacrados (cerca de mil mortos). At 1907, a revoluo esstertorou em tentativas desesperadas: enquanto os SRs 
e grupos 
anarquistas eliminavam centenas de funcionrios do regime, no contexto de revoltas localizadas, a represso se abateu com fria, executando, ferindo e exilando 
dezenas de milhares de pesssoas. Muitos, por meses, alimentariam a esperana - ou o medo - de que novas ondas revolucionrias ainda seriam possveis. Mas aquela 
revoluo estava morta. 
A Rssia ingressou, at a ecloso da Primeira Guerra Mundial, em 1914, num outro perodo, marcado pelo triunfo da contra-revoluo autocrtica e por tentativas, 
sempre frustraadas, de ajust-Ia aos padres de organizao poltica ocidentais. Talvez se tenha jogado ento, e perdido, a ltima chance, naquele momento histrico, 
de construo na Rssia de um Estado de direito e de uma Repblica liberal. 
A CONTRA-REVOLUAO AUTOCRTICA 
Entre 1906 e 1914, a poltica do Estado retomou certas caractersticas tpicas do surto desenvolvimentista que marcara a ltima dcada do sculo XIX, combinadas 
com a promoo de uma reforma agrria, com o objetivo de constituir uma nuumerosa classe de pequenos proprietrios que poderia oferecer uma base slida e estvel 
ao regime. 
Manteve-se o papel central do Estado e o reformismo pelo alto, na tradio da intelectocracia russa, representada no perodo sobretudo por P. Stolypin (1906-1911). 
Abandonouuse, contudo, em larga medida, a perspectiva de construo de uma modernidade alternativa, centrada em valores comunitrios e estatistas e no interesse 
geral, que haviam marcado as reeformas dos anos 60 do sculo XIX (D. e N. Miliutin). Em connseqncia, fortaleceram-se iniciativas e valores associados ao capitalismo 
liberal e individualista, sobretudo no contexto do projeto de reforma agrria proposto por Stolypin, em que se defendia abertamente uma aposta do Estado nos mais 
fortes, mesmo que isso representasse a desagregao da comuna rural (o mir) tradicional. O objetivo era criar uma numerosa e prsspera classe mdia rural, formada 
pelos kulaks mais dinmicos. 
Assim, silenciados e absorvidos os ecos e os traumas da crise econmica e da revoluo social que haviam abalado a soociedade nos primeiros anos do sculo XX, a 
Rssia retomou rittmos positivos de progresso, que se acelerariam de forma nootvel a partir de 1909 at a ecloso da Primeira Guerra Mundial. 
Era como se o imprio estivesse se preparando, afinal, para ajustar-se s opes, aos valores e s normas do capitalismo europeu ocidental. Na velha polmica entre 
eslavfilos e ociidentalistas, o triunfo retardado 4estes ltimos. 
Havia, no entanto, resistncias decididas e poderosas aos rumos e s reformas ocidentalizantes. 
As foras conservadoras, agrupadas em torno do tsar e da corte imperial, admitiam o progresso econmico, mas semmpre a contragosto. Continuavam tendo dele uma perspectiva 
essencialmente instrumental, considerado vlido desde que serrvisse ao reforamento do Estado, do imprio e, em particular, da autocracia tsarista. Nada mais emblemtico 
desse ponto de vista do que a concepo de uma rede de estradas de ferro com o objetivo precpuo de mobilizar tropas em diferentes direes, aptas a viabilizar a 
expanso imperial e/ou a matar rebelies populares. Nessa concepo, as estradas de ferro deviam ser construdas pelo valor estratgico, sendo visto como mero subbproduto 
o progresso econmico e social que da derivava (deesenvolvimento de setores industriais, aumento do emprego etc.). 
As relaes do tsar com a Duma (Parlamento) tambm ilustrariam o conflito de interesses e de sentidos entre moderniizao econmica e conservadorismo poltico. 
Ainda quando transcorriam as eleies para a primeira Duma, quase como uma provocao, o tsar decretou o que chaamou de Leis Fundamentais, definindo as prerrogativas 
e os limiites da Assemblia e, sobretudo, estabelecendo que o tsar se reserrvava o direito de dissolv-Ia quando bem entendesse e pelos motivos que lhe parecessem 
adequados. 
Os deputados conservavam margens de discusso e de ao: liberdade de expresso e de organizao partidria, direito de questionar ministros e de apreciar parcialmente 
o oramento. 
Entretanto, as leis aprovadas pela Duma s entrariam em vigor com a aprovao do tsar e de uma cmara alta, o Conselho de Estado, designado pelo autocrata e constitudo 
por elites seleecionadas. Alm disso, o governo era responsvel nica e exclusiivamente perante o tsar, que mantinha o controle pessoal de asssuntos fundamentais, 
como as Foras Armadas e as relaes innternacionais. 
As eleies para a primeira Duma submeteram-se a seeveras restries de uma outra lei decretada pelo tsar, entre ouutras, o voto indireto (o eleitor votava para 
um colgio eleitoral e este  que elegia efetivamente os deputados), a organizao de crias (proprietrios de terra, proprietrios urbanos, campooneses e operrios) 
e a desigualdade do voto (o de um proprieetrio de terras equivalia ao de trs proprietrios urbanos, ao de quinze camponeses e ao de 45 operrios). Ainda assim, 
as eleiies, transcorridas em abril de 1906, seriam profundamente influenciadas pelo impacto da revoluo, muitos ainda acrediitando, como j se viu, que ela se 
encontrava viva, capaz de prooduzir novas ondas ofensivas. Por isso mesmo, a maioria dos deputados sintonizava-se com propsitos reformistas: queriam exercer o mandato 
no quadro de um autntico Poder Legislativo. Muitos, inclusive, no abdicavam de reconhecer-se como uma potencial Assemblia Constituinte. 
No houve possibilidade de acordo com a corte imperial e o tsar, decididos a recuperar a totalidade de seus poderes tradiicionais: o Parlamento foi dissolvido em 
cerca de dez semanas (abril-junho de 1906). A segunda Duma, eleita em 1907, no teve melhor sorte, durou apenas um pouco mais, em torno de quatro meses. O tsar ento 
determinou uma nova lei eleitoral, restringindo ainda mais as possibilidades de participao dos partidos de oposio e aumentando a desigualdade do voto. Em conseqncia, 
a terceira Duma, eleita em 1907, registrou ammpla maioria de foras conservadoras e pde assim concluir seu perodo (1907-1912). Mesmo assim, foram freqentes os 
chooques entre o tsar e Stolypin e os deputados, o que voltaria a se repetir enquanto durou a quarta Duma (1912-1917). As vspe- 
ras da ecloso da Primeira Guerra Mundial, mesmo deputados conservadores criticavam a insensibilidade do governo e do autocrata em conferir um mnimo de autonomia 
e efetivo pooder  Duma. Era como se estivesse definitivamente bloqueada a hiptese de uma transio pacfica em direo a uma Constiituio e a um controle, mesmo 
parcial, do absolutismo tsarista. 
A reao autocrtica se manifestaria igualmente numa poltica repressiva e brutal em relao aos movimentos sociais e s naes no-russas. 
Em relao aos primeiros, as concesses e as promessas de dilogo, enunciadas pelo Manifesto de Outubro de 1905, seriam substitudas pela perseguio aos setores 
mais commbativos e pela violncia. O massacre dos mineiros do Rio Lena, em 1912, tornou-se o smbolo de uma poca. Diante de uma greve organizada para questionar 
condies de vida e de trabaalho, o regime respondeu, mais uma vez, com a metralha, fazendo cerca de duzentos mortos e centenas de feridos. A emoo e as manifestaes 
de solidariedade que vieram a seguir no chegaaram a constituir uma ameaa imediata  ordem vigente, mas deram incio a um processo de lutas que se acentuaria gradatiivamente 
at 1914. 
As naes no-russas, que ento constituam quase meetade da populao total do imprio, no tiveram melhor sorte. O tsarismo, depois de assegurado o refluxo da 
revoluo de 1905, inclinou-se por uma poltica ultrachauvinista de russifiicao. Reduziram-se drasticamente as margens de tolerncia e as propostas de integrao. 
Em seu lugar, a imposio da lngua russa e da religio ortodoxa como lngua e religio oficiais do Estado. Uma onda de anti-semitismo, incentivada abertamente pelo 
tsar, levaria  formao de organizaes (as temveis Cenntrias Negras) que promoviam regularmente matanas e depredaes em bairros judeus (pogrooms), considerados 
boodes expiatrios dos problemas e dificuldades por que passava;l sociedade. 
SOCIALISTAS REVOLUCIONRIOS E SOCIAL-DEMOCRATAS 
Nesse quadro de represso generalizada, as margens de ao dos grupos e partidos revolucionrios foram drasticamente reduzidas. Empurrados para a clandestinidade, 
a priso e o eXlio, lutavam pela sobrevivncia, assolados pela descrena e pelo desespero. 
Os socialistas revolucionrios, mais uma confederao de grupos polticos do que um partido propriamente dito, admiitindo diferenciadas formas de ao, reunidos 
antes por certos valores ticos e um programa poltico geral do que por uma slida organizao, tenderam a um processo de fragmentao. Haviam evidenciado enraizamento 
social e fora poltica ao longo da revoluo de 1905, sobretudo entre os mujiks, mas tambm na intelligentsia rural e entre os setores mais radicaliizados das classes 
mdias urbanas. Ante a contra-revoluo, reetomariam com fora  poltica de justiamentos e terror poltico, eliminando centenas e centenas de agentes da ordem. 
Entretannto, enquanto o tsarismo parecia suportar bem os ataques a seus funcionrios, mais ou menos graduados, a polcia poltica infIltrava e desmantelava com rigor 
e mtodo os grupos de commbate, cada vez mais enfraquecidos. Assim, os 5Rs mantinhammse presentes, mas debilitados. Uma tradio revolucionria,  espera de condies 
favorveis. 
Os social-democratas, como os demais, tambm sofreriam pesadas perdas no perodo da contra-revoluo. A represso e a desesperana afastaram da ao grande parte 
dos militantes, de sorte que essa histria merece ser recordada muito mais pelo papel que os bolcheviques, em particular, iriam desempenhar no futuro do que pela 
fora e consistncia que puderam assumir no perodo da contra-revoluo autocrtica. 
Num primeiro momento, e at 1907, quando ainda eram vivas as esperanas no processo revolucionrio, no faltaram expectativas favorveis. Pela presso conjugada 
das bases partiidrias e da Internacional Socialista, procedeu-se  reunifIcao das tendncias bolchevique e menchevique efetuada no IV Conngresso, realizado em 
Estocolmo, em abril de 1906, com maioria 
menchevique (62 em 11 0 delegados). Em maio do ano seguinte, um novo congresso, dessa vez realizado em Londres, marcou um certo apogeu do partido social-democrata, 
ainda bafejado pelos efivios positivos da revoluo j derrotada. Registrarammse ento cerca de 150 mil filiados, representados por 336 deleegados. Dessa vez, os 
bolcheviques, aliados aos socialistas polooneses e letes, conseguiram maioria. Pode ter havido a impresso de que se consolidara a reunificao, mas, na verdade, 
foi a ltima vez que as duas alas do Partido Operrio Social-Democrata Russo (POSDR) se encontraram juntas num grande debate. 
A partir de ento, reemergiram as divergncias, tratadas de forma cada vez mais virulenta, o que aprofundou a ciso. Em 1908, ainda houve o empenho, malogrado, de 
promover uma conferncia unificada. Em 1910, uma ltima tentativa de reunir o comit central, mas nem isso foi possvel. Prevaleceeram as tendncias  desagregao, 
crescendo as opinies liquiidacionistas, como eram chamados os que no acreditavam mais em insistir na (re)construo partidria. Em 1912, em Praga, uma conferncia, 
reunindo apenas os bolcheviques, pretendeu refundar o partido. A iniciativa foi denunciada pelos mencheeviques e outros socialistas que no se identificavam com 
nenhuma das duas tendncias. Alm disso, a Internacional Soocialista no a reconheceu como representativa do conjunto parrtidrio. Assim, a conferncia de Praga 
s adquiriu importncia e eficcia como fator de reorganizao da ala bolchevique. E por estarem mais bem organizados  que os bolcheviques mais se beneficiaram 
com o relativo crescimento dos movimentos sociais entre 1912 e 1914. 
 interessante observar, contudo, que o programa poltico traado pelos social-democratas desde 1903, prevendo a revooluo em duas etapas, manteve-se de p, constituindo 
o fundaamento do vnculo de mencheviques e bolcheviques  s0cialldemocracia. 
Apareceram, no entanto, formulaes inovadoras, baseaadas na viso de que a burguesia liberal, em suas diferentes verrtentes, mostrara-se incapaz de liderar a luta 
conseqente contra 
o regime tsarista. Algo falhara na concepo da primeira etapa da revoluo, como se um ator social decisivo, a liderana hisstrica do processo, a burguesia, recusasse 
subir ao palco. Como alternativa, Trotski props o conceito de revoluo permanente em que se defendia uma transio sem soluo de continuidade da primeira  segunda 
etapa da revoluo, alcanando, sem mediaes temporais longas, a ditadura do proletariado. Lenin, em posies mais nuanadas, sustentaria a hiptese, conforme a 
correlao de foras em presena, de uma revoluo ininterrrupta, passando do regime tsarista para uma ditadura operrioocamponesa. Em qualquer caso, a revoluo 
russa s poderia ser pensada como prlogo de uma revoluo internacional nos pases capitalistas mais avanados da Europa, particularmente na Alemanha. Nesse sentido, 
suas teses essencialmente heteroodoxas recuperavam sintonia com a ortodoxia social-democrata internacional. 
Em Trotski, havia uma nfase clara no papel de vanguarrda do proletariado industrial e no carter decisivo da revoluo internacional. Em Lenin, uma sensibilidade 
mais apurada ao papel histrico do campesinato, definido como um aliado estraatgico na estruturao da ditadura revolucionria. 
Em relao  questo agrria, tambm no seria fcil cheegar a um acordo. Nesse particular, Lenin, considerando as resoolues do congresso campons de julho de 
1905, favorveis  nacionalizao da terra e  distribuio desta s famlias cammponesas, uma antiga aspirao, a partilha negra, tendeu a acommpanhar os que defendiam 
a incorporao dessa proposta no programa do Partido. Acusado desde ento pelos mencheviques de estar assumindo tradies populistas, Lenin argumentou que no se 
podia falar em aliana com o campesinato, recusando o que os mujiks formulavam como reivindicaes bsicas. 
De forma semelhante, defenderia a incorporao no proograma das reivindicaes dos movimentos nacionais, nos quais percebera, ao longo de 1905, uma grande fora 
revolucionria em potencial, capaz de contribuir de forma decisiva para a desstruio do regime tsarista. 
A respeito da questo nacional, Lenin travou acerba poolmica com Rosa Luxemburg que o acusou de desvios nacionaalistas, por ter defendido a idia de uma futura 
revoluo russa comprometida com a autodeterminao dos povos, ou seja, com o direito de secesso das naes no-russas. Segundo Rosa, os socialistas, internacionalistas 
por princpio, no deveriam culltivar, muito menos estimular, sentimentos e aspiraes nacioonalistas. 
Os debates de tais questes tericas permaneceram, poorm, restritos a um grupo relativamente seleto de lideranas, mas poderiam estar destinados a assumir importncia 
estratgica no caso de reatualizao de uma conjuntura revolucionria. Entretanto, no chegavam a empolgar a grande maioria, preoocupada, antes de mais nada, em 
sobreviver aos golpes da polcia poltica e em participar de algum modo na reativao dos moviimentos sociais no interior do imprio. 
Porque o fato  que as duas alas do partido socialcrata russo, quando da ecloso da Primeira Guerra Mundial, encontravam-se profundamente enfraquecidas. Quase todas 
as suas lideranas de maior expresso estavam na priso ou no exlio. Quanto  Internacional Socialista, freqentemente chaamada para intermediar conflitos internos 
insanveis, observava com certo constrangimento aquele pequeno partido turbulento, sempre imerso em interminveis querelas, que parecia no ter jeito nem soluo. 
De sorte que, em 1914, a sociedade russa continuava ofeerecendo um quadro de contrastes, parecendo dilacerar-se, toomando caminhos opostos. 
De um lado, o progresso econmico inegvel, sujeito, entretanto, a interpretaes diversas e contraditrias, consideerando-se a precariedade das estatsticas disponveis 
e os distintos ngulos de anlise. A Rssia conseguiria, ou no, e em que prazo, equiparar-se s potncias europias, proporcionando  sua poopulao condies de 
vida e de trabalho equivalentes ao que havia de mais avanado no mundo de ento? Os progressos econmicos verificados estavam atenuando contradies sociais, 
ao promover uma elevao de padres de vida, mesmo em setoores localizados? Ou, ao contrrio, acirravam os conflitos, ao desagregar instituies e valores tradicionais 
e ao aprofundar as desigualdades sociais? Num plano mais geral, o que seria mais adequado? Assumir o projeto modernista ocidentalizante ou perseverar na busca de 
modernidades alternativas? Witte e Stolypin haviam procurado fortalecer a primeira hiptese. Mas a reforma agrria proposta por este ltimo, apesar de alguns avanos 
significativos, no obteve o xito esperado. A formulaao de uma poltica de financiamento, apoiada pelo Banco Cammpons, com o objetivo de incentivar o processo, 
permitiu que 2,5 milhes de kulaks se estabelecessem como proprietrios, liivres dos controles e restries do miro Mas foi muito pouco para mudar a paisagem rural 
russa. Com sua morte, em 1911, em circunstncias obscuras, Stolypin levou para o tmulo a poltica ambiciosa de uma reforma agrria americana, apenas esboada. 
As instituies polticas continuavam subordinadas  autocracia,  rigidez poltica,  intolerncia e  incapacidade de atualizar-se s novas circunstncias. At 
quando seria possvel conviver com um regime que, mesmo entre as elites russas, era percebido cada vez mais como anacrnico? Seria possvel mannter sempre no silncio, 
na priso e no exlio as organizaes e os partidos revolucionrios? 
Na base da sociedade, a insatisfao grassava entre os mujks e os trabalhadores urbanos, principalmente entre estes ltimos, devidamente registrada pela polcia 
poltica. Estariam dispostos a esperar indefinidamente por mudanas que pudesssem considerar como favorveis? At quando seria possvel mannter compatibilidade entre 
os crescentes conflitos sociais, amorrdaados e reprimidos, e a ordem vigente? 
A Primeira Guerra Mundial, alterando de forma radical as condies da sociedade, proporcionou respostas surpreenndentes a essas questes. Dela, quando eclodiu, Lenin 
diria que "era o melhor presente que o tsar poderia nos dar". 
A PRlMEIRA GUERRA MUNDIAL 
E A REVOLUO DE FEVEREIRO DE 1917 
O comeo da guerra, no entanto, pareceu desmentir os prognsticos otimistas do revolucionrio. Com efeito, e  semeelhana dos demais pases beligerantes, a Rssia 
foi tomada por uma fria fantica, a defesa da ptria, a unio sagrada. E aquele sentimento era tanto mais forte quanto se esperava uma guerra curta e vitoriosa. 
Os poucos que ousaram protestar foram neutralizados, presos, como os deputados social-democratas na Duma. Mesmo ali onde o proletariado era mais organizado, na Alemanha, 
na Frana, na Inglaterra, a adeso acrtica prevalecia sobre as dvidas ou a oposio. O desabrochar pleno de uma planta morrtfera, cultivada h dcadas, o nacionalismo 
chauvinista produuzindo em toda a parte uma atmosfera de linchamento (Rosa Luxemburg) . 
Mais tarde, nas batalhas historiogrficas, muito se diria, de um ponto de vista conservador, sobre a desastrosa opo do regime tsarista em participar daquela guerra. 
Entretanto, as margens de manobra no eram assim to amplas. Ao longo de dcadas, um sistema de alianas fora estruturado, entrelaando os interesses econmicos 
de empresas capitalistas em expanso, modernos, e as polticas imperiais tradicionais, de antigo regime. De um lado, desde 1882, a Alemanha, o Imprio Austro-hngaro 
e a Itlia formaram a Trplice Aliana. De outro, e aos poucos, uniram-se a Rssia e a Frana (1894), esta e a Inglaterra (a Enntente Cordiale, 1904) e a Inglaterra 
e a Rssia (1907). Os ns que amarravam essas alianas antagnicas constituam uma mistura altamente inflamvel,  espera da espoleta apropriada que faria tudo explodir. 
O que fez, no entanto, crtica  conjuntura que conduziu  Primeira Guerra Mundial foi menos a rivalidade comercial e econmica entre empresas capitalistas, e mais 
as contradies imperiais tradicionais, as ambies de expanso territorial, cstabelecidas h muitas geraes, investidas de valores guerreiiros, picos. Quando 
o Imprio Austro-hngaro, depois do as- 
sassinato do prncipe herdeiro Francisco Ferdinando, em Saraajevo, declarou guerra  Srvia, podia a Rssia tsarista tolerar mais um avano do velho imprio rival 
na regio dos Blcs, h sculos considerada estratgica? Se a Srvia fosse subjugada, no estaria aberto para os germnicos (austracos e alemes) o caminho de 
Constantinopla? E ainda, poderia a Rssia ignorar o esmagamento dos eslavos do sul, considerados irmos nas utopias e sonhos pan-eslavos? Se estes fossem levados 
de roldo, no estaria gravemente ameaado o prprio solo sagrado da Me Rssia? Nos clculos do tsar, pessoalmente a favor da guerra, essas consideraes primaram 
sobre os clculos de lucros e perdas materiais, embora estes no estivessem ausentes: quase metade das exportaes russas se faziam ento atravs do Mar Negro e 
do Estreito de Dardanelos, rotas evidentemente ameaaadas por uma eventual vitria austro-alem sobre a Srvia. 
Foi tambm em torno desses valores supremos que se coesionaram os chefes das Foras Armadas e as populaes em torno da aventura guerreira. As tropas russas, rapidamente 
mobilizadas, registraram vitrias iniciais espetaculares, e engaanadoras, contra a ustria-Hungria, ocupando parte da Galcia austraca. No entanto, logo depois, 
quando comearam a ennfrentar as tropas alems, mais bem organizadas e enquadradas, equipadas e armadas, sobrevieram as derrotas, algumas catasstrficas. Na guerra 
regular entre a metralhadora e a baioneta, a locomotiva e o cavalo, o canho e o fuzil, tendeu a predominar o melhor equipamento. 
Em escala ampliada, o enfrentamento reatualizou os faatores crticos j detectados na desastrosa guerra contra o Japo anos antes. A Rssia tinha soldados de valor, 
mas faltavam-Ihes armas modernas, munies, transportes, oficialidade sintoniizada com as exigncias da guerra moderna, apoiada na grande indstria. Alm disso, 
era preciso cuidar da retaguarda, abastec.Ia, preservar sua coeso, cuidar decentemente dos feridos, asssistir as famlias dos mortos. Problemas que o governo 
no paarecia em condies de enfrentar com xito. 
Menos de um ano depois de iniciada a guerra, j se sabia que ela iria durar. E, se fosse durar, que a Rssia iria perd-Ia. As perdas humanas contavam-se aos milhes 
de mortos, feridos, prisioneiros, sem falar dos territrios ocidentais, economicaamente decisivos, quase todos ocupados pelos alemes desde 1916. Escasseavam gneros 
essenciais nos grandes centros urbaanos, a inflao disparava, o abastecimento aproximava-se do caos, sobretudo em razo das insuficincias e da desorganizao da 
rede ferroviria. 
Na Duma, j em 1915, organizou-se uma coligao de partidos, o Bloco Progressista (kadetes, progressistas e outuubristas), defendendo um governo que dispusesse da 
confiana pblica, ou seja, que fosse aprovado pela Duma. No entanto, no conseguiu se fazer ouvir pelo tsar. 
Comeou ento um processo de auto-organizao da sociedade. Estruturou-se um comit de indstrias de guerra, gerando notveis resultados do ponto de vista do abastecimento 
das tropas nas frentes militares. Os zemstva e as dumas assumiam tarefas de governo, federavam-se, associavam-se ao movimento cooperativo,  Cruz Vermelha, num esboo 
de sociedade civil, em alternativa e a despeito do governo, s vezes contra ele e contra a lei. No poucos denunciavam a desorganizao, a inncria, as debilidades, 
a estupidez, alguns j falavam de traio, consciente ou inconsciente. 
Em 1916, o desespero provocado pela escassez e pela in~ flao conduziu  reativao do movimento grevista, cuja curva ascensional, visvel no primeiro semestre 
de 1914, fora revertida pelo surto patritico do incio da guerra. Agora, a curva passara novamente a subir, ameaadora. Sucediam-se presses e conspiiraes. Como 
se no bastasse, desde 1915 o tsar assumira pesssoalmente o comando das tropas, atraindo para si as crticas a respeito dos erros que marcavam a conduo da guerra. 
Circulavam por toda a parte denncias de descalabros inimaginveis, alcanando a prpria honra da famla imperial, associada  figura de Rasputin, um siberiano de 
obscuras oriigens, uma espcie de santo milagreiro, a quem se atribua ter 
salvo a vida do filho do tsar, Vtima de hemofIlia. Desde ento, ganhara a confiana da tsarina e se tornara um personagem inncontornvel na corte, acusado de fazer 
e desfazer ministros, alm de organizar e estimular orgias pantagrulicas. Uma expresso de descontrole e decadncia, parecia o smbolo do fim de uma poca. Por 
fim, assassinou-se o homem, mas foi o mximo a que chegaram as elites que j no pareciam estar em condies de propor alternativas, conscientes de que a situao 
no podia ficar como estava, mas paralisadas por medo ou inpcia. 
Foi assim que, nos ltimos dias de fevereiro, cinco dias consecutivos de movimentos sociais em Petrogrado bastaram para derrubar uma autocracia antiga de trs sculos. 
Uma revooluo anunciada, em tese, mas inesperada quando aconteceu, como costumam ser as revolues.! Uma revoluo annima, sem lderes ou partidos dirigentes. 
Caracterizada por uma imensa aspirao  paz,  harmonia e  concrdia, das quais s estariam excludos o tsar e sua famlia. 
ENTRE FEVEREIRO E OUTUBRO: 
O CURTO ANO VERMELHO DE 1917 
Depois da abdicao do tsar (2 de maro), que todos queriam, deu-se a derrocada da dinastia dos Romanov, que quase ningum esperava, ou desejava, pelo menos entre 
as elites. O gro-duque Miguel, em proveito de quem abdicara o tsar, j que seu filho, Alexei, era muito jovem para assumir, recusara a regncia do trono. Criou-se 
um vcuo no topo do poder. 
Apressadamente, quase a contragosto, e tomando cuidaado para no proclamar formalmente a Repblica, a Duma for- 
I As manifestaes que derrubaram a autocracia russa realizaram-se entre os dia 23 e 27 de fevereiro de 1917. Vigorava ento na Rssia o calendrio juliano, com 
uma defasagem de treze dias em relao ao calendrio gregoriano, vigente no mundo capitalista avanado e suas colnias e reas de influncia. A Rssia ajustou o 
calendrio ao padro ocidental a partir de 10 de fevereiro de 1918. As datas aqui referidas, at fevereiro de 1918, correspondem ao calendrio juliano. Observar 
igualmente que a cidade de So Petersburgo, desde o incio da guerra, teve o seu nome russificado, tornando-se Petrogrado (cidade de Pedro). 
mou um governo provisrio, encabeado pelo prncipe Lvov, nobre liberal que se destacara nos anos anteriores na coordenaao de atividades empreendidas por organizaes 
da sociedade civil. Uma frente poltica, reunindo liberais outubristas e kaadetes, e mais um deputado aparentado com a tradio dos SRs mais moderados, identificado 
com causas populares, Kerenski. Era o que havia de mais ocidentalizante entre as elites russas. Uma tentativa de apropriao pelo alto do processo social annimo 
que precipitara a queda do tsarismo. A vitria poltica, afinal, da modernidade capitalista ocidental na Rssia? 
Decretou-se a anistia geral para os presos polticos e exilaados, reconhecendo-se plena liberdade de expresso e de organiizao. Em seguida, o governo formulou 
uma agenda de reforrmas e um calendrio poltico. Antes de tudo, era preciso ganhar a guerra, porque agora defender a ptria no era mais sustentar o regime abominvel 
do tsarismo, mas salvar a revoluo. Liberrtar os territrios ocupados pelos alemes significava associar  revoluo os irmos subjugados. Quando a guerra estivesse 
ganha, ou, no mnimo, quando os alemes fossem expulsos da Rssia, chegaria a hora de convocar eleies livres para uma Assemblia Constituinte soberana, na base 
do sufrgio universal. Enquanto isso, a Duma formaria comisses de estudo sobre os problemas considerados cruciais (terra, questo nacional, reiivindicaes dos 
trabalhadores etc.). O povo era livre para falar. 
Sem esperar pela licena concedida, ele j comeara a faz-lo. 
Ainda antes da abdicao do tsar, formara-se em Petroogrado um soviete de operrios e soldados. Depois de alguma hesitao, decidira, como instituio, no ingressar 
no governo provisrio, apesar dos convites da Duma. Permaneceria como rgo autnomo do poder popular, vigiando e fiscalizando o curso dos acontecimentos, uma referncia 
alternativa para todos os deserdados da sorte. 
E foi ento que se desencadeou algo inesperado. Reetomando, em escala ampliada, a dinmica da revoluo de 1905, aquelas gentes, que haviam suportado com extraordinrio 
es- 
toicismo os rigores e as privaes da guerra, a censura e a reepresso, consideradas por muitos como amorfas e resignadas, puseram-se em movimento com um vigor que 
espantou o mundo. 
Em toda a parte, fazendo uso da liberdade conquistada, passaram a formular queixas, crticas e reivindicaes, os cahiers de dolances2 da sociedade russa. Os trabalhadores 
urbanos queeriam ver realizado, afinal, o programa da social-democracia na Europa ocidental: salrio mnimo, jornada de trabalho de oito horas, previdncia social, 
melhores condies de vida e de traabalho, respeito pela dignidade de cada um. Os camponeses queeriam a terra, toda a terra, que fosse nacionalizada e distribuda 
segundo as possibilidades e as necessidades de cada famlia. Mais uma vez, a antiga e utpica aspirao da partilha negra, que a tradio populista to bem exprimia. 
Os soldados, receosos de serem acusados de covardia, solicitavam o mximo empenho no sentido da paz e, enquanto durasse a guerra, tambm o resspeito pelos seus direitos 
como cidados. As naes no-russas exigiam autonomia poltica e cultural, embora cedo os mais raadicais comeassem igualmente a falar em independncia. 
Falavam, mas no apenas, agiam, e mais do que isso, orrganizavam-se. Comeou a tomar forma uma imensa rede de conselhos (sovietes), horizontal, descentralizada, 
autnoma. Combinavam-se com sindicatos, comits, milcias, assemblias. Nas grandes cidades e nos campos. Nas fbricas e nas unidades militares. Uma onda. 
A histria do curto ano de 1917, entre a queda do tsar e a insurreio de outubro, foi a histria do crescimento rpido, embora ziguezgueante, dessa onda, batendo 
contra a intransiigncia e a insensibilidade do governo provisrio, que, temendo perder o controle dos acontecimentos, perdia a iniciativa poltica, agarrado a 
suas equaes conservadoras, condicionando 
2 Cahiers de dolances des Etats gnraux: literalmente, cadernos de queixas/ reclamaes dos Estados gerais, nos quais se ordenaram as reivindicaes e as propostas 
da populao francesa por ocasio da convocao dos Estados gerais em 1789. 
as reformas desejadas ao fim da guerra e  convocao da Asssemblia Constituinte. 
Em abril de 1917, houve uma primeira grave crise. O ministro de Relaes Exteriores, o kadete P. Miliukov, declarara imprudentemente que a Rssia revolucionria 
mantinha os obbjetivos de guerra do regime tsarista. A comoo foi grande e o ministro obrigado a demitir-se. Contudo, o governo provisrio, paradoxalmente, pareceu 
fortalecido, pois os liberais exigiiram que deputados do soviete de Petrogrado passassem a fazer parte do ministrio. Formou-se uma primeira coalizo. Deixanndo 
de ser apenas um rgo de fiscalizao e crtica, e comeando a participar diretamente da gesto dos negcios pblicos, o soviete, com seu prestgio, reforava o 
governo do qual dessconfiava. Os liberais queriam cooptar os sovietes, no havia dvida. Numa outra dimenso, porm, aquela mudana tinha suas ambigidades e um 
significado simblico: os liberais no estavam reconhecendo sua incapacidade de empreender as reeformas necessrias  modernizao e  ocidentalizao da Rsssia? 
Em suma, as elites precisavam dos sovietes para manter a ordem e garantir o futuro? Mas, com esse tipo de aliana, podeeriam os liberais empreender a modernizao 
ocidentalizante da Rssia? 
Nesse mesmo ms de abril, os bolcheviques fizeram uma conferncia decisiva, aprovando uma tese subversiva de Lenin que j vinha sendo defendida por grupos anarquistas: 
todo o poder aos sovietes. A traduo prtica de sua reflexo terica a propsito da inapetncia revolucionria dos liberais.  semeelhana de Trotski, e vencendo 
preconceitos ancorados em antiga ortodoxia, propunha que, desde a primeira etapa, a revoluo passasse  hegemonia da frente poltica e popular que controolava as 
organizaes soviticas. 
Nos meses seguintes, realizaram-se importantes congresssos pan-russos de camponeses (maio) e de operrios e soldados (junho). Os primeiros reafirmaram as teses igualitaristas 
e disstributivistas j enunciadas em 1905. Entre os segundos, embora predominassem as correntes socialistas moderadas (menche- 
viques e socialistas revolucionrias), que recusavam a transfeerncia do poder aos sovietes, era visvel o descontentamento com o no-atendimento das reivindicaes 
formuladas. Uma crescente radicalizao transpareceu na manifestao pblica que encerrou o congresso em Petrogrado. Os bolcheviques, ainnda muito minoritrios (105 
delegados em mais de mil), denunnciavam as hesitaes do governo, mostravam audcia, exigindo todo o poder aos sovietes. 
Foi ento que o governo resolveu tentar uma "ltima ofensiva" contra os alemes. Reuniu as melhores tropas, sob o comando do general Brussilov, que j se destacara 
no ano anteerior, e concentrou-as para um grande ataque. Kerensky, minisstro da Guerra desde abril, arengava tropas e populaes com sua oratria caracterstica. 
Desfechada em junho, e apesar de alguns primeiros sucessos, a ofensiva enredou-se e descambou para um fracasso lamentvel. 
Quando as notcias da derrocada chegaram a Petrogrado, no princpio de julho, os marinheiros da grande base naval de Kronstadt revoltaram-se e marcharam para a capital 
da Rssia. Com outros setores radicais falavam em traio e muitos queeriam derrubar o governo, que renunciara. Abriu-se mais uma crise. O pas em guerra, acfalo. 
Depois de marchas e contraamarchas, que se estenderam por semanas, reconstituiu-se, afinal, o governo, com participao reforada de deputados dos sovietes. Tornava-se 
muito claro que sem eles no haveria orrdem. Kerensky passou a chefe do governo e acusou os bolcheeviques de terem conspirado contra o regime, instrumentalizado 
a revolta popular e tentado um golpe de Estado. 
A situao pareceu controlada. Estimando-se forte, o governo convocou para Moscou uma Conferncia de Estado para avaliar os rumos do pas. Sintomaticamente, afastava-se 
da turbulenta Petrogrado, a vermelha. A seleo dos participanntes exprimia a nova correlao de foras: dos quase 2.500 deleegados, apenas 429 deputados dos sovietes. 
Entre os setores mais radicais, a desorientao e a disperso. Os bolcheviques estavam acuados. Alguns de seus lderes, presos, como Kamenev e Trotski. 
o prprio Lenin, denunciado como agente a soldo dos alemes, teve que desaparecer de circulao. Em fins de julho, o Partido seria obrigado a realizar o seu VI Congresso 
na clandestinidade. 
Foi nessas circunstncias que se projetou a figura do geeneral Kornilov, prestigiado pelo governo como chefe militar leal e republicano. Incensado pelas foras conservadoras 
na confeerncia de Moscou, Kornilov pensou ter chegado a hora de restaabelecer a ordem e desfechou um golpe militar. Em caso de viitria, teria ali se encerrado 
a aventura revolucionria? 
Kerensky, entretanto, no concordou com a aventura e a denunciou, conclamando as foras polticas e as instituies a reagirem. Os sovietes e as organizaes populares, 
mostrando reservas inesperadas, recuperaram dinamismo e enfrentaram as foras mobilizadas por Kornilov, que foram se desagregando aos poucos, de forma quase caricatural. 
O general acabou preso, a ditadura esfumou-se, as foras conservadoras, assustadas, recuaaram, os liberais, confusos, silenciaram. 
Teve incio, ento, um processo fulminante de radicaliizao dos sovietes de soldados e operrios. Bolchevizavam-se no no sentido de que houvesse uma adeso formal 
ao partido bollchevique, mas no sentido de que aderiam  proposta bolcheevique de que todo o poder deveria ser assumido pelos sovietes. O fenmeno combinou-se com 
um crescente movimento de ocupao de terras. As agncias responsveis registravam o cresscimento da temperatura no campo desde a derrubada do tsar. Maro: 49 conflitos 
em 34 distritos. Abril: 378 em 174 distritos. Maio: 678 em 236 distritos. Junho: 988 em 280 distritos. Entre 10 de setembro e 20 de outubro, 5.140 conflitos O galo 
vermeelho cantava nos campos. Era o tempo das semeaduras, um moomento de deciso. Os mujiks, tomando o destino nas mos, ocupavam e demarcavam as terras, e faziam 
a revoluo agrria. Ao sab-Io, os soldados, camponeses fardados, comearam a deesertar em massa levando  decomposio as Foras Armadas. A onda provocou um terremoto 
no partido poltico mais enraiizado nos campos, os socialistas revolucionrios. Fez desabrochar uma corrente que j vinha amadurecendo, favorvel  ofensiva 
de ocupao de terras, e que se tornou claramente autnoma desde ento, os socialistas revolucionrios de esquerda, os 5Rs de esquerda. 
Kerensky, tentando encontrar uma sada institucional, capaz de canalizar para a ordem as manifestaes de ruptura revolucionria, convocou em setembro uma nova Conferncia, 
a que atribuiu o nome de Pr-Parlamento. Uma corrida contra o tempo. Com sua legitimidade questionada pelos principais sovietes, sob hegemonia dos bolcheviques que 
se retiraram do recinto, proclamou, afinal, a Repblica e convocou a Assemblia Constituinte para o ms de novembro seguinte. Decises immportantes. Meses antes, 
poderiam ter sido decisivas. Agora, viinham muito tarde. 
Deslocava-se a Grande Rssia e disso se aproveitavam tambm as naes oprimidas, exigindo autodeterminao e independncia. Cada qual queria ter a prpria Assemblia 
Consstituinte e decidir, segundo seus interesses e circunstncias, o futuro e que tipo de relaes seriam estabelecidas com a Rssia. Em fins de agosto, em Kiev, 
na Ucrnia, delegados de treze naaes aprovaram a convocao de constituintes soberanas. J no se tratava mais de debater a oportunidade da independncia, mas 
do momento e das modalidades de como se faria. 
Foi nessa atmosfera que ocorreu a insurreio de outuubro e sua vitria s pode ser compreendida no contexto desses acontecimentos extraordinariamente turbulentos 
que aproximaavam a sociedade da mais completa desagregao. 
OUTUBRO: REVOLUO OU GOLPE? 
Nenhuma fora poltica apostava mais na permanncia daquela situao. Claramente, um desfecho aproximava-se. O governo provisrio, parecendo supenso no ar, na prtica 
j no governava mais. Nos campos e nas cidades, os diversos tipos de organizaes populares (sovietes de operrios e de soldados, comits de empresas, sindicatos, 
comits e sovietes agrrios, milcias populares, guardas vermelhas), de modo autnomo e descentralizado, asseguravam um arremedo de ordem e de con- 
trole. Das foras conservadoras, de fato bastante dispersas e desorientadas, temia-se que articulassem novas tentativas conntra-revolucionrias. 
Havia uma grande expectativa quanto  realizao do II Congresso Pan-Russo dos sovietes de operrios e de soldados. Convocado para setembro, fora postergado e, afinal, 
convocado para ter incio em 25 de outubro. Assumiria, como esperavam os mais radicais, a totalidade dos poderes? E quanto ao governo provisrio, teria foras para 
reagir ou aceitaria a legitimidade de um novo poder? 
No clima febril que ento se instaurara, todas as foras polticas tentavam organizar-se para um enfrentamento decisiivo. No Estado-maior bolchevique, Lenin concitava 
o Comit Central a tomar a iniciativa. A bolchevizao dos sovietes de Peetrogrado (sob a presidncia de Trotski), de Moscou e de algumas frentes militares cruciais, 
conferia ao partido uma situao favoorvel nos centros poltico-administrativos mais importantes do pas. Essa circunstncia deveria ser aproveitada, antes que 
as forras conservadoras se rearticulassem e tentassem um novo gollpe. Aps acalorados debates, Lenin conseguiu fazer aprovar sua proposta: a insurreio deveria 
ser preparada (a insurreio  uma arte) e desencadeada antes mesmo da abertura do II Conngresso sovitico e sem obter seu prvio acordo. Zinoviev e Kaamenev, no 
concordando com a deciso, considerada aventuureira, denunciaram-na publicamente pelo jornal de Gorki. Os acontecimentos, no entanto, desenrolavam-se com tal rapidez 
e a confuso era tamanha que a denncia no gerou efeitos, caiu no vazio. 
O governo sentia, como todo o mundo, que o desenlace era uma questo de tempo, de muito pouco tempo. Foi ento que resolveu tomar medidas repressivas contra um jornal 
bollchevique que se destacava particularmente na agitao entre os soldados. Mandou fech-Io, uma atitude drstica naquelas cirrcunstncias. Pretextando a defesa 
da liberdade de imprensa ameaada, Trotski garantiu a circulao do jornal. Na seqncia, sempre argumentando que estava empenhado em defender a 
liberdade das organizaes populares contra a tentativa de um novo golpe, o comit militar do soviete de Petrogrado ordenou a ocupao dos pontos estratgicos da 
cidade. Uma ttica de guerra usual: encobrir a prpria ofensiva com argumentos deefensivos. Era a noite de 24 de outubro de 1917, vspera da aberrtura do II Congresso 
dos sovietes. De forma metdica, quase silenciosa, as tropas aquarteladas na cidade tomaram a capital da Rssia, s encontrando resistncia digna deste nome no Palcio 
de Inverno, onde o que restava do governo foi preso (Keerensky exilou-se na embaixada dos EUA). 
O poder mudara de mos. Um golpe? 
Formalmente, sem dvida. A insurreio desdobrou-se como uma operao militar, sem prvia autorizao do governo legal, nem sequer das organizaes soviticas. A 
autoridade que a desencadeou foi o comit militar do soviete de Petrogrado, com anuncia e sob liderana de seu presidente, Trotski. No haviam recebido delegao, 
nem autorizao, de nenhuma insstncia sovitica para faz-Io. Na verdade, a ordem tinha vindo do comit central do partido bolchevique. 
Boa parte da crtica social-democrata europia e dos prprios socialistas moderados russos (mencheviques e socialistas revolucionrios de direita) denunciou o carter 
golpista da innsurreio e apontou a as razes de uma ditadura poltica que tenderia a perdurar no tempo. Mais tarde, essa orientao seria retomada nas batalhas 
historiogrficas por crticos do socialismo sovitico e por acadmicos liberais. Esmiuaram o episdio innsurreicional e seus antecedentes, adicionando novas evidncias, 
comprovando um vcio de origem, como se fora uma malforrmao gentica, a contaminar de modo irreversve1 toda a histria posterior da revoluo. 
Em sentido inverso, os bolcheviques, desde outubro, e, mais tarde, a historiografia sovitica, e a de inspirao comunista, ou simptica  causa da revoluo, legitimaram 
a ao insurreiicional sob o argumento de que qualquer espera poderia ser fatal (argumentao de Lenin na reunio do Comit Central que de- 
cidiu a insurreio). Alm disso, diriam, a insurreio foi subbmetida na manh seguinte, em 25 de outubro, ao congresso dos sovietes que, efetivamente, a aprovou 
por larga maioria. Por sua vez, os decretos revolucionrios - sobre a guerra e a paz, a terra e a questo nacional, entre outros, tambm aprovados por imennsa maioria 
- iriam permitir, pelo menos em termos imediatos, a constituio de bases sociais amplas de apoio e defesa da revooluo. Sem essas bases, por melhor que tivesse 
sido empreendiida a insurreio como arte, a revoluo no se sustentaria. Com essas bases, comprovava-se o carter democrtico da revoluo. 
Golpe ou revoluo? A anlise das circunstncias sugere a hiptese de uma sntese: golpe e revoluo. Golpe na urdidura, deciso e realizao da insurreio, um 
funesto precedente. A poltica dos fatos consumados, empreendida por uma vanguarda que se arroga o direito de agir em nome das maiorias. Revoluo nos decretos, 
aprovados pelos sovietes, reconhecendo e consaagrando juridicamente as aspiraes dos movimentos sociais, que passaram imediatamente a ver no novo governo - o Conselho 
dos Comissrios do Povo, dirigido por Lenin - o intrprete e a garantia das reivindicaes populares. 
Os bokheviques, naquele momento, renunciaram a muiitos aspectos do prprio programa para atender ao que exigiam outros partidos e diversos atores sociais. Foram 
extraordinariaamente ousados na ao golpista, mas sensveis s mudanas que os soldados, os camponeses, os operrios e as naes no-russas compreendiam como necessrias. 
Eram mudanas revolucionrias. Paz imediata, como queriam os soldados e todas as populaaes russas. Toda a terra para os camponeses, a ser distribuda pelos comits 
agrrios, como exigiam os mujiks. Direito de seecesso, como propunham os no-russos. Controle operrio sobre a produo, sntese do que havia de mais avanado no 
programa social-democrata da poca para os trabalhadores faabris. Formou-se uma frente social e poltica de apoio ao novo governo, integrando 5Rs de esquerda, grupos 
anarquistas, e at mesmo setores dos socialistas moderados que, embora crticos ao novo governo, hesitavam em combat-Io abertamente. 
Muitos denunciavam nas decises tomadas pelo congressso jogadas puramente maquiavlicas, mas no havia ali, como nunca h, super e subconscincias. Todos avaliavam, 
calculavam e apostavam, segundo suas tradies, foras e circunstncias. 
Surgiu um conjunto confuso, uma experincia improvvel, muitos a imaginavam destinada ao fracasso. Mais uma, naaquela Rssia que, desde fevereiro, no conseguia 
sair do caos. 
A CONSOLIDAO DO GOVERNO REVOLUCIONRIO 
O improvvel, no entanto, foi ganhando corpo. A adeso ao novo governo pelo II Congresso Pan-Russo campons, reaalizado em dezembro de 1917, foi decisiva. Vencendo 
suas dessconfianas em relao aos bolcheviques, tendo todas as reivinndicaes aceitas pelo governo revolucionrio, os camponeses ratificaram o golpe revolucionrio 
de outubro. Ampliou-se ennto o conselho dos comissrios do povo com o ingresso dos socialistas revolucionrios de esquerda. 
No plano internacional, pelo menos em termos imediaatos, os bolcheviques beneficiaram-se com o armistcio assinado com os alemes e o prolongamento da guerra no 
Ocidente, proporcionando  revoluo um flego adicional. Internamente, a revoluo foi ganhando fora, neutralizando os inimigos com surpreendente facilidade. 
A primeira dificuldade maior foi o enfrentamento com a Assemblia Constituinte. Convocada em setembro, as eleies realizaram-se em novembro, depois, portanto, da 
insurreio. Histrica reivindicao das foras progressistas e revolucionrias russas, inscrita em todos os programas, os bolcheviques no tiveram alternativa 
seno deixar que o pleito transcorresse norrmalmente. Os resultados, no entanto, beneficiaram exatamente as foras que vinham de ser derrotadas em outubro, conferindo 
maioria aos socialistas moderados, SRs de direita e mencheviiques, sem falar nos liberais. Os bolcheviques tinham apenas cerca de 25% dos deputados, mas agiram novamente 
com deeciso e rapidez. O governo formulou uma Declarao dos Diireitos do Povo Trabalhador e Explorado e exigiu que os consti- 
tuintes a aprovassem como condio prvia ao incio de seus trabalhos. Diante da recusa dos deputados eleitos, os revoluucionrios decretaram a imediata dissoluo 
da Assemblia, pouucos dias depois de instalada, em janeiro de 1918. No houve praticamente resistncia ao ato ditatorial. 
A assinatura da paz com os alemes constituiu uma seegunda difcil opo. Fora fcil assinar um armistcio, mas difcil elaborar a paz. Os alemes exigiam indenizaes 
e anexaaes reais ou disfaradas, consideradas descabidas pela maioria dos prprios bolcheviques e dos SRs de esquerda. 
Os revolucionrios procuraram ganhar tempo, posterganndo as negociaes, no aguardo de uma revoluo na Alemanha. Contudo, em vez disso, sucediam-se ultimatos e 
avanos das tropas alems. A partir de um certo momento, a frente militar aproximou-se perigosamente de Petrogrado, tornando iminente a hiptese de sua perda. Depois 
de muitos debates, prevaleceu mais uma vez a posio de Lenin. Para salvar a revoluo, todas as concesses deveriam ser feitas. Mais tarde, os tratados, meras tiras 
de papel, poderiam ser denunciados e revogados. Foi um trauma. Entre os prprios bolcheviques, houve denncias e reenncias. Quanto aos SRs de esquerda, abandonaram 
ento o gooverno, deixando os bolcheviques como nicos responsveis pelo tratado de paz (Brest-Litowsky, maro, 1918), isolados no leme do Estado. 
As contradies tambm surgiriam nas relaes entre o governo e os camponeses. A aliana selada em dezembro, com o reconhecimento irrestrito das reivindicaes igualitaristas 
e distributivistas, entrou, progressivamente, em crise. As dificulldades de abastecimento das cidades e do exrcito vermelho, recentemente criado, conduziram o governo 
a enviar para o campo destacamentos armados com o objetivo de expropriar os camponeses acusados de especulao, os kulaks. Em maio de 1918, um decreto atribuiu ao 
Comissariado do Povo para o Abastecimento poderes extraordinrios com vistas  luta contra a burguesia rural que estaria aambarcando cereais e especulanndo com 
gneros essenciais  alimentao do povo. 
Ora, falar em burguesia rural depois da revoluo, alm de uma entorse s realidades sociais, era um atentado  aliana com os camponeses e com os SRs de esquerda. 
Os bolcheviques pareciam tomar um novo rumo: quebrar a unidade camponesa, atrair para o apoio ao governo os camponeses pobres e sem terra, oferecendo a estes recompensas, 
em terras e cereais, por denncias concretas contra os especuladores. 
A GUERRA CIVIL 
Em resposta, os SRs de esquerda chamaram a luta aberta contra os bolcheviques. Seguiram-se atentados (um dos quais quase matou o prprio Lenin), motins, tentativas 
insurreicionais, que coincidiram com movimentos de rearticulao das foras contra-revolucionrias, os brancos, apoiados pelo desembarque, em vrias regies, de 
tropas estrangeiras: ingleses, em Murrmansk e Arkhangelsk, ao norte. Franceses em Odessa, no Mar Negro. No Extremo-Oriente, um pouco mais tarde, japoneses e norte-americanos, 
em Vladivostok. 
No incio de 1919, em maro, quando, em torno dos bollcheviques, pequenos grupos revolucionrios de vrios pases do mundo fundaram a Internacional Comunista (Komintern), 
a siituao parecia desesperadora e o governo revolucionrio, conndenado. 
Entretanto, gradativamente, o improvvel tornou a aconntecer. Apenas um ano e meio depois, a correlao de foras havia se alterado de forma radical em favor dos 
bo1cheviques, em razo de um conjunto de fatores e condies 
Por um lado, os revolucionrios recuperaram e se commprometeram com o programa poltico da insurreio de outuubro: reconhecimento irrestrito das reivindicaes 
populares. Em relao ao campo, retomaram a poltica de unio com todos os camponeses, revogando a poltica de maio de 1918. Atitude idntica ocorreu em relao 
 questo nacional, em que, depois de negaceios, foi reiterado o respeito ao direito  secesso. Em contraste, os brancos pareciam nada ter compreendido, nem essquecido. 
Onde suas foras chegaram a tomar p, e at mesmo em sua propaganda, defendiam abertamente a velha ordem que 
a revoluo derrubara, como se o ano de 1917 simplesmente no tivesse existido. Uma terceira margem chegou a ser ensaiada pelos socialistas revolucionrios e por 
grupos anarquistas, mas no criou bases sociais duradouras, embora tenham constitudo, em certas regies, foras poltico-militares apreciveis (como o exrcito 
negro makhnovista, na Ucrnia). A polarizao entre vermelhos e brancos acabou predominando, eliminando os espaaos para alternativas. 
Por outro, enquanto os revolucionrios conseguiram forrmar um poderoso exrcito e uma administrao minimamente eficiente, centralizados e operacionais, os brancos 
dividiam-se em interminveis querelas. Sobretudo depois da matana do tsar e de sua famlia, cada chefe militar tentava se impor como canndidato a ditador. Finalmente, 
o apoio estrangeiro comeou a escassear. As potncias que chegaram a enviar destacamentos para a Rssia (Inglaterra, Frana, Japo e EUA) estavam minaadas por rivalidades 
e desconfianas mtuas. Alm disso, pressiionadas pelas respectivas populaes, exaustas pela sangria provocada pela Primeira Guerra Mundial, tiveram de ordenar 
a retirada das tropas, o que representou um enfraquecimento decisivo para a contra-revoluo. 
De sorte que, em meados de 1920, os bolcheviques, ss no comando do Estado, apareciam como vencedores da guerra civil. Apesar da vitria, porm, a avaliao crtica 
das circunsstncias no autorizava euforias. 
O pas estava simplesmente arrasado. O produto indusstrial registrava um declnio de mais de dois teros. Na grande indstria, a perda chegava a 80%. A produo 
de petrleo, enerrgia eltrica e carvo cara em mais de 70%. Em relao a outros setores estratgicos para o equilbrio da economia, como ferro, ao e acar, uma 
situao ainda mais desoladora: quase 100% de queda. O mesmo ocorria no tocante ao comrcio externo. Quanto  produo agrcola, diminuio de quase metade. 
Dados e estatsticas econmicas desfavorveis, mas ainda faltaria acrescentar as epidemias, o desgaste extremo, as crueldaades tpicas dos processos de guerra civil, 
os traumas provocados 
pelo emprego sistemtico do terror - vermelho e branco -, incontveis atrocidades, gerando um processo de brutalizao das relaes sociais, caldo de cultura poltica 
que oferece o quadro que ajuda a compreender muitos episdios que ainda haveriam de vir. 
No plano internacional, e contrariando as previses dos lderes bokheviques, a revoluo internacional no acontecera. A Rssia estava isolada. O socialismo num 
s pas, uma entorse essencial na teoria marxista de revoluo. 
Alguns, no fogo da guerra civil, quando tudo parecia perdido, haviam formulado o estranho conceito do comunismo de guerra. Numa situao de carncia total, institura-se 
o mais completo igualitarismo. A economia de troca. Em vez do comrrcio, a distribuio de raes. O comunismo imaginado por Marx como a sociedade da abundncia 
concretizava-se como a orgaanizao da escassez. 
Mais tarde, vencida a guerra civil, a mesma proposta volltariaem outras verses, como a da militarizao do trabalho, o emprego sistemtico dos critrios de organizao 
militar para a vida civil, a sociedade mobilizada em batalhes e exrcitos, distribudos de forma centralizada por frentes de trabalho para enfrentar uma nova guerra, 
talvez ainda mais difcil e longa, contra a fome e o atraso. 
Embora exausta, a sociedade revoltou-se contra essa siinistra utopia. Com efeito, desde que os mujiks perceberam que a contra-revoluo j no ameaava mais, tornou-se 
cada vez mais difcil faz-Ios aceitar requisies, impostos extraordinrios e restries de todo o tipo. Medidas consideradas inevitveis no context da guerra 
civil passaram a ser intolerveis nas novas condies. O descontentamento cresceu, passou a exploodir na forma de revoltas locais, inquietando o governo. 
A mesma oposio manifestou-se nas cidades, sob a forrma de greves, entre os trabalhadores que reivindicavam melhoores condies de vida e de trabalho. Surgiam tambm 
protestos e propostas pelo fim das restries s liberdades, no mais jusstificadas depois da vitria sobre os brancos. 
Foi nesse quadro que explodiu a revoluo de Kronstadt. 
KRONSTADT, A REVOLUO ESQUECIDA 
Em 2 de maro de 1921, em solidariedade a greves opeerrias que estavam em curso em Petrogrado, os marinheiros da base naval de Kronstadt declararam-se em estado 
de rebelio. 
No era uma base qualquer. Alm da localizao estratgica, no Golfo da Finlndia, protegendo a cidade de Petrogrado, abrigava dezenas de milhares de marinheiros 
e, principalmente, detinha uma considervel tradio poltica. Os marinheiros de Kronstadt, ao longo do processo revolucionrio, desde a derruubada do tsarismo at 
a vitria na guerra civil, desempenharam sempre um papel de primeira linha. No gratuitamente, anarrquistas e bolcheviques controlavam o soviete local. 
O que desejavam os marinheiros de Kronstadt? Nos priimeiros manifestos publicados, esboou-se um programa: solidaariedade s reivindicaes dos operrios grevistas, 
liberdade de manifestao, libertao de todos os presos polticos, formao de uma comisso independente para investigar denncias sobre a existncia de campos 
de trabalho forado e, mais importante, eleies imediatas para a renovao de todos os sovietes exisstentes, na base do voto universal e secreto, controladas por 
insstituies pluripartidrias, independentes do Estado. 
Os bolcheviques, aparentemente, dispuseram-se a negoociar. De imediato, atenderam s reivindicaes dos trabalhadores em greve, conseguindo o refluxo do movimento. 
Mas os mariinheiros queriam a realizao integral de seu programa e se man- 
tiveram armados e mobilizados. . 
Temendo um processo de contaminao, os bolcheviques formularam um ultimato apenas 72 horas depois do incio do movimento: rendio ou aniquilamento. Como no houve 
renndio, o bombardeio comeou j em 7 de maro. 
A revolta transformou-se em revoluo. Num novo maanifesto, os marinheiros anunciaram o incio de uma terceira revoluo. Contra a burguesia e contra o regime do 
Partido Coomunista (os bolcheviques tinham assumido o nome desde 1918) e a sua polcia poltica, acusados de instaurarem uma ditadura do capitalismo de Estado. No 
abriam mo de novas eleies 
soviticas, livres e controladas por rgos independentes do Esstado, e tambm por sindicatos autnomos. 
Os bolcheviques denunciaram o processo como contraarevolucionrio. Prenunciando processos futuros, os marinheiiros no passariam de agentes, conscientes ou inconscientes, 
da contra-revoluo internacional. 
A luta prosseguiu at 18 de maro, quando a revoluo, isolada do resto da sociedade, foi esmagada. Milhares de mortos e feridos dos dois lados, mais de 2.500 prisioneiros 
entre os maarinheiros, deportados ou fuzilados. 
Na historiografia sovitica, durante dcadas, a revoluo de Kronstadt foi apresentada, e desmoralizada, como subbproduto de uma conspirao contra-revolucionria 
branca. Na contracorrente, uma pequena e impertinente literatura, quase sempre de inspirao anarquista, lutou para resgatar a idia de que ali se tentara - e se 
perdera - um outro futuro para as reevolues russas. 
Com o aniquilamento de Kronstadt, a Rssia revolucioonria conheceria afinal uma certa estabilidade. Entre 1914 e 1921, trs revolues e uma guerra civil, em seqncia 
vertigiinosa, haviam destrudo e transformado profundamente aquela sociedade. Mas em que sentido exatamente? O que, de fato, estaaria emergindo daquelas runas? 
Uma formao social impreevista, original, sem dvida. 
No campo, onde vivia a imensa maioria da populao, a terra nacionalizada, partilhada e parcelada entre as famlias dos mujiks pelos comits agrrios, o reforamento 
de uma instituiio ancestral, a comuna agrria, parecia a realizao da utopia populista russa. Ofereceria bases seguras para a construo de uma modernidade alternativa? 
No topo do poder, os bolcheviques reivindicavam o soocialismo marxista, um projeto de modernidade hostil  utopia vitoriosa nos campos, onde eles no tinham quase 
nenhuma representatividade. Apoiavam-se socialmente num proletariado industrial que se encontrava desintegrado e em cidades esvaziaadas de populao, onde rondava 
o espectro da fome. Tinham 
justificado sua ao em nome de uma revoluo internacional que no ocorrera. 
Socialistas moderados e anarquistas, entre muitas outras tendncias polticas, recusavam atribuir quela revoluo o caarter socialista que os bolcheviques, metamorfoseados 
em comuunistas, pretendiam garantir, armados de deciso e audcia, e um projeto a longo prazo. Do ponto de vista terico, um experiimento imprevisto. Na prtica, 
uma realidade histrica a ser deecifrada. Os bolcheviques continuavam imaginando-se como vanguarda de uma revoluo mundial, atemorizavam os inimiigos e galvanizavam 
as esperanas de muitos que se sentiam oprimidos e explorados por todo o mundo. Para estes, represenntavam a promessa de um novo mundo. Mas outros, e no pouucos, 
viam-nos apenas como sobreviventes, armadilhados numa engrenagem da qual j haviam perdido o controle. 
Com a consolidao da vitria da revoluo, afastava-se de forma radical a hiptese da modernidade capitalista. Restava uma outra via, igualmente ocidentalizante: 
o socialismo marrxista. Mas os bolcheviques teriam condies de empreend-Ia, isolados nas condies russas? Tendo incorporado o programa revolucionrio populista 
para o campo, podiam ainda ser consiiderados marxistas? Uma grande questo histrica ento apenas se esboava: seria possvel construir na Rssia uma modernidade 
alternativa, de carter socialista? 
3. A REVOLUO PELO ALTO E A CONSTRUO DO SOCIALISMO NUM S PAs 
Em 1921 o pas estava em runas. No inverno de 192111922, houve uma grande fome que, com as epidemias, matou cerca de cinco milhes de pessoas. As revoltas locais, 
as greves, a insurreio revolucionria de Kronstadt configuravam um quadro de descontentamento generalizado. A utopia do comuunismo de guerra e da militarizao 
do trabalho tornou-se invive1. Era preciso formular polticas que obtivessem o acorrdo da sociedade. No para construir o socialismo, mas para matar a fome do povo. 
a processo tomou corpo aos poucos, sem prvia definiio global, s mais tarde ganharia um nome: a Nova Poltica Econmica, a NEP. 
OS .ANOS DA NEP 
A primeira medida de impacto foi a substituio das reequisies  mo armada pela fixao de um imposto em gneeros, pago in natura, pois, naquela poca de decomposio 
geeral da economia, no havia moeda em que se pudesse confiar. Anos mais tarde, com a situao consolidada, foi possvel retomar ao imposto em espcie, em dinheiro. 
Quitado o immposto, os camponeses seriam livres para comercializar quando, quanto e como quisessem os excedentes disponveis. A nacioonalizao da terra e sua posse 
pelos mujiks foram reconhecidas mais uma vez. Abriu-se a porta para a liberdade de comrcio. Em 1922, a Lei Fundamental de Utilizao da Terra e um novo Cdigo Agrrio 
consagraram juridicamente as novas orientaaes. Nas cidades, outros decretos permitiram o restabelecimennto da pequena propriedade privada na indstria e nos servios. 
A nova poltica agrria representava, de fato, uma prooposta de pacto de convivncia entre o governo e a imensa maiooria da populao. Com efeito, naquela altura, 
86,7% da populaao economicamente ativa trabalhava na agricultura. Com as foices e os arados de madeira, repuseram-se ao trabalho, danndo incio  recuperao econmica 
pelo que havia de mais esssencial: a produo de alimentos. 
Em 1925, os resultados eram bastante satisfatrios, em relao  superfcie cultivada (104,3 milhes de hectares) e  colheita de gros (72,5 milhes de toneladas), 
quase equivalentes s de 1913, o melhor ano antes da guerra. A situao era ainda melhor em relao  criao do gado: os rebanhos de bovinos e sunos superavam 
as melhores marcas anteriores. 
O mesmo, entretanto, no acontecia quanto  indstria. 
Dependente de investimentos e tecnologia estrangeiros, sobreetudo os setores de ponta, sofria agora o impacto da diminuio brutal do comrcio internacional. Em 
1926, apenas a produuo de energia eltrica superou os nmeros de 1913: 3,5 milhes contra 1,9 milho de quilowatts. Outros setores estratgicos, como o carvo 
e o ao, continuavam abaixo do que se conseeguira antes da guerra. 
Do ponto de vista da indstria leve, vital para o xito das novas polticas, porque os gros dos mujiks eram trocados por seus produtos, havia resultados desiguais. 
Todos os setores se recuperavam, mas lentamente, e os ndices ainda eram meedocres: alguns, como calados, fsforos, sal e querosene, superaavam com pequenas margens 
as marcas anteriores, j outros, tambm muito importantes, como algodo, tecidos em geral e acar, continuavam abaixo dos ndices alcanados no prguerra. 
O governo tentava manter o equilbrio dos preos entre produtos agrcolas e industriais. Se aumentassem de modo dessproporcional os preos dos produtos manufaturados, 
que innteressavam aos mujiks, como o sal, o acar, o fsforo, o queerosene, ou se no fossem encontrados, que estmulos poderiam ter para levar  venda seus gros? 
Ora, a diferena dos preos 
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relativos, calculada em I, em 1913, saltara para 2,38 em 192331924 em favor dos preos industriais. Apesar de muito esforo, a diferena se mantinha em 1,82 em 1927, 
quase o dobro da existente antes da guerra, drenando para a indstria e para as cidades a renda produzida pelos camponeses, ensejando uma atmosfera de descontentamento. 
O fato  que, alcanada uma recuperao bsica, vencida a fome, restava o grande desafio de como seguir adiante, para alm do ponto a que se chegara. A Unio das 
Repblicas Sociaalistas Soviticas fora proclamada em 1922, mas como seria possvel romper com o atraso multissecular que asfixiava a soociedade? Como mobilizar 
recursos para o desenvolvimento ecoonmico e para a construo de uma modernidade socialista? 
Acumulavam-se problemas. Nas cidades, um desempreego relativamente alto, crianas na rua, mendigos. E a presena de todo o tipo. de trficos, principalmente dos 
comerciantes, os nepmen, enriquecendo-se com manobras especulativas. No aparelho de Estado, a mquina burocrtica fazia pensar, s veezes, na sociedade tsarista, 
com suas proverbiais ineficincia e corrupo. Lenin recorrera  metfora de um motorista no volante de um automvel desgovernado, descendo ladeira abaiixo. Nas 
reas rurais, havia denncias de que camponeses mais empreendedor~s, os kulaks, ao arrepio da lei, comeavam, na prtica, a arrendar terras e a assalariar braos, 
rompendo o pacto igualitarista da revoluo agrria. 
Muitos se perguntavam: fora para isso que se consentiram tantos sacrifcios e se fizera a revoluo? 
Apesar das expectativas, e das esperanas, a revoluo innternacional no ocorrera. A fundao da Internacional Comuunista e a estruturao de uma rede de partidos 
comunistas, rigoorosamente centralizada que, num certo momento, pareceu ofeerecer uma chave para a chamada crise de direo revolucionria, cedo mostraram seus limites. 
O reformismo social-democrata parecia ter razes mais profundas, histricas e sociais, no se resumindo  traio de um grupo de dirigentes cooptados ou corrompidos. 
Entre os povos colonizados e dependentes das potncias capitalistas avanadas, sobretudo os povos asiticos, havia, sem dvida, uma ebulio revolucionria considerada 
positiva. Enntretanto, no universo da ortodoxia social-democrata, em que ainda estavam mergulhados os bolcheviques, aquelas lutas eram imaginadas apenas como foras 
auxiliares no grande embate contra o capitalismo internacional, cujo centro gravitacional continuava sendo a Europa central e ocidental. 
Para agravar ainda mais o quadro, os bolcheviques haviam perdido seu grande lder, Lenin. Vtima de derrames conseecutivos, fora de combate desde 1923, morrera em 
janeiro de 1924, deixando um vcuo que nenhum outro dirigente conseeguira preencher. Em seus ltimos escritos, Lenin no apontara sucessores. Ao contrrio, no seu 
estilo habitual, irnico e severo, criticara principalmente Stalin, mas no poupara nenhum outro dirigente de primeira linha. A circulao restrita dos escritos 
alimentaria as rivalidades pessoais e polticas que acompanhaaram a agonia e se seguiram  sua morte. 
Foi nesse quadro de perplexidades e angstias que se travou o grande debate sobre os rumos do socialismo na Unio Sovitica. 
o GRANDE DEBATE 
Entre as mltiplas questes em jogo, duas alternativas gloobais se apresentaram para o desenvolvimento econmico e soocial da sociedade sovitica. Elas no resumiram
as lutas polticas que ento se verificaram, mas conferiram a elas uma vertebrao e um sentido. Foram defendidas, de forma mais consistente, por N. Bukharin e E.
Preobrazhensky.
Bukharin, depois de algumas hesitaes, passou a defennder a NEP como uma aliana (smychka) a longo prazo entre operrios e camponeses. Era essencial, na sua argumentao,
respeitar os interesses dos camponeses e faz-Ios avanar graadualmente, na base da persuaso, para nveis mais complexos de coletivizao. A cooperao, em relao
 qual havia uma notvel experincia acumulada, poderia ser a via pela qual os camponeses iriam, no ritmo possvel, a passo de tartaruga, se
fosse o caso, ingressar no futuro socialista.  proposta de taxas de crescimento mximas, Bukharin contrapunha o conceito de desenvolvimento timo, dosando de forma 
equilibrada os innteresses contraditrios do campo e da cidade. 
Preobrazhensky no rejeitava em tese a aliana com o campesinato. Entretanto, considerando as ameaas do cerco caapitalista, inclusive a hiptese de uma eventual 
cruzada internaacional contra a URSS, enfatizava a necessidade de um esforo concentrado na criao de uma indstria pesada autnoma. Os recursos para tanto no 
poderiam vir seno dos camponeses que, sob a forma de um tributo, contribuiriam para a decolagem da economia e de modernidade soviticas: era a acumulao socialista 
primitiva. Caberia ao poder sovitico dosar polticas de modo que a transferncia de renda se efetuasse da maneira mais planejada e menos traumtica possveL De 
qualquer forma, no havia alternativa. Adiar a deciso s poderia significar ter de tom-Ia em condies mais adversas. 
As teses de Bukharin tinham uma orientao reformista: consolidar os ganhos, promover avanos graduais e seguros. As de Preobrazhensky mobilizavam expectativas hericas, 
identiificadas com a tradio revolucionria socialista, com a classe operria e o sistema fabril, hostis ao campons, visto como hisstoricamente reacionrio. 
O debate tendeu  radicalizao porque vinha envolvido com outras questes no menos candentes: a luta pelo poder, a relao entre ditadura e democracia e a revoluo 
internacional. 
A luta pelo poder, no Partido e no Estado, entre os suucessores de Lenin, gradativamente se polarizou em torno das personalidades de Stalin, secretrio-geral do 
Partido, e Trotski, organizador e chefe do exrcito vermelho. Com Lenin ainda vivo, mas j fora de combate, doente, comearam as manobras e conntramanobras, camufladas, 
s percebidas pelos iniciados, incluusive porque, desde o X Congresso do Partido, em 1921, sob o pretexto de fortalecer a unidade interna e combater as fraes, 
aprovou-se um conjunto de normas que restringiram severaamente os debates e as articulaes dentro do Partido. 
Alm disso, o reconhecimento da pluralidade de posies era dificultada porque, entre os bolcheviques, formara-se muito cedo o consenso, vinculado  ortodoxia social-democrata, 
de que o Partido detinha a verdade cientfica do processo histrico. Asssim, no havia alternativa s formulaes oficiais do Partido, pois ningum podia ter razo 
contra ele. Essas idias, ancoradas em profundas convices, atribuam  poltica um carter cientfico, autorizando e legitimando tendncias autoritrias, agrilhoanndo 
as discusses: quem poderia questionar uma deciso cienntfica, quem poderia ousar contrariar o Partido, nico intrrprete qualificado dos interesses histricos 
do proletariado? 
Tratava-se de concepes compartilhadas por todos os discpulos de Lenin, conferindo substncia  opo pela ditaadura revolucionria exercida pelo Partido Comunista, 
em nome do proletariado e do futuro socialista. Da o esmagamento da revoluo de Kronstadt, a perseguio das demais alternativas socialistas, a desvitalizao 
das organizaes soviticas e a interrdio de aes e organizaes autnomas em relao ao Partido e ao Estado. 
Nessas circunstncias, os apelos a formas sociais de conntrole e  democracia, por parte de alguns protagonistas (Trotski, Zinovieve Kamenev), s apareceriam quando 
estes se enconntravam derrotados, em situaes desesperadas, carecendo, assim, de consistncia e de credibilidade. 
De qualquer forma, depois da guerra civil e do esmagaamento de Kronstadt, e das exigncias de centralizao poltica da decorrentes, fechara-se, pelo menos a mdio 
prazo, a opo de um socialismo democrtico naquela sociedade. Sem o conntraponto de sovietes vivos e atuantes, como em 1917, nem o de outros partidos socialistas, 
todos postos na ilegalidade, a doomipao do partido nico consolidou-se rapidamente. 
O cerco do capitalismo internacional e o mito da Unio Sovitica como fortaleza sitiada ofereceram argumentos supleementares  consolidao da ditadura poltica. 
A respeito do asssunto e da revoluo internacional, constituiu-se uma outra questo maior do grande debate dos anos 20. 
A revoluo sovitica, cor:no se viu, estava isolada no mundo. Seria possvel um pas socialista sobreviver num mundo capitalista hostil? De acordo com a teoria 
ortodoxa, a resposta era negativa. E o que fazer, nas fronteiras da Unio Sovitica, enquanto no sobreviesse uma nova onda revolucionria interrnacional? Cruzar 
os braos e esperar? Ou empreender a construuo do socialismo com os recursos disponveis? 
Bukharin chegou a sustentar, em certo momento, que a Unio Sovitica deveria romper o cerco do capitalismo interrnacional, priorizando alianas com os povos dependentes 
e coloonizados, ou seja, com o campesinato em escala mundial. A forrmulao, uma antecipao histrica do maosmo, no convennceu: Prevaleceram, de um lado, as posies 
de Trotski, a quem se atribua a proposta de uma revoluo internacional a quallquer custo. Sem ela, a Unio Sovitica, atrasada e isolada, estaaria condenada. De 
outro, Stalin, acusado de defender a viabiliidade da construo do socialismo num s pas. Nada restava aos bolcheviques, isolados e mesmo que atrasados, seno encarar 
de forma construtiva o futuro. A rigor, nenhum dos lados, na estruturao ponderada de suas posies, negava seja a necesssidade da revoluo internacional, seja 
o imperativo de encaaminhar, na medida do possvel, a construo do socialismo. Entretanto, no fogo pesado da luta poltica as posies tenderam a se acirrar, anulando 
as nuanas. 
De fato, desde maro de 1918 (paz de Brest-Litowski), os bolcheviques, tendo que escolher entre os interesses imediaatos da sobrevivncia da revoluo sovitica 
e os da revoluo internacional, optaram pelos primeiros, considerados mais visveis e concretos. Construiu-se rapidamente uma associao naatural entre a revoluo 
sovitica e a internacional. Defender uma era, quase automaticamente, defender a outra. No seria fcil escapar dessa armadilha lgica. 
As ENCRUZILHADAS DA NEP 
Depois de um comeo hesitante, ao longo dos anos 20, tenderiam a predominar as concepes de Bukharin sobre a NEP. 
Em dezembro de 1927, por ocasio do XV Congresso do Partido Comunista, quando Trotski e seus discpulos mais chegados foram expulsos, presos e/ou exilados, tais 
concepes seriam uma vez mais reafirmadas, parecendo definitivamente consaagradas. Mas havia ambigidades no processo. 
Periodicamente, com mais ou menos nfase, importantes dirigentes, inclusive Stalin, o cada vez mais poderoso secretrio-geral do Partido, insistiriam sobre a importncia 
decisiva das cidades e do processo de industrializao. Defendiam o forrtalecimento da hegemonia da indstria socialista sobre o connjunto da economia e a idia 
de alcanar e superar os pases caapitalistas avanados num prazo curto. Tais frmulas no caam no vazio, traduziam-se em alocaes de crescentes recursos  indstria, 
sobretudo  indstria pesada. Multiplicavam-se atitudes hostis aos kulaks e aos nepmen, responsabilizados pelos problemas da sociedade sovitica, e tambm declaraes 
favoorveis ao processo de coletivizao da terra, considerado supeerior e nica alternativa a longo prazo do ponto de vista da construo da modernidade socialista. 
As presses pela definio de um Primeiro Plano Qinnqenal cresciam, prevendo ndices e ritmos de crescimento inncompatveis com os pressupostos da NEP. Teses voluntaristas, 
formuladas no mbito de agncias estatais especializadas, como o Gosplan, ganhavam corpo nas cpulas do Estado e do Partido. 
Os preos relativos industriais subiam em detrimento dos preos agrcolas, prejudicando os interesses dos mujiks. Como a indstria leve patinava, cresceu a escassez 
de produtos manufaaturados no campo. Em conseqncia, no ano agrcola de 192661927, a produo comercializada caiu 50% em relao ao meelhor ano anterior  guerra. 
Os camponeses mdios e pobres, que garantiam 85% da produo, s estavam comercializando 11,2% do que produziam. 
No ano seguinte, a situao, longe de melhorar, piorou. 
Os rgos estatais de comrcio atacadista no conseguiam alcannar as metas definidas. Certas regies no chegavam a dois teros dos objetivos definidos. Os camponeses 
pareciam no interes- 
sados em vender os cereais. Pago o imposto, estocavam a prooduo ou no semeavam, preferindo o refgio do autoconsumo. Rondava o espectro de uma greve camponesa.
Aprovaram-se medidas de emergncia: requisies foraadas garantidas por destacamentos armados. No fim do ano agrcola de 1927-1928, afinal, as metas foram alcanadas, 
mas  custa de violncia e de quebra da precria confiana dos mujiks no governo, laboriosamente construda nos anos anteriores. 
Houve denncias e protestos, Bukharin  frente. Como resultado, o Partido hesitou. A NEP foi reafirmada e se condeenaram os excessos cometidos na aplicao de uma 
poltica emergencial. 
O mal, entretanto, estava feito, as relaes entre o Estado e os mujiks deterioravam-se de modo fulminante, visveis nos resultados obtidos no ano agrcola seguinte, 
de 1928-1929. Novas dificuldades, ainda maiores, voltaram a fazer funcionar, mais uma vez, a engrenagem das medidas emergenciais. O goverrno politizou a crise, afirmando 
que o poder sovitico estava ameaado por uma conspirao organizada pelos kulaks. 
Nessa atmosfera carregada, em abril de 1929, o Comit Central do Partido aprovou o I Plano Qinqenal, na verso mxima. Em cinco anos, a partir de outubro de 1928, 
os investiimentos cresceriam 237%, a renda nacional, 506%, a produo industrial, 136%, a produo de energia eltrica, 335%, a de carvo, 111%, a de petrleo, 88%, 
a de ao, 160%. As previises, embora altas, caam sintomaticamente, em relao aos bens de consumo, 104%, e  produo agrcola, 55%. 
Um delrio de cifras, jamais antes imaginadas. 
Ao mesmo tempo, foi ultimado um programa de coletiivizao das terras, definindo-se a meta de 15% para os cinco anos cobertos pelo Plano. 
Em dezembro de 1929, as metas, entretan~o, foram reevistas em favor de uma radicalizao sem precedentes. O objeetivo agora era coletivizar totalmente as terras 
nas principais reas agrcolas do pas: o baixo Volga, as terras frteis da Ucrnia, o norte da Sibria ocidental. No escapariam nem as aves dos ter- 
reiros. A cQletivizao alcanaria 100% dos animais de trao e do gado bovino, 80% dos sunos e 60% dos caprinos e dos galinceos. 
Os protestos agora foram abafados. Seus autores, Bukhaarin inclusive, acusados de timoratos e direitistas. Stalin conclaamava a militncia: no havia fortaleza que 
no pudesse ser connquistada pela vontade de verdadeiros bolcheviques. 
A NEP fora abandonada. Uma grande virada. Uma nova revoluo. 
A REVOLUO PELO ALTO 
Nos anos 30, a Unio Sovitica transformou-se de modo radical e fundou um modelo que iria marcar profundamente o socialismo no sculo xx. O processo de modernizao, 
proposto desde Pedro, o Grande, em fins do sculo XVII, e immpulsionado pelas reformas do sculo XIX, sempre oscilando entre a cpia do Ocidente e a formulao de 
uma modernidade alternativa, seria agora retomado de forma decidida e numa escala inaudita. Agora, e mais uma vez, os padres ocidentaliizantes seriam incorporados 
de uma forma apenas instrumental. Com efeito, os saltos tecnolgicos e o crescimento da produuo desencadearam-se no contexto de uma economia de coomando, mobilizada 
e estatizada. Uma revoluo pelo alto. Nada que os intelectocratas do sculo XIX pudessem ter imaginado, nem em seus devaneios mais delirantes. 
O processo desenvolveu-se em duas direes principais: a coletivizao do campo e a industrializao acelerada, apoiada sobretudo em determinados plos: mquinas 
e equipamentos pesados, transportes e energia, produo de armamentos e exxtrao mineral. 
A COLETIVIZAO DO CAMPO 
A grande produo coletivizada esteve sempre inscrita nos programas gerais da social-democracia internacional. Era pensada como a moldura ideal em que se poderiam 
registrar os avanos tecnolgicos indispensveis ao aumento da produ- 
o e da produtividade agrcolas, essenciais, por sua vez, ao cresscimento urbano-industrial prprio de uma sociedade socialista moderna. 
As circunstncias das revolues russas de 1917, porm, como j se viu, obrigaram os bolcheviques a assumir o prograama dos congressos camponeses e a partilha igualitria 
das terras sob controle dos comits agrrios, ou seja, nem o modelo da pequena propriedade privada, nem a chamada "via prussiana", nem o programa socialista, mas 
algo muito prximo da tradio populista russa. 
O fato  que garantiram, assim, o apoio dos camponeses ao governo revolucionrio, consolidando, na frmula de Lenin, a ditadura revolucionria operrio-camponesa. 
Mais tarde, em 1918, houve tentaes de romper a aliana, mas foram rapidaamente superadas em nome do realismo poltico. A NEP, nas suas diferentes verses, reconhecia 
a necessidade de manter o status quo, avanando lenta e gradualmente no rumo da coletivizao, sempre de acordo com a vontade dos camponeses. A situao incomodava. 
No poucos bolcheviques a consideravam um enntrave maior  modernizao socialista. As modalidades de enerrgia empregadas nos trabalhos agrcolas falavam por si 
mesmas: 73,7% de energia animal, 24,3% de energia humana e apenas 2% de energia mecnica. As atividades econmicas agrcolas, responsveis por cerca de 50% da renda 
nacional, consumiam menos de 1 % da eletricidade produzida. A pequena produo era o reino do atraso. Em torno dela, agrupava-se uma slida resistncia ao estabelecimento 
da grande explorao socializada. Para ter uma idia da fora da agricultura familiar, basta dizer que, em 1927, as formas coletivas no agrupavam mais do que 1,7% 
da rea semeada. 
A virada comeou a evidenciar-se com as metas aprovaadas na primeira verso do I Plano Qinqenal.  sintomtico, porm, que, apesar de todos os estmulos, ainda 
em 10 de outuubro de 1929, apenas 7,3% das exploraes agrcolas estivessem coletivizadas. 
A partir de ento, o ritmo acelerou-se de modo frentiico: 10 de dezembro de 1929:13,2%; 10 de janeiro de 1930: 20,1 %; 10 de fevereiro: 34,7%; 20 de fevereiro: 
50%; 10 de maro: 58,6%. Em cerca de cinco meses, do incio de outubro de 1929 ao fim de fevereiro de 1930, quase 60% dos mujiks foram coletivizados em kolkhozes 
(cooperativas) e sovkhozes (fazendas estatais). 
Diante da amplitude da resistncia camponesa e da queda na produo, houve um susto nos altos escales. Stalin escreveu um artigo deplorando a vertigem do sucesso. 
Novamente, apareeceram crticas aos excessos cometidos. Como se diante do abissmo o Partido ainda hesitasse em tomar aquele rumo. Os mujiks aproveitaram-se das dvidas 
entre os comunistas e debandaaram em massa das unidades coletivas de produo. Em junho de 1930; a proporo delas j cara para 21 % do total. 
Retomaram-se ento os excessos. Passou o tempo das ambigidades. Um ano depois, j os nveis mais altos alcanados em 1930 tinham sido recuperados. Os camponeses 
foram sendo espremidos com sistema e mtodo: em fins de 1935,98% deles estavam definitivamente coletivizados. 
Os resultados foram desastrosos, o que foi reconhecido pelas prprias estatsticas oficiais. Em 1928, ltimo ano em que, mal ou bem, as orientaes da NEP prevaleceram, 
a coolheita de cereais alcanou 73,3 milhes de toneladas. Nos dez anos seguintes, exceo feita a 1937, quando as condies atmosfricas foram excepcionais, a agricultura 
sovitica no ulltrapassaria este patamar, permanecendo, ao contrrio, e freeqentemente, abaixo dele. 
Em relao ao gado, as perdas foram ainda maiores. No curso do I Plano Qinqenal, os rebanhos diminuram em mais de 50%, destrudos pelos camponeses revoltados. 
Em 1940, os ndices ainda eram inferiores em 17% ao ltimo ano da NEP (1928). 
A justificativa poltica mais referida nos anos de coletii. vizao foi a necessidade de liquidar os kulaks como classe. Considerados camponeses ricos nas anlises 
formuladas antes da Primeira Guerra Mundial, tinham ganho uma certa expresso 
no campo, principalmente no quadro das reformas de Stolypin. Destacavam-se por terem um ou dois animais, pequenos exceedentes regularmente comercializados no mercado, 
estoques de sementes, alguma poupana, o que lhes permitia emprestar aos demais e exercer presso, quando no violncia, para cobrar o devido. A massa dos camponeses 
tinha por eles admirao e despeito, s vezes, dio. 
A revoluo agrria niveladora de 1917, no entanto, ennsejou uma diminuio de sua importncia relativa. Na esteira do igualitarismo tradicional e do reforamento 
da comuna rural (o mir), beneficiaram-se mais os camponeses mdios (sereddniaks) e os pobres (bedniaks). A NEP, contudo, sobretudo a partir de 1923-1924, relanara 
um processo de desigualdades, mas seeria muito problemtico dizer que j se (re)constitura, nos cammpos russos, uma camada de camponeses ricos. 
No perodo da coletivizao, e progressivamente, o termo kulak passou a designar, de fato, todo e qualquer campons que resistisse s diretrizes e aos ditames das 
polticas impostas pelo Estado.  sintomtico como foi aparecendo no vocabulrio ofiicial toda uma famlia de palavras aparentadas: subkulak, prkulak, semikulak, 
objetivamente kulak, kulakizante etc. A rigor, a represso alcanou, para alm dos kulaks propriamente ditos, os camponeses mdios (seredniaks), o que se evidencia 
na deporrtao de um milho de famlias camponesas, cerca de cinco milhes de pessoas, segundo estimativas russas. Sem falar nos fenmenos no quantificveis dos 
traumatismos provocados pela expropriao de terras e rebanhos, prises, privao dos direitos civis, separao de famlias, exlios ... 
 possvel apontar uma lgica nesse processo aparenteemente insano? 
Em primeiro e principal lugar, um resultado qualitativo: o desaparecimento do pequeno campons, um tipo social necesssariamente vinculado  reao poltica no universo 
de valores que a social-democracia transmitira aos bolcheviques. A soluuo final de um problema histrico, abrindo amplos horizonnI s ao combate dos particularismos 
privatistas e  capacidade 
de controle do Estado, agindo em nome do interesse geral. Asssim, o nexo rural que estruturava a tradicional sociedade agrria russa, formado pelo grande proprietrio 
(pomechtchik) e pelo campons organizado na comuna rural (mir), ter sido destrudo em dois momentos decisivos: a revoluo agrria de 1917 e a revoluo pelo alto 
entre 1929-1933. 
Agora, nas unidades coletivas de produo, seria possvel exercer o controle econmico e policial com mais preciso e eficincia, determinando o que e quanto iriam 
produzir os cammponeses e a proporo da produo que caberia ao Estado. O agrupamento de milhes de camponeses em algumas dezenas de milhares de unidades de produo 
viabilizou a extrao e a cobrana das entregas obrigatrias, sempre ascendentes, mesmo que a produo estivesse estagnada ou em declnio. 
Assim, em 1928, no contexto das medidas emergenciais, as entregas obrigatrias chegaram a 10,8 milhes de toneladas de cereais. No ano seguinte, apesar das turbulncias, 
registraram um aumento de mais de 50%, atingindo 16,1 milhes de tonelaadas. Outros saltos se verificariam depois, alcanando uma mdia de 27,5 milhes de toneladas 
no qinqnio 1933-1937. Em percentuais, as entregas obrigatrias ao Estado em relao ao total da produo evoluram de 14,7% em 1928 a 38% em 1940. 
Alm dessas imposies, os mujiks eram espremidos pela administrao dos preos relativos, sempre favorecendo os proodutos industriais, pelo pagamento obrigatrio 
de servios e mquinas controlados pelo Estado, pelas pesadas multas em caso de no-cumprimento das metas, entre outros procedimenntos. Em pouco tempo, estavam reduzidos 
 condio de cidados de segunda classe. 
Um outro importante resultado da coletivizao forada foi o aumento das migraes internas para as cidades. Em parte, o fenmeno adequava-se aos interesses criados 
pela formidvel expanso industrial e urbana pelo qual a sociedade iria passsar, mas isso tomou tais propores que foi necessrio, a certa altura, restabelecer 
a tradio tsarista dos passaportes internos. Em princpio, o mujik s poderia abandonar a unidade coletiva 
de produo com autorizao expressa e por escrito da chefia imediata. 
Os que escapavam sem autorizao estavam sempre suujeitos a cair nas malhas dos controles sem fim, sendo ento presos e deportados. Transformavam-se, juntamente 
com os acusados de crimes polticos, em zeks, prisioneiros adstritos a trabalhos forados, responsveis pela abertura de canais, consstruo de estradas de ferro, 
explorao de madeiras nobres e de minas de ouro nas condies insalubres de regies inspiitas. A importncia econmica do trabalho forado, por muitos denunciado 
como uma restaurao disfarada do trabalho serrvil, largamente reconhecida,  at hoje de difcil mensurao estatstica. 
A resistncia dos mujiks foi sempre feroz e desesperada: os camponeses chacinavam os animais, destruam lavouras e implementos agrcolas, furtavam cereais, matavam 
chefes admiinistrativos e policiais, recusavam-se a trabalhar. As lideranas rebeldes eram fuziladas. Os recalcitrantes, deportados. Em trens da morte, centenas
de milhares de mujiks foram tangidos para as regies inspitas da sia central e do Grande Norte. Quando a resistncia ativa era, afinal, debelada, restava, e restou,
a inao, o descaso, o desperdcio, a apatia, o desinteresse.
O campo e o campons pagaram um tributo elevado para que se realizasse o que Preobrazhensky chamara de acumulaao socialista primitiva. Entre os mujiks acorrentados
s unidaades coletivas de produo, os que logravam migrar para as cidaades, empregados nos trabalhos mais pesados e rudes das inndstrias, e os zeks nos campos
de trabalho forado, formou-se uma estranha simbiose: a da construo da modernidade sociaalista com base na radicalizao de formas de explorao que faziam pensar
no Antigo Regime.
A INDUSTRIALIZAO ACELERADA
O surto industrial apoiou-se na opo por um determiinado conjunto de setores, considerados estratgicos: indstrias de construo mecnica, de armamentos, siderurgia,
transportes
- estradas de ferro e canais, energia eltrica, carvo e petrleo, os chamados dinossauros comedores de ferro e ao. A eles seriam destinados 78% dos investimentos 
totais. Alavancando e polaarizando o processo, grandes projetos, para a realizao dos quais todos os sacrifcios seriam consentidos: os complexos metalrrgicos 
de Magnitogorsk e de Kuznetsk, as imensas fbricas de tratores de Kharkov e Tcheliabinsk, as de automveis de Mosscou e de Nijni-Novgorod, a usina hidreltrica de 
Dnieprpetroovski, a estrada de ferro entre o Turquesto e a Sibria, o TurkkSib, o canal Volga-Mar Branco e, como vitrine, a pirmide de Stalin: o metr de Moscou, 
inaugurado em 1935, com suas immponentes estaes revestidas de mrmore. 
Os dados referentes s metas alcanadas, os ndices de crescimento obtidos, seriam apresentados como justificativas e recompensas ao esforo despendido. Surgiu uma 
economia de comando, mobilizada, quase que totalmente estatizada, na meedida em que foram bruscamente golpeadas todas as concesses da NEP ao capital privado, na 
indstria e no comrcio, obriganndo os nepmen a renunciar a suas atividades ou a percorrer os perigosos caminhos da ilegalidade. 
Ao crescimento industrial correspondeu uma formidvel expanso das cidades. Enquanto a populao total cresceu cerca de 15%, entre 1926 e 1939, de 147 para 170 milhes 
de pessoas, a urbana foi de 26 para 56 milhes de habitantes, cerca de 112%, quase dez vezes mais, em termos proporcionais; em relao  populao total, um salto 
de 18% para 33%. Todas as grandes cidades registraram crescimento, sem falar nas que surgiam do nada, como a cidade-smbolo de Magnitogorski. 
Predominava em quase toda aparte uma tenso sobreehumana, determinada pelo fato de que fora aprovada, afinal, a variante tima do I Plano Qinqenal, ainda reforada, 
mais tarde, com a deciso de cumprir o Plano de cinco anos em quaatro. Os planos qinqenais seguintes, o 11 (1932-1937) e o III (desde 1938), adotados antes da 
Segunda Guerra Mundial, reiteeraram as opes e os critrios adotados desde o incio da revooluo pelo alto. 
o resultado foi um salto gigantesco, sobretudo nos setores considerados estratgicos. 
Crescimento industrial registrado nos anos 30 Setores estratgicos (Nove, 1990) 
1927-1928   1932   1937   
Eletricidade*   5   13,4   36,2   
Carvo"   35,4   64,3   128   
Petrleo"   11,7   21,4   28,S   
Ao**   4   5,9   17,7   
Renda nacional***   24,4   45,S   96,3   
*Bilhes de quilowatts; "milhes de toneladas; *** milhes de rublos/ 1926-1927. 
Foram construdas oito mil indstrias ao longo dos anos 30. No apenas um crescimento quantitativo, mas sobretudo qualitativo, traduzido no aparecimento de novas 
cidades e reegies industriais e novos setores, como qumica, eletrotcnica, aeronutica, automveis, construo de mquinas etc. 
A FORMAO DA SOCIEDADE SOVITlCA 
Nesses anos de formidvel crescimento industrial, a soociedade sovitica viveu um perodo de vertiginosa mobilidade. 
Mobilidade espacial, traduzida nas migraes macias, vooluntrias ou compulsrias, dos campos para as cidades, das reas tradicionais de desenvolvimento, no Ocidente, 
no centro e no sudoeste, para novas reas, nos Urais, na sia central e na Sibria ocidental. Sem falar nas migraes tangidas de toda a parte para os campos de 
trabalho forado. 
Mobilidade social, sob a forma de mudanas horizontais, evidenciadas nas dificuldades de adaptao s novas ocupaes urbanas, nos constantes licenciamentos e recontrataes 
(tekuuchka), mas tambm nos padres de ascenso social vertical, em razo do aniquilamento ou fuga das elites tradicionais. Um ho- 
rizonte amplo de oportunidades descortinou-se para pessoas empreendedoras, com capacidade de organizao e disposio para o trabalho. Desde que no enveredassem 
pelo campo da crtica ao regime poltico, ganhavam condies de realizao antes inexistentes. 
Nesse sentido, contriburam decisivamente as reformas educacionais, estabelecendo o ensino universal e gratuito em todos os nveis, sem falar nos estmulos  formao 
prtica, aos mtodos de ensino a distncia, por correspondncia, ou ao ennsino noturno, as chamadas faculdades operrias (rabfaks) destiinadas especialmente aos 
trabalhadores. 
Entre 1928 e 1941, o total de diplomados universitrios cresceu de 233 para 908 mil. No ensino secundrio, o salto regisstrado foi de 288 mil para 1,49 milho de 
diplomados. Entre os matriculados nas rabfaks, houve um aumento de cerca de 50 para 285 mil, em apenas quatro anos, de 1928 a 1932. 
Todo esse processo abalou profundamente as hierarquias sociais tradicionais, enfraquecendo o pter-famlias, outrora todo-poderoso. De um lado, a liberao dos jovens 
(45% da poopulao sovitica tinha, ento, menos de vinte anos), concitados ao trabalho voluntrio,  participao nas novas frentes de traabalho em lugares distantes 
e inspitos,  construo de uma sociedade nova, livre da explorao, no mbito das organizaes de jovens comunistas (konsomol). De outro, a emancipao das mulheres, 
s quais os cdigos soviticos conferiram igualdade jurdica e s quais igualmente se abriram imensas oportuniidades de trabalho em todos os nveis da sociedade. 
Mesmo que os anos 30, em relao ao direito de famlia (casamento, divrrcio, aborto, natalidade etc.), tenham sido marcados por uma notvel reao conservadora, 
tendendo a abandonar uma srie de tentativas inovadoras implementadas logo aps o triunfo da revoluo de 1917, a famlia patriarcal tradicional teve suas bases 
inegavelmente abaladas no contexto do verdadeiro salto para a frente dado pela economia sovitica. Nessas novas condies, jovens e mulheres, sem dvida, puderam 
desenvolver melhor as prprias faculdades. 
Freqentemente as condies de vida eram muito duras, sobretudo se consideradas  luz dos padres prevalecentes nos pases capitalistas avanados. Como os investimentos 
canalizaavam-se principalmente para a indstria pesada, tenderam a ser negligenciados os setores de produo de artigos de consumo corrente (indstrias leve) e a 
construo civil. O abastecimento de gneros alimentcios, mesmo quando no racionado, era esscasso, porque o Estado atribua prioridade mxima s exportaaes com 
o objetivo de adquirir divisas que viabilizassem a immportao de mquinas e matrias-primas essenciais. O vesturio era sbrio e pouco diversificado. As estatsticas 
oficiais relativas  habitao urbana mostravam um quadro precrio. Em 1936, apenas 6% dos habitantes das cidades dispunham de mais de um cmodo para viver. Outros 
40% dispunham de apenas um cmodo, 24% de parte de um cmodo, 5% viviam em cozinhas e corredores e 25% alojavam-se em dormitrios, barracas, tenndas etc. 
Em toda parte, apesar de um discurso nivelador, a soociedade cindia-se em estratos diferenciados, no assumidos oficialmente, mas perceptveis. Subsistiam, apesar 
de progressos notveis na educao e na sade pblicas, diferenas entre as geraes e os gneros, sem falar em distines mais radicais como as existentes entre 
os includos na sociedade e os privados de direitos (lichentsy), considerados inimigos do povo. Mesmo entre os trabalhadores fabris, em relao aos quais era enftico 
o discurso igualitarista, persistiam velhas divises, como as existentes entre os migrantes provenientes recentemente dos campos e os j habituados s condies 
urbanas, operrios, s vezes, de segunda gerao. E novas diferenas, como as introoduzidas pelo salrio por pea e pelos estmulos materiais  obbteno de resultados. 
Em 1938,60% dos trabalhadores no connseguiram cumprir as normas de produo, freqentemente fiixadas em altos patamares, de modo arbitrrio. Em 1937, o salrio 
mdio real correspondia a pouco mais da metade do que fora pago em 1928, atestando uma degradao concreta da reemunerao pelo esforo concedido. 
Ao mesmo tempo, no entanto, os trabalhadores de choque (udarniks), que cumpriam ou ultrapassavam as normas, ganhaavam recompensas especiais, acesso a bens escassos, 
regalias e privilgios. A partir de 1935, o movimento stakhanovista, do nome de A. Stakhanov, um mineiro que se tornou famoso pelos altos ndices de produtividade 
que conseguia alcanar, tendeu a consolidar uma camada diferenciada no interior da classe traabalhadora. Muitos apontariam o fenmeno como incompatvel com a sociedade 
socialista, mas a poltica dos estmulos materiais angariou adeptos. Embora recorrentemente criticada, perduuraria ao longo do tempo. 
A verdade  que se constituiu uma pirmide social, e esta tinha uma cpula formada por dirigentes de empresas, engeenheiros, administradores, cientistas, altos burocratas, 
oficiais das Foras Armadas, professores titulados, mdicos, tcnicos qualiificados, que compreendia, segundo diferentes clculos, de 7 a 13 milhes de pessoas, 
ou seja, entre 4% a 7,5% da populao total. Em 1939, Molotov quantificou-os em 9,5 milhes de pesssoas. Uma classe burocrtica emergente? Uma nova classe domiinante, 
embora no estruturada com base na propriedade priivada? O fato  que a estava o ncleo dos que decidiam os rumos da sociedade, gestores de uma nova modernidade 
que estava surrgindo, alternativa. 
Nesses nveis os salrios eram bem mais altos. O que mais importava, porm, era o acesso a certo tipo de vantagens que atestavam poder e prestgio e valiam mais 
do que qualquer outra coisa naquela sociedade de escassez: habitaes melhores, colnias de frias, lojas especiais, possibilidades maiores de promooo, transporte 
particular, possibilidade de viagens, principallmente ao exterior etc. 
Os. novos gestores assumiriam cada vez maior importnncia no Estado e no Partido Comunista. Correspondiam a 21 % dos delegados ao XVII Congresso do Partido em 1934. 
Cinco anos mais tarde, no XVIII Congresso, em 1938, j eram 54% dos delegados. Na mesma poca, os operrios diretamente ligaados  produo no passavam de 15% dos 
filiados. Registre-se, 
no entanto, que quase metade dos que estavam nas altas cpulas eram provenientes de famlias operrias ou camponesas, evidennciando um processo de mobilidade vertical 
e de plebeizao do poder. 
Na sociedade sovitica nos anos 30, entrecruzavam-se pocas e estilos. Contrastes agudos, inesperados. Magnitogorski era o smbolo e a sntese da modernidade socialista 
que estava sendo plasmada. Sada do nada, a nova cidade era a expresso da tcnica mais refinada da poca. Na sua construo, combinaavam-se a generosidade dos voluntrios 
vermelhos, cheios de enntusiasmo, e o trabalho sem-servil dos zeks. A liberdade de um novo mundo e a priso do Antigo Regime. No era o socialissmo profetizado 
na teoria e nos livros, mas um sistema que reallmente existia. 
Como o viviam e interpretavam-no as pessoas comuns e as prprias elites? Como trabalhavam naquele mundo de perrmanente mobilidade, naquela sociedade de areias movedias? 
OS MITOS POSITIVOS DO SOCIALISMO NUM s6 PAIs 
A intensa mobilizao da sociedade sovitica ao longo dos anos 30 baseou-se em algumas convices, compartilhaadas por largas maiorias. Sem elas, no seria concebvel 
que tanta gente estivesse disposta a tantos sacrifcios num perodo de temmpo to concentrado. Para o enfrentamento das dificuldades, para super-Ias, e alcanar 
os objetivos dos Planos, construram-se idias-fora, quase sempre reativando ou atualizando tradies integrantes de uma cultura poltica comum, enraizada no tempo. 
J 
Em primeiro lugar, permeando todos aqueles anos de 
lutas e embates titnicos, a proposta de uma sociedade nova, igualitria e justa. Trazer a utopia dos sonhos para a realidade. Construir um homem novo. Um ser humano 
solidrio que no pensasse principalmente em si mesmo, de forma egostica, como nos pases capitalistas, mas no conjunto, na sociedade como um todo, em todo o mundo, 
na inteira humanidade. No preesente, lanar bases para o futuro. Um viajante entusiasmado exclamaria, referindo-se queles anos soviticos: eu vi o futuro, 
e ele funciona. Por estar vendo o futuro,  que tantos se mobiliizavam e consentiam tamanhos sacrifcios. 
Para alcanar esse futuro, a Unio Sovitica precisava, a todo custo, a qualquer preo, modernizar-se. As fbricas e os densos rolos de fumaa, as torres dos poos 
de petrleo, as granndes barragens hidreltricas, os tratores e as locomotivas, as inoovaes tecnolgicas, as mquinas, a tcnica em ao, em moviimento veloz, 
eis a traduo prtica e concreta da modernidade que se estava construindo. Mas uma modernidade a servio da coletividade, em que os bens produzidos por todos pertenciam 
ao Estado, que representava a todos. A equao rompia com os padres da celebrao da liberdade e do sucesso individuais, para exaltar, alternativamente, a sociedade 
e, nela, sobretudo, os hoomens e as mulheres comuns que trabalhavam e davam o suor e a vida para que a sociedade sovitica e a humanidade pudessem, um dia, viver 
em condies de igualdade e justia social. 
Houve naquele momento a reativao de toda uma traadio russa de procura de caminhos alternativos aos padres ocidentais no sentido da construo de uma outra modernidade. 
Admitia-se a incorporao macia da cincia e da tcnica ociidentais, era possvel import-Ias e us-Ias, mas de uma forma essencialmente instrumental, porque deveriam 
estar inseridas numa outra proposta de construo social. Retomava-se a crtica  subservincia com que certas propostas modernizantes se relaacionavam com o Ocidente. 
Era preciso romper com essa tradiio e nada mais simblico nesse sentido do que a mudana da capital do pas. De So Petersburgo/Petrogrado/Leningrado para Moscou. 
Da bela e graciosa janela debruada sobre o Ocidente para a velha cidade imperial dos tsares, o corao das Rssias, agora reconvertida em farol da revoluo mundial. 
Foi possvel, nesse universo de referncias, reativar iguallmente o amor ancestral  terra russa, mesclando o tradicional patriotismo ao nacionalismo moderno. No 
havia inveno immportante que no contasse com a participao de um sbio russso, nem proeza de alcance mundial que no registrasse a preesena de um russo. As 
naes no-russas e o conjunto do mo- 
vimento revolucionrio mundial curvavam-se diante daqueles irmos mais velhos, dispostos a qualquer sacrifcio para salvar a humanidade. Como se o antigo messianismo 
moscovita baseado na crena da terceira Roma houvesse se transmudado para dar origem a uma nova Moscou, capital da emancipao da huumanidade. 
O processo de modernizao, no entanto, no poderia realizar-se sem custos e sem sacrifcios. Argumentava-se que haveria uma terrvel reao dos inimigos internos 
e externos da revoluo. Eles se mobilizariam com toda a fria para que a alternativa de futuro encarnada pela revoluo sovitica no se consolidasse. Era preciso, 
portanto, preparar-se para um proocesso de exacerbao das contradies sociais, em que todas as armas seriam empregadas de modo implacvel por ambos os lados, inclusive, 
talvez principalmente, segundo as circunstnncias, a arma do terror. 
o TERROR: REPRESSO E MOBILIZAO 
A revoluo, nos seus incios e durante a guerra civil, conhecera j a prtica do terror revolucionrio, vermelho, exercida pela Comisso Extraordinria para o Combate 
 Conntra-Revoluo e  Sabotagem, a temvel Tcheka, e a do terror contra-revolucionrio, branco. Julgamentos e fuzilamentos suumrios, atos abominveis de crueldade, 
tortura. A matana da famlia imperial, em 1918, simbolizara o carter implacvel daaqueles tempos. 
Com a NEP, houve a expectativa de que tais recursos e mtodos estivessem definitivamente superados. Em 1922, a criaao da Administrao Poltica Unificada do Estado, 
OGPU, em substituio  Tcheka, parecia indicar outros rumos, inclusive porque acompanhada da publicao de novos cdigos jurdicos, como se o pas se encaminhasse 
para a construo de um Estado de direito. 
Na verdade, a exceo perdurava, ou seja, a ditadura reevolucionria, a comear pelo fato de que o Partido nico situaava-se acima da lei, regido por regras prprias. 
Alm disso, os 
dirigentes do Estado, formalmente eleitos pelos sovietes, a rigor, eram responsveis apenas perante o Partido. 
Logo depois da guerra civil, esboando uma tendncia, houve a deciso de limpar (tchistit') o Partido de elementos corrrompidos, acusados de nele haver ingressado 
para apenas usuufruir as benesses do poder. Foi um processo traumtico no s porque alcanou dezenas de milhares de filiados, mas tambm, e sobretudo, porque todos 
foram convocados para acusar e delatar os desviados, instaurando-se uma atmosfera de medo e suspiccia. 
Ainda nos fins dos anos 20, dois grandes processos abalaariam a sociedade: o das minas de Chakhty (1928) e o do chamaado Partido Industrial (1930). No primeiro, 
seis engenheiros fooram fuzilados, acusados de sabotagem. No segundo, toda uma rede de tcnicos apareceu tlagrada numa conspirao com ramiificaes internacionais. 
Houve confisses pblicas de crimes atrozes e novos fuzilamentos. A sociedade foi mobilizada para acompanhar os casos e fazer coro na denncia dos culpados de cumplicidade 
com os inimigos internos e externos. Era preeciso aperfeioar a vigilncia. 
Mais tarde, em meados dos anos 30, novos processos voltariam a chamar a ateno da sociedade e da opinio pblica mundial, os chamados grandes processos de Moscou, 
que liquidaaram uma parte importante dos altos dirigentes do partido bokhevique durante a revoluo de 1917. O primeiro, em agosto de 1936, teve dezesseis acusados, 
todos fuzilados, entre os quais G. Zinoviev e L. Kamenev. Em janeiro de 1937, mais dezessete acusados e treze condenaes  morte, entre os quais I. Piatakov, G. 
Sokolnikov, L. Serebriakov e K. Radek. Finalmente, em maro de 1938, vinte e um acusados e dezoito condenaes  pena mxima, entre eles, N. Bukharin, A. Rykov, 
N. Krestinsky, C. Racovski, G. Iagoda. 
Processos pblicos, autnticos circos romanos, baseados quase que exclusivamente em confisses. Homens que at ento gozavam da maior confiana do Partido e do Estado 
eram agora acusados de sabotagem, espionagem, tentativas de assassinato, golpes de Estado, apontados  execrao pblica. 
Ao longo dos anos 30, os expurgos continuaram, implaacveis. Dos 1.966 delegados ao XVII Congresso, em 1934, 1.108 foram atingidos at 1938. Dos 139 dirigentes eleitos 
para o coomit central, em 1934, nada menos que 98 desapareceram. 
A limpeza nas cpulas enfraqueceu decisivamente o Parrtido como rgo de poder. Basta dizer que seus congressos, ao longo de treze anos, entre 1939 e 1952, no se 
reuniram uma nica vez. Entretanto, a perseguio das elites foi apenas a ponta de um imenso iceberg. Com efeito, e desde fins dos anos 20, quando a NEP foi abandonada 
na prtica, o terror vermelho abateu-se sobre toda a sociedade: os camponeses, maciamente expropriados e deportados, foram convertidos em cidados de segunda classe; 
os trabalhadores urbanos eram controlados por cdigos draconianos que previam penas de priso para simples transgresses do contrato de trabalho; nas empresas, o 
princpio da direo nica (adinonatchalie) investia os chefes de pooderes discricionrios; as elites revolucionrias das naes noorussas, particularmente na 
Ucrnia, sofreram pesadas perdas, acusadas de desvios nacionalistas. 
Foi um tempo difcil para as artes e a cultura em geral. A relativa abertura que prevalecera durante a NEP, gerando um certo pluralismo de escolas e tendncias, 
foi substituda por associaes nacionais de intelectuais e artistas rigidamente cenntralizadas e regidas por uma nova doutrina: o realismo socialista. Era preciso 
criar heris positivos. Os que se opunham, quando no cometiam suicdio (casos clebres de Essenin e Maiakovski), seriam considerados dissidentes: presos, deportados, 
exilados, fuzilados. 
As prprias Foras Armadas tambm tiveram seus altos escales dizimados. Em dois anos, 1937-1938, a limpeza alcannou trs dos cinco marechais, treze entre quinze 
comandantes de exrcitos, 75 dos oitenta membros do Conselho Militar Suupremo, 57 dos 85 chefes de corpos de exrcitos, 110 dos 195 comandantes de diviso, 35 mil 
dos oitenta mil oficiais. 
O terror vermelho, indubitavelmente, eliminou, controlou e inibiu as oposies, efetivas e supostas. Mas talvez essa face 
negativa no seja a mais importante, porque, positivamente, o terror tambm ativou e coesionou. Num contexto de ameaas crescentes,  verdade que muitas vezes instrumentalizadas 
pelo poder, numa escala frentica e global, em toda parte, uma socieedade mobilizada, vigilante, procurava, encontrava e denunciava os inimigos do povo. Abriam-se, 
assim, amplos horizontes de asscenso social. A cada queda promovida por uma limpeza, um lugar vago a ser preenchido. Uma nova gerao ascenderia ao poder nesse 
processo: os N. Kruchov, A. Kossiguin, L. Brejnev, A. Gromiko, L. Kaganovitch, A. Mikoyan, A. Andreev, A. Zhdanov com seus crculos de discpulos fiis. Chefes organiizadores, 
determinados, disciplinados, enrgicos, provenientes das camadas profundas do povo, eram responsveis somente perante quem os nomeara: o Guia Supremo, o Grande Chefe, 
o Maquinista da Locomotiva da Histria - Stalin. nico a salvo do longo brao do terror, em torno dele formou-se um formidvel culto  personalidade, um outro fator 
maior de coeso social naqueles tempos de extraordinria turbulncia. 
E assim se fez um imenso pas, afmal, uma outra moderrnidade, alternativa, o socialismo realmente existente. 
4. A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL 
E O APOGEU DO SOCIALISMO SOVITICO 
A Segunda Guerra Mundial sempre foi chamada na Unio Sovitica, enquanto o pas durou, e sobretudo pelos russos, de a Grande Guerra Ptria. A expresso resume melhor 
do que qualquer outra coisa o carter de luta pela sobrevivncia que a guerra implicou para todos os povos que viviam na Unio Soovitica, particularmente para os 
eslavos e, entre estes, uma vez mais, para os russos. 
A guerra, entretanto, tambm foi um teste para a moodernidade socialista sovitica edificada nos anos anteriores. O sistema passou pelo teste e dele saiu fortalecido, 
aureolado. 
A GRANDE GUERRA PTRIA 
A operao Barba Ruiva, nome de cdigo com que os naazistas chamaram a invaso da Unio Sovitica, teve incio em 22 de junho de 1941. Comeava ento o enfrentamento 
mais decisivo da Segunda Guerra Mundial que s terminou com a conquista de Berlim e o fim da guerra em maio de 1945, quase quatro anos depois. 
A guerra entre a Alemanha nazista e a Unio Sovitica pode ser compreendida em trs grandes fases. 
A primeira vai do incio da ofensiva, em junho de 1941, a dezembro do mesmo ano, quando, afinal, os russos conseeguiram deter os exrcitos alemes a poucos quilmetros 
de Moscou, to poucos que as vanguardas alems j divisavam as torres do Kremlin. Foi o perodo em que os nazistas mantiveram a iniciativa e registraram grandes 
vitrias. Pareciam destinados a esmagar definitivamente a URSS, numa vasta blietzkriek, baaseada na destruio no solo da aviao de guerra inimiga, no conseqente 
controle do espao areo e no avano rpido e en- 
volvente das tropas mecanizadas. Uma aplicao, em escala ammpliada, da estratgia e das tticas militares j empregadas com sucesso em outras ofensivas na Europa 
central (Polnia/1939), do norte (Dinamarca e Noruega/1940) e ocidental (Frana, Blgica e Holanda/1940). 
Tendo cercado Leningrado, os alemes, entretanto, no lograram tom-Ia, e tambm no conseguiram, no centro do pas, conforme previam os planos, submeter Moscou. 
O rigoorosssimo inverno de 1941-1942 imps uma pausa nas grandes operaes militares. Os alemes aproveitaram-na para organizar as linhas, perigosamente estendidas, 
e imaginar novos planos ofensivos. Os russos dedicaram-se a controlar as conseqncias dos desastres provocados pelas grandes derrotas do vero e ouutono de 1941, 
reorganizar foras e preparar reservas. 
A segunda fase comeou na primavera de 1942 e se dessdobrou at fevereiro do ano seguinte. Os alemes, conservando a iniciativa, escolheriam agora outro eixo para 
a sua ofensiva principal. Tratava-se de alcanar o Rio Volga e as regies adjaacentes ricas em cereais e o Cucaso, onde se encontrava Baku, o maior centro petrolfero 
sovitico de ento, cortando a veia jugular do esforo de guerra sovitico. No caminho, fazer saltar o ferrolho que protegia toda a rea, a cidade de Stalingrado, 
com o imenso simbolismo representado pelo fato de a cidade ostentar o nome do grande chefe comunista sovitico. 
Em torno de Stalingrado travou-se a maior batalha da Segunda Guerra Mundial, reunindo quase dois milhes de solldados de ambos os lados. Depois de meses de encarniados 
combates, os russos a venceram em fevereiro de 1943. Uma reviiravolta decisiva, um impacto mundial. A vitria seria confirrmada por uma outra grande batalha, de 
homens e de tanques, travada em julho de 1943 nos arredores de Kursk, tambm vencida pelos russos. 
A partir da primavera de 1943, comearia a terceira e ltima fase da guerra. A iniciativa agora seria dos russos, e eles no mais a perderiam. Mantendo a presso 
ao longo do inverno de 1943-1944, no incio deste ltimo ano os exrcitos soviticos 
da frente Sul j atingiam as fronteiras de 1939. Desde a, espaalharam-se pela Europa central com incrvel rapidez, como um rolo compressor e, em agosto de 1944, 
j pisavam territrios aleemes da Prssia oriental. At a tomada de Berlim e a rendio incondicional do Reich nazista, em maio de 1945, ainda houve muita luta, 
muitas perdas humanas e materiais, mas a guerra estava decidida. O nazismo fora destru do. 
A Unio Sovitica, sem dvida, suportou o maior fardo da guerra. As estimativas de perdas humanas alcanaram cerca de vinte milhes de pessoas (sete milhes de soldados 
e treze milhes de civis). O contraste com as potncias ocidentais  reevelador. Juntos, Estados Unidos, Frana e Inglaterra somaram 1,3 milho de mortos. Se o sofrimento 
humano de cada morte  insuscetvel de comparaes, a medida do impacto social e econmico das perdas nas respectivas sociedades  mensurvel, conferindo  Unio 
Sovitica um lugar nico na grande luta que a humanidade travou para abater o nazismo. 
A avaliao das perdas materiais, computadas por levanntamento desenvolvido to logo os invasores nazistas foram exxpulsos dos territrios soviticos, evidencia 
igualmente o carter catastrfico da guerra: 1.710 cidades e cerca de setenta mil aldeias completamente destrudas, equivalentes a quase metade do esspao urbano 
existente: 1,2 milho de habitaes urbanas e 3,5 milhes de habitaes rurais gravemente avariadas ou riscadas do mapa. Perdas totais ou graves avarias em 65 mil 
quilmetros de trilhos, 15.800 locomotivas, 428 mil vages, 4.280 barcos diversos. Em certas reas todo o parque fabril fora arrasado. Na Ucrnia, territrio de 
desenvolvimento industrial relativamente sofisticado para os padres soviticos, apenas 1,2% do seu pootencial anterior  guerra estava em condies de operao. 
Em todos os setores estratgicos - carvo, eletricidade, petrleo, ao, ferro, cimento, tratores, acar, tecidos -, considerado o conjunto do pas, incluindo-se, 
portanto, as regies no ocupadas e destrudas pelos nazistas; havia quedas que variavam de 10% a 70%. 
O quadro era sombrio tambm na agricultura. A rea seemeada reduzira-se em 25 milhes de hectares, cerca de 23%, 
entre 1940 e 1945. A produtividade por hectare plantado cara cerca de 35%. Em conseqncia, as colheitas registraram queda de um pouco mais de 50%. Quadro semelhante 
era apontado em relao aos rebanhos de gado. 
As estatsticas no mediam, evidentemente, os traumas psicolgicos, as neuroses adquiridas, as mutilaes fsicas e espiirituais, as patalogias acumuladas ... como 
estim-Ias? Chagas que permaneceriam como ferro em brasa, marcando aquela sociedaade por geraes. 
To logo a guerra acabou, e antes mesmo que se encerrassse, comearam, como sempre, outras batalhas, historiogrficas. 
A GUERRA E A LUTA PELO CONTROLE DA MEMORIA 
Enquanto durou a guerra, e mesmo depois de assinada a rendio dos nazistas, havia em toda a parte uma imensa admiirao pelos feitos russos e soviticos. Stalingrado 
tornou -se uma palavra mtica, smbolo de resistncia e bravura, momento deecisivo de reviravolta naquela grande guerra que opusera a deemocracia e a liberdade ao 
nazismo. O fato de que uma terrvel ditadura poltica existisse na URSS apenas era mencionado, asssim como os propsitos socialistas da revoluo sovitica, ainnda 
vivos, apesar da dissoluo da Internacional Comunista, em 1943. Stalin era considerado um grande lder poltico, admiraado e reverenciado por polticos e intelectuais 
dos mais variados quadrantes. Mantinham-se de p as expectativas formuladas em Ialta, em fevereiro de 1945, de que a Grande Aliana poderia e deveria perdurar para 
alm da derrota do nazismo. A unidade forjada na guerra se manteria agora na paz, em torno da consstruo de um mundo pacificado e harmonioso, mais justo, igual 
e livre. 
A irrupo da guerra fria mudou esse quadro idlico, inncidindo na recuperao e na interpretao da histria, nas baatalhas da memria. 
Entre os soviticos, at meados dos anos 50, prevaleceu a celebrao acrtica. A guerra era uma oportunidade sem igual para celebrar os heris positivos construdos 
no quadro do socia- 
lismo sovitico. Stalin, objeto de um desmesurado culto  persoonalidade, consolidava-se como o grande chefe do comunismo internacional e tambm como lder militar 
incontestvel, ressponsvel pela determinao das grandes linhas estratgicas e pelo acompanhamento detalhado das operaes militares, deiixando num plano secundrio, 
quase na obscuridade, a legio de comandantes militares que haviam se destacado nos quatros anos de lutas (Zhukov, Timochenko etc.). 
A partir da desestalinizao e da demolio do mito, a avaliao do papel do guia genial dos povos sofreu uma guinada: os soviticos no tinham vencido a guerra 
por causa de Stalin, mas apesar de sua liderana. Saram ento da sombra os chefes militares soviticos que, numa srie de momentos, com clariviidncia e coragem, 
haviam evitado ou reparado os freqentes erros cometidos por um Stalin apresentado agora como ignoorante e prepotente. 
Num segundo momento, quando se abriram pela priimeira vez os dossis de Moscou, ainda que por pouco tempo, foi possvel descobrir o quanto o Exrcito Vermelho fora 
enfraaquecido pelas operaes de limpeza j referidas, que dizimaaram efetivamente os altos escales da mquina de guerra sovitica. 
De modo geral, a Grande Guerra Ptria, entretanto, conntinuou sendo apresentada como um momento de consolidao do socialismo e de afirmao dos povos soviticos 
e do povo russo em particular. Um triunfo dos soldados e dos cidados comuns, dirigidos por seu partido comunista. 
Mais recentemente, nos anos 90, na fase final da peresstroika, e nos anos subseqentes, com a abertura de novos arquiivos, na atmosfera de desmoralizao, desagregao 
poltica e desestruturao cultural que passou a caracterizar os povos que viveram a experincia da URSS, os episdios da Grande Guerra Ptria passaram por um novo 
escrutnio, levando muitos a desconsiderar feitos e glrias antes exaltados. Como se os nazistas houvessem perdido a guerra muito mais pelos erros que cometeeram 
do que pelos mritos dos povos e das armas soviticas. 
Do outro lado do mundo, a maior parte da historiografia anglo-norte-americana, desde muito cedo, passou a rever a immportncia da contribuio sovitica para o desenlace 
da guerra. Enfatizava-se o carter decisivo da abertura da segunda frente, em junho de 1944, nas praias da Normandia, no norte da Frana, precedida pelo desembarque 
no norte da frica (1942) e na Itlia (1943). Tais golpes  que teriam determinado o ennfraquecimento do nazismo, desde ento obrigado a combater em duas frentes, 
no apenas a leste, mas tambm no Ocidente. Alm disso, argumentava-se que o esforo militar sovitico fora apoiado, em larga medida, por contribuies dos Estados 
Uniidos no contexto dos acordos de lend-Iease, que previam, a partir de 1941, o fornecimento de material blico, de matriasmas estratgicas e de equipamentos de 
todo o tipo ao esforo de guerra antinazista. Assim, o rolo compressor simplesmente no teria existido sem os produtos made in USA. Essa orientaao, mais ou menos 
reforada segundo as circunstncias e os avatares da guerra fria, perdurou no tempo, constituindo uma tendncia que relativizaria ou mesmo minimizaria o papel auutnomo 
da URSS na destruio do nazismo, embora fosse ineegvel o fardo suportado pelos soviticos ao longo da Segunda Guerra Mundial. 
No caleidoscpio apresentado por essa sucesso de reviises crticas,  possvel formular avaliaes que alcancem um certo consenso e que permitam compreender as 
razes da vitria sovitica? 
A VIT6RIA SOVITICA: RAZ6ES DE UM TRIUNFO HIST6RICO 
Em relao ao incio fulminante da invaso nazista, de resultados catastrficos para a Unio Sovitica, que por pouco no resultou na queda de Leningrado e Moscou, 
h seguras evidncias de que o governo sovitico e Stalin, em particular, subestimaram de modo trgico a hiptese da ofensiva alem. 
Embora dispusesse de informaes detalhadas sobre a iminncia do ataque, proporcionadas por redes prprias de esspionagem, complementadas pelos norte-americanos 
e ingleses, 
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a direo sovitica preferiu apostar na solidez de um tratado de no-agresso assinado com a Alemanha nazista, em agosto de 1939, depois de um longo e complexo jogo 
diplomtico. Confiou sem reservas nos pactos secretos, anexados ao acordo principal, que previam uma verdadeira diviso da Europa cenntral em reas de influncia, 
entre a Alemanha e a URSS. Assim, no se estimou possvel que Hitler pudesse efetuar uma reviraavolta em seus planos de expanso no Ocidente e voltasse sua mquina 
de guerra contra os prprios soviticos. 
A avaliao equivocada quase levou a uma derrota deciisiva, da qual se escapou por razes que parecem tambm relatiivamente estabelecidas. 
Os nazistas, em sua arrogncia doutrinria, definiram uma poltica genocida de guerra. Nunca investiram de modo consistente em estimular ou aproveitar a seu favor 
as contradiies sociais e, principalmente, nacionais que existiam na URSS, acirradas no contexto da implementao dos Planos Qinqeenais. Nas regies mais ocidentais 
da Unio Sovitica, muito traumatizadas pela coletivizao forada e por processos de reepresso poltica, cedo desapareceu uma certa simpatia ao invaasor, substituda, 
como em toda parte, pelo pavor e pelo dio. 
Entre os russos, desde o incio, fez-se muito clara a consscincia de que era preciso resistir para sobreviver. Nesse particuular, o governo sovitico soube construir 
uma sintonia fina com a sociedade. A Grande Guerra Ptria no seria um slogan vazio. Sintetizava toda uma nfase nos valores patriticos, no estmulo a dios ancestrais, 
na mobilizao de referncias ligadas ao gloorioso passado russo e ao culto de antepassados hericos. 
Reencontrou-se a religio ortodoxa  qual foram permiitidas novas margens de liberdade. Adotaram-se emblemas, conndecoraes e hierarquias tradicionais. A Internacional 
Comuunista foi substituda por um outro hino, de ressonncias russas. O Partido Comunista e suas organizaes associadas de jovens e mulheres tranformaram-se em 
grandes frentes amplas populaares e patriticas. No final da guerra, mais de vinte milhes de pessoas faziam parte de suas fileiras. 
Tambm houve concesses importantes aos camponeses, aos quais foi atribuda liberdade para cultivar pequenos lotes privados e vender a produo da resultante em 
mercados paraleelos que o governo tolerava. Havia no ar uma promessa messinica: o desmantelamento da propriedade coletiva se e quando o alemo fosse derrotado. 
Finalmente, mas no menos importante, jogou um papellchave a experincia adquirida com os Planos Qinqenais. O planejamento centralizado, a capacidade de organizao, 
o ennquadramento semimilitarizado da sociedade, a noo de sannes, um aparelho apto a aplic-Ias, em suma, uma economia mobilizada. Em grande medida, foi tudo 
isso que permitiu exeecutar os grandiosos planos de evacuao que transferiram mais de 1.500 indstrias e cerca de dez milhes de pessoas para regies que estivessem 
a salvo da ameaa iminente de ocupao nazista e que puderam se integrar, assim, ao esforo de guerra do pas. E organizar a populao, apesar das durssimas condiies 
de vida e de trabalho, para a vitria. 
Em relao  apreciao do papel de Stalin,  necessrio evitar as armadilhas da histria retrospectiva. Depois de um coomeo hesitante, em que ficou claramente 
desorientado com a innvaso alem, assumiu o papel que lhe cabia de lder poltico e o desempenhou do modo habitual. Nem um semideus infalvel, nem um demnio de 
erros, mas um ditador brutal, meticuloso, com uma grande capacidade de trabalho e nenhum respeito pela vida. 
Quanto aos auxlios materiais norte-americanos, desemmpenharam, sem dvida, um papel importante, mas foram os rl,lSSsos, afinal de contas, que salvaram a sua ptria, 
a Unio Sovitiica e a si prprios. A maioria dos historiadores, com um mnimo de iseno, o reconhece. 
A Grande Guerra Ptria, porm, tambm salvou o sociaalismo sovitico. Embora no prevista formalmente pela douutrina, a associao entre ptria e socialismo fora 
construda pela histria. Com a guerra, a Unio Sovitica transformara-se numa das duas superpotncias mundiais. E por causa dela, apesar de todos os horrores, ingressaria 
numa fase de apogeu. 
A URSS NO IMEDIATO PS-GUERRA: 
ESPERANAS, REPRESSO E GUERRA FRIA 
Na fase final da guerra, e logo depois dela, consciente da vitria obtida e do papel que nela desempenhara, a sociedade sovitica viveu, apesar dos traumatismos, 
momentos de contenntamento, auto-satisfao e orgulho. Parecia encerrado um ciclo infernal: a Primeira Guerra Mundial, iniciada em 1914, as revoolues, a guerra 
civil, a revoluo pelo alto, a coletivizao forrada e o terror, mais quatro anos de uma outra grande guerra, iniciada com a invaso nazista. No conjunto, um pouco 
mais de trs dcadas de sofrimentos terrveis e sem fim. As esperanas de melhores dias no pareciam, afinal, justificadas e viveis? 
 certo que as destruies provocadas pela guerra, as caarncias de todo o tipo ainda subsistentes e as exigncias da reeconstruo no conferiam muitas margens 
de manobra. Poucos disso poderiam duvidar. A escassez continuaria marcando a vida de todos, os sacrifcios a serem consentidos ainda seriam granndes para que a sociedade 
pudesse voltar a algo parecido com a normalidade. 
Antes mesmo do encerramento da guerra, outros, no entanto, pareciam ser os clculos do poder que j se preparava para enquadrar a sociedade nos rumos e na trilha 
traada pela poltica modernizante dos Planos Qinqenais dos anos 30. 
Desde 1943-1944, ainda em plena guerra, mal desocupaado o territrio sovitico, recomearam a apertar os controles e a desencadear a represso em grande escala. 
As primeiras vtiimas, objeto de decises na poca secretas, foram pequenos poovos acusados de colaboracionismo com o inimigo. No Cucaso, karatchais, kalmyks, tchetchenos, 
inguches, balkars, meskhets. Na pennsula da Crimia, trtaros, gregos, blgaros, armnios. Homens, velhos, mulheres e crianas, deportados para as lonjuras siberianas. 
A responsabilidade solidria no crime, esstendida ao grupo familiar ou  aldeia, um tradicional princpio penal tsarista, j retomado nos anos 3D, agora era ainda 
mais ampliado, alcanando o conjunto da nacionalidade, sem discriiminao de sexo, idade ou condio social. No total, um pouco 
mais de um milho de pessoas, todas deportadas. A rigor, antes mesmo da invaso nazista, procedimentos semelhantes haviam sido adotados entre 1939-1941, nos territrios 
ocidentais reecentemente anexados, contra dezenas de milhares de poloneses, lituanos, letes, estonianos, assim como contra populaes desscendentes dos chamados 
colonos alemes do Volga (cerca de um milho de pessoas), deportados sem julgamento, por simmples deciso administrativa, culpados pela nacionalidade adquiirida 
quando nasceram. 
Logo depois da guerra, a represso atingiria tambm os soldados e civis soviticos aprisionados pelos alemes. Apesar do terrvel tratamento a que foram submetidos 
nos campos de concentrao nazistas, eram considerados suspeitos por terem violado a determinao que prescrevia a luta at a morte, interrditando a rendio em 
qualquer circunstncia. Eram cerca de 4,1 milhes de pessoas, entre os quais 2,6 milhes de civis. Fooram encaminhados para uma organizao recm-criada, a fil'tratsia, 
encarregada de inquirir e filtrar os ex-prisioneiros. Entretanto, mesmo os que passavam pelos interrogatrios (58% do total), ao retomarem para casa e ao trabalho, 
eram vigiados, quando no discriminados por vizinhos e colegas. J os que no passaram pelo filtro, eram encaminhados s Foras Armadas ou aos batalhes de trabalho 
organizados pelo Ministrio da Deefesa para se reeducarem. 
Tambm seriam alcanados, e mais uma vez, os povos do extremo ocidente da URSS, blticos, moldovos, ucranianos ocidentais, suspeitos de colaboracionismo. A prevaleceu 
uma certa seleo porque no era possvel efetuar deportaes maacias. Faltariam vages para tanto, como observou com ironia amarga, anos mais tarde, N. Kruchov. 
Foi nessa atmosfera de escalada da poltica repressiva, de adensamento de controles, que incidiram as circunstncias da crescente rivalidade com os EUA, cada vez 
mais visveis, sobreetudo depois da morte Roosevelt, em abril de 1945. 
A convivncia harmoniosa estabelecida na Conferncia de Ialta, em fevereiro de 1945, esvaneceu-se e j no existia mais 
em Potsdam (julho-agosto de 1945), a primeira conferncia depois da guerra contra o nazismo entre os representantes da Grande Aliana. Depois veio uma seqncia
de acontecimentos que parecia dotada de urna lgica irrecorrve1: as bombas atmicas lanadas sobre o Japo e a liquidao da guerra no Extreemo-Oriente sem consulta
aos soviticos; o discurso de W. Churrchill em Fulton (maro, 1946), denunciando uma cortina de ferro que separava a rea controlada pelos exrcitos soviticos do
resto da Europa; uma sucesso de encontros fracassados entre repreesentantes das potncias; a doutrina Trurnan de conteno (conntainment) da expanso sovitica; 
o Plano Marshall de reconstruuo da Europa com excluso da URSS e das reas sob sua ocupaao na Europa central e oriental, que, por sua vez, se transforrmavam 
rapidamente nas chamadas democracias populares, nem um pouco democrticas e tampouco populares. 
O processo foi num crescendo. A crise de Berlim (194881949), a separao formal das duas Alemanhas (1949), a formaao de blocos militares e econmicos, o triunfo 
da Revoluo Chinesa (outubro, 1949) e o incio da Guerra da Coria (1950). Em apenas cinco anos haviam desaparecido os sonhos e as espeeranas de um mundo pacfico, 
harmonioso, livre e justo. Em seu lugar, o cerco fechado da bipolarizao, as sombras pesadas da guerra fria e a ameaa do holocausto nuclear. 
Foi nessas circunstncias que se realizou a reconstruo da Unio Sovitica. 
A RECONSTRUO DA URSS E O APOGEU DO STALINISMO 
O IV Plano Qinqenal (1946-1950) retomou os padres fixados nos anos 30: prioridade mxima para os chamados setoores de base: energia eltrica, minerais estratgicos 
(carvo, ferro c petrleo), infra-estrutura de transportes e comunicaes, ao, metalurgia pesada. Consumiram 87,9% dos investimentos, conntra apenas 12,1% para 
a produo dos bens de consumo, in- 
luindo construo civil e alimentos. A volta da economia de omando, mobilizada. 
Os camponeses, mais uma vez, suportaram o fardo mais pesado. As concesses feitas durante a guerra foram cedo reevogadas desde setembro de 1946. O Estado retomou 
o controle sobre grandes extenses de terras cuja gesto havia sido transsferida para os mujiks, diminuindo no mesmo movimento a toolerncia com os mercados livres 
onde podiam ser comercialiizados os excedentes extrados dos pequenos lotes. O golpe maior veio em dezembro de 1947, quando se aprovou uma reforma monetria que 
esterilizou as poupanas acumuladas pelos cammponeses (1 rublo novo equivalente a 10 antigos). Ao mesmo tempo, as polticas fiscal e de preos continuavam avantajando 
os produtos industriais em detrimento do que se produzia nos campos. Muitas vezes, os preos oferecidos por alimentos bsiicos no pagavam sequer os custos do transporte 
at os pontos de venda. 
Em 1952, decidiu-se aprofundar o processo de coletiviizao, concentrando ainda mais a produo com a criao de gigantescos kolkhozes. O plano previa reduzir o 
universo dos kolkhozes para 75 mil unidades (eram 252 mil). A unidade bsica de produo deixaria de ser o tradicional zveno, que reunia entre seis e dez pessoas, 
para assumir as dimenses da brigada, congregando cerca de cem produtores. Na perspectiva de uma socializao da produo cada vez maior, chegou a ser elaborado 
um projeto de construo de agrocidades (agrogoroda). O vooluntarismo parecia novamente no ter limites: em outubro de 1948, aprovou-se um Plano para a Transformao 
da Natureza prevendo uma imensa rede de canais e uma poltica ambiciosa de reflorestamento. 
Predominavam as orientaes do planejamento centraalizado, pouco importando as contingncias do meio ambiente e as possibilidades reais das pessoas envolvidas. Nessa 
atmosfera de metas inalcanveis e de normas insuscetveis de realizao, medravam, no raro, os relatrios fictcios, a falsificao de estaatsticas e o aparecimento 
de charlates convictos, como o emmblemtico T. Lysenko, um agrobiologista que prometia elevar drasticamente os rendimentos agrcolas por meio de uma bio- 
logia socialista, em oposio  decadente biologia capitalista. Os crticos eram desqualificados, naturalmente, como sabotadores e agentes dos inimigos. At ser 
desmascarado, Lysenko causaria enormes prejuzos e danos  agricultura e  cincia soviticas, sem falar nas carreiras e vidas que seus delrios levaram  perda. 
No gratuitamente, os planos no se realizavam. Em 1940, j as colheitas de cereais no alcanaram 80% das estimativas. Em 1948, foram inferiores a 60%. Em 1949, 
um pouco menos, 56%. Entre 1950 e 1952 houve pequenas melhoras, mas em 1953, novamente, os resultados chegaram a apenas 70% das preevises, inferiores aos alcanados 
em 1940, apenas levemente suuperiores aos registrados em 1914. O mesmo se verificava em relao  produo de algodo, de couro e de acar, todas infeeriores ao 
perodo anterior  guerra. 
Decididamente, a agricultura coletivizada no funcionava. As autoridades deploravam a falta de organizao, a incria, e responsabilizavam a m vontade dos mujiks, 
a sabotagem, o clima. Para elas, a soluo residia em radicalizar a coletivizaao, como recomendado explicitamente por Stalin em sua ltima obra sobre os problemas 
da economia socialista. No se conseeguia explicar, entretanto, por que e como, em seus pequenos lenos de terra, remanescentes, ocupando apenas 4% da superrfcie 
cultivada, os camponeses conseguiam produzir mais de 50% dos legumes e das batatas disponveis para o consumo, alm de garantir o bsico da prpria sobrevivncia. 
Em contrapartida, beneficiados por macios investimenntos, os setores industriais considerados estratgicos batiam todos os recordes, ultrapassando de longe os patamares 
alcanados antes da guerra: a produo de carvo passou de 165,9 para 261,1 milhes de toneladas; a de petrleo, de 31,1 para 37,9 milhes de toneladas; a de ao, 
de 18,3 para 27,3 milhes de toneladas; a de eletricidade, de 48,3 para 91,2 bilhes de quiloowatts. Condicionada pelas prioridades da guerra fria, tambm ;Iumentava 
a produo de armamentos, de difcil menstirao, porque protegida pelo segredo das estatsticas. Mas  sintomti o que, entre 1948 e 1955, os efetivos das Foras 
Armadas te- 
nham evoludo de 2,874 milhes para 5,763 milhes de homens e que as despesas militares tenham registrado um salto de 45%, entre 1950 e 1952, enquanto, no mesmo 
perodo, as despesas totais do Estado cresciam menos de 15%. A afirmao, reiteraada, da preponderncia dos dinossauros comedores de ferro e de ao, em detrimento 
dos interesses dos setores cuja produo beneficiava o consumo das pessoas comuns. 
O V Plano Qinqenal, formalmente aprovado pelo XIX Congresso do Partido Comunista, em outubro de 1952, no previu nenhuma mudana de prioridades e ritmos. O sistema 
continuaria reproduzindo os seus padres. Quanto  populao, seria necessrio recorrer, uma vez mais, aos mtodos de mobii!izao intensiva das conscincias, de 
comprovada eficincia nos anos 30. 
A MOBILIZAO DA SOCIEDADE 
No contexto da guerra fria emergente, a defesa da Unio Sovitica e do socialismo cedo constituiu, e mais uma vez, um dos eixos fundamentais da mobilizao social. 
O isolamento internacional fora rompido, a URSS tornara-se uma superpootncia mundial e o socialismo havia consideravelmente ampliaado seu campo, agora integrando 
as democracias populares na rea da Europa central, e, desde outubro de 1949, a China popular. No entanto, o mito da fortaleza sitiada continuava muito preesente 
no discurso das autoridades e nas mobilizaes sociais. A crise de Ber!im e a Guerra da Coria seriam episdios reais, vividos como ameaas concretas e iminentes, 
polarizando as atenes. 
Por todas essas razes, argumentavam as autoridades, era preciso aperfeioar cada vez mais a vigilncia. Para evitar uma nova surpresa, como em 1941, no se podia 
subestimar o inimiigo, o visvel e o camuflado, ainda mais perigoso. 
Da por que se manteve o terror, com suas duas faces xrepresso e mobilizao - que se haviam mostrado to eficazes antes e durante a guerra. Dois ministrios passariam 
a cuidar do assunto, o do Interior (MVD) e o da Segurana do Estado 
(MGB).  possvel acompanhar suas atividades pelas estatsticas da Administrao Principal dos Campos, o Gulag. 
No primeiro ano de sua criao, em 1934, registrarammse 550 mil presos. At 1938-1939, a mdia anual alcanou 1,8 milho de prisioneiros. Desde ento, ligeiro declnio 
at 1940, com 1,6 milho e at 1946 (1,1 milho). Ora, a partir de 1946, a curva dos detidos volta a adotar um sentido ascendente, cheegando a atingir em 1949-1950 
um novo auge, com 2,4 milhes de presos. Em 1 de janeiro de 1953, pouco antes da morte de Stalin, estavam registrados 2.753.356 colonos do trabalho ou colonos especiais 
(trudposelki ou spetzposelki), sem contar os presos nos campos de trabalho propriamente ditos, os ITL (ispravitelno-trudovoi lager), e os que estavam nas colnias 
de trabalho, os ITK (ispravitelno-trudovoia koloniia), estimados em cerca de 2 a 2,5 milhes de pessoas. 
Nenhuma administrao do Estado, nenhum campo da sociedade podia se sentir seguro ou ao abrigo. O prprio Partido voltaria a ser objeto da polcia poltica. Desde 
figuras de proa, como N. A. Voznessensky, ministro do Plano e um dos princiipais organizadores do esforo de guerra, morto em condies obscuras, ou como A. Kuznetsov, 
secretrio do Comit Central, tambm desaparecido em processo sumrio, at secretrios proovinciais, de distrito e de clula, em crculos concntricos, perrdendo 
postos e, eventualmente, a prpria vida, em meio a cammpanhas de controles e de denncias que mantinham a sociedade em permanente mobilizao. 
Ao mesmo tempo, sensveis aos traumas provocados pelas devastaes da guerra e pelas aspiraes  paz, o Estado sovitico e o Partido Comunista organizavam na URSS 
e em todo o munndo, por meio do movimento comunista internacional, grandes campanhas pela paz e contra as guerras, evidenciando a face positiva de um regime que 
sabia se defender, mas no resumia suas atividades  caa aos inimigos do povo. 
Tudo isso contribua para viabilizar o vasto processo da reconstruo da Unio Sovitica. Nesse sentido, o governo tennsiollaria as energias, mobilizaria o orgulho 
pela vitria conse- 
guida e o entusiasmo de todos, particularmente o dos jovens, na luta pelo cumprimento das metas, por sua superao, nas campanhas de emulao socialista, entre fbricas, 
cidades e regies, em todo o pas, com distribuio de prmios simblicos e materiais. Os desfiles grandiosos comemorativos de datas paatriticas e revolucionrias 
seriam igualmente momentos impor~ tantes em que se congraariam povo e governo, coesionando a sociedade em busca dos objetivos definidos pelos Planos. 
O culto  personalidade de Stalin coroava, com uma inntensidade cada vez maior, o movimento de unificao da socieedade. Em 1949, o septuagsimo aniversrio do pai 
do mundo do trabalho, do corifeu das cincias, ensejou uma indita ciranda de comemoraes e festas. Em 1952, quando se reuniu o XIX Congresso do Partido Comunista, 
o grande chefe mal falou. No precisava. Transformara-se numa espcie de semideus, como se estivesse destinado  eternidade. 
Quando morreu, em maro de 1953, choraram os comuunistas em todo o mundo e particularmente na Unio Sovitica. As multides que se reuniram para dar o ltimo adeus 
ao lder testemunharam com sua tristeza e desespero o quanto havia ainda de confiana e de esperana no sistema socialista e no regime sovitico que ele pessoalmente 
encarnara de forma to emblemtica. 
5. O SOCIALISMO REALMENTE EXISTENTE: 
O DESAFIO DAS REFORMAS 
Aps a morte de Stalin, em 1953, e at a perestroika, iniciaada em 1985, a trajetria da Unio Sovitica pode ser compreenndida em dois perodos distintos: um tempo 
de reformas, encarnaado pela figura inusitada de N. Kruchov, at 1964, quando um golpe de Estado o derrubou; e um tempo de equilbrios instveis, caracterizado pela 
manuteno de taxas relativamente altas de desenvolvimento e por um expansionismo poltico-militar sem precedentes, no entanto, e ao mesmo tempo, por certos elementos 
de crise, que as anlises mais argutas no deixariam de apontar. 
A UNIO SOVITICA EM 
TEMPO DE REFORMAS (1953-1964) 
No poucos formulavam estimativas pessimistas, s vezes catastrficas, a respeito da Unio Sovitica depois da morte de Stalin. O homem, apesar de concentrar um 
poder imenso, ou por causa disso mesmo, no estabelecera regras claras para a prpria sucesso. Os discpulos e herdeiros seriam capazes de defiini-Ias, superando 
com xito as foras centrfugas que sempre tendem a se evidenciar quando grandes tiranos saem de cena? . 
As primeiras medidas, algumas surpreendentes, tenderam a esvaziar um clima de medo e de suspiccia que se adensava desde o incio de 1953. Com efeito, o chamado 
compl das jaa(/uetas brancas, que reuniria mdicos do Comit Central envolviidos em conspiraes para assassinar dirigentes soviticos, e cuja d nncia j desencadeara 
amplos movimentos sociais, revivenndo a sinistra atmosfera dos processos de Moscou, foi desmasscarado como uma farsa. A tortura e outros mtodos ilegais haaviam 
sido empregados para arrancar confisses destitudas de q\lllquer fundamento de verdade. 
Na seqncia, vrios dirigentes importantes foram afasstados, inclusive L. Beria, o todo-poderoso chefe da Seguranna, preso, condenado e executado (dezembro, 1953). 
Havia contradies no processo, pois, contra os condenados, recorrria-se aos mesmos mtodos (confisses, julgamentos e condeenaes sumrias etc.) que estavam sendo 
criticados. Vrias meedidas, no entanto, apontavam para novas direes: supresso dos tribunais sumrios; dissoluo do secretariado pessoal de Stalin, que se tornara 
uma verdadeira central de arbitrariedaades; rebaixamento de nvel da instituio central da segurana, de ministrio (MGB), para comit (KGB), colocando a polcia 
poltica, em todos os nveis, numa posio subordinada em reelao aos comits do Partido Comunista; reabilitao de diriigentes expurgados e desaparecidos nos processos 
realizados em 1948-1950, entre os quais N. Voznessenski e A. Kuznetsov. Para culminar, a decretao de uma anistia para todos os condeenados a menos de cinco anos 
de priso, abrangendo a grande maioria dos presos confinados nas zonas especiais e nas colnias de trabalho (lTK), e a reduo pela metade das penas rraiores, beneficiando 
o conjunto dos zeks detidos nos campos de trabalho (lTL). 
Todas essas decises vinham envolvidas num novo disscurso que celebrava as virtudes da direo coletiva e da legalidade socialista. Uma reviravolta evidente em relao 
aos tempos de Stalin, marcados pela autoridade pessoal do lder mximo e pelo estado de exceo. 
A distenso, no entanto, no se limitava  esfera poltica. 
Anunciavam-se medidas de impacto social e econmico: reduuo de preos para produtos de consumo corrente, aumentos salariais, suspenso de emprstimos compulsrios, 
perdo de dvidas, melhorias no abastecimento de gneros bsicos, nos transportes pblicos, nos servios de ampla demanda social e na construo de habitaes populares. 
Do ponto de vista da agricultura, bem conhecido gargalo da economia sovitica, Kruchov, nomeado primeiro-secretrio (o ttulo de secretrio-geral, associado a Stalin, 
cara em desu-
sol, reconhecia em pblico as contradies do sistema produuzido pela coletivizao forada: custos altos, preos baixos peelos produtos, falta de estmulos, organismos 
de controle buroocratizados. Era preciso estimular o campons a plantar, ampliar as superfcies cultivadas, dotando a economia agrria de crditos e de moderna tecnologia. 
Nem por isso a Unio Sovitica iria descurar dos setores considerados estratgicos, tradicionalmente prioritrios na conncepo e na implementao dos Planos Qinqenais. 
Era preeciso encontrar novos equilbiros, sbias dosagens, relanando a economia em bases mais harmoniosas em que todos os inteeresses pudessem ser contemplados. 
A modernidade alternativa empreendida at ento pela Unio Sovitica tomaria agora ouutras direes? 
No plano internacional, novas abordagens desenhavammse igualmente. Gradualmente tomou corpo uma nova poltica, a da coexistncia pacfica, uma tentativa de retomar 
orientaes dos anos 20, legitimadas em formulaes de Lenin. 
Na sia, eram sintomticos o apoio  suspenso de duas guerras (o armistcio de Panmujon na Coria, em 1953, e a Connferncia de Genebra sobre a guerra do Vietn, 
em 1954) e o incio de conversaes de paz nas quais a URSS desempenhava um papel ativo. Em 1955, a primeira visita a Moscou de um lder alemo-ocidental, Konrad 
Adeunaer, e o Tratado de Neuutralizao da ustria indicavam novas atitudes em relao aos pases capitalistas. Quanto ao mundo socialista, os novos diriigentes 
soviticos pareciam dispostos a afrouxar controles e a reconher a existncia de diferenas. A reconciliao espetacular com a Iugoslvia de Tito e a maior abertura 
nas discusses com os comunistas europeus e chineses mostravam que algo mudava nas concepes sobre o monolitismo do mundo socialista. Enfim, a Unio Sovitica parecia 
conferir importncia e prestgio ao chamado Terceiro Mundo, que dava seus primeiros passos a partir da conferncia de Bandung, em 1955. Acordos com a Arrgentina 
e a visita de N. Kruchov em pessoa  ndia atestavam a formulao de novas prioridades. 
o novo curso espantava e supreendia, sobretudo a figura do novo primeiro-secretrio, contrastando fortemente com o padro tpico dos dirigentes comunistas, sisudos 
e compeneetrados nos escuros sobretudos. Kruchov, sempre sorridente e otimista, com seu linguajar popular e metafrico, em constantes viagens, sabia dialogar com 
as multides e parecia gostar de toomar banhos de massa, como se fosse um experimentado poltico de uma democracia ocidental. 
O mundo das artes e da cultura na Unio Sovitica regisstrava e reverberava essas mutaes, como se houvesse um deegelo, ttulo da novela de I. Ehrenburg, um premiado 
autor sovitico, que emprestaria o nome a esse tempo de distenso e de expectativas positivas. 
E ento aconteceu o informe sobre os crimes de Stalin. 
A DESESTALINIZA: ALCANCE E LIMITES 
O informe apresentado por Kruchov numa sesso extraorrdinria, secreta, do XX Congresso do Partido Comunista da Unio Sovitica, em fevereiro de 1956, teve um impacto 
de um terremoto. O semideus virava demnio. Todos os xitos, tudo o que fizera, conseguira e alcanara a Unio Sovitica, acontecera apesar de Stalin e no graas 
 sua liderana.  difcil exagerar a importncia do acontecimento, assim como pode ser difcil para muitos,  luz dos dias atuais, estimar com exatido a fora 
do mito e do cullto  personalidade do tirano que, agora, desmoronava. 
O fato  que, visto em perspectiva histrica, o discurso de Kruchov, para alm do bvio sucesso pessoal, exprimia uma viragem importante no processo de modernizao 
sovitica: a reconquista da preponderncia poltica do Partido Comunista, traduzida na valorizao do princpio da direo coletiva. Por sua vez, as crticas veementes 
s arbitrariedades cometidas pelo tirano e a correspondente valorizao da legalidade socialista exxprimiam a recusa da sociedade ao recurso do terror como mtodo 
de controle e mobilizao social, como se a Unio Sovitica j estivesse se tornando complexa demais para ser dirigida de acordo com os padres vigentes nos anos 
30. 
o novo curso espantava e supreendia, sobretudo a figura do novo primeiro-secretrio, contrastando fortemente com o padro tpico dos dirigentes comunistas, sisudos 
e compeneetrados nos escuros sobretudos. Kruchov, sempre sorridente e otimista, com seu linguajar popular e metafrico, em constantes viagens, sabia dialogar com 
as multides e parecia gostar de toomar banhos de massa, como se fosse um experimentado poltico de uma democracia ocidental. 
O mundo das artes e da cultura na Unio Sovitica regisstrava e reverberava essas mutaes, como se houvesse um deegelo, ttulo da novela de 1. Ehrenburg, um premiado 
autor sovitico, que emprestaria o nome a esse tempo de distenso e de expectativas positivas. 
E ento aconteceu o informe sobre os crimes de Stalin. 
A DESESTALINIZA: ALCANCE E LIMITES 
O informe apresentado por Kruchov numa sesso extraorrdinria, secreta, do XX Congresso do Partido Comunsta da Uno Sovitica, em fevereiro de 1956, teve um impacto 
de um terremoto. O sernideus virava demnio. Todos os xitos, tudo o que fizera, conseguira e alcanara a Uno Sovitica, acontecera apesar de Stalin e no graas 
 sua liderana.  difcil exagerar a importncia do acontecimento, assim como pode ser difcil para muitos,  luz dos dias atuais, estimar com exatido a fora 
do mito e do cullto  personalidade do tirano que, agora, desmoronava. 
O fato  que, visto em perspectiva histrica, o discurso de Kruchov, para alm do bvio sucesso pessoal, exprimia uma viragem importante no processo de modernizao 
sovitica: a reconquista da preponderncia poltica do Partido Comunista, traduzida na valorizao do princpio da direo coletiva. Por sua vez, as crticas veementes 
s arbitrariedades cometidas pelo tirano e a correspondente valorizao da legalidade socialista exxprimiam a recusa da sociedade ao recurso do terror como mtodo 
de controle e mobilizao social, como se a Unio Sovitica j estivesse se tornando complexa demais para ser dirigida de acordo com os padres vigentes nos anos 
30. 
o informe evidenciava e denunciava exaes e crimes cometidos, demolindo uma figura mtica. Eis seus pontos forrtes, que o tornaram um documento histrico. Mas era 
muito seletivo nas denncias das arbritrariedades perpetradas e, soobretudo, ajudava muito pouco a compreend-Ias. 
Na anlise dos expurgos realizados no interior do Partiido, certos limites eram cuidadosamente respeitados. Assim, a catilinria de Kruchov silenciava sobre todos 
os expurgos anteeriores a 1934 e nada dizia dos grandes processos de Moscou, realizados entre 1936 e 1938. A rigor, as denncias restringiammse s exaes cometidas 
contra os discpulos e herdeiros diretos do prprio Stalin. Numa outra dimenso, no havia nenhuuma aluso ao terror de massa que se abatera sobre a sociedade a 
partir da revoluo pelo alto, atingindo no apenas dezenas de milhares de comunistas, mas tambm, e principalmente, miilhes e milhes de mujiks, trabalhadores 
urbanos e intelectuais. 
Kruchov tambm no oferecia argumentos que permiitissem explicar e compreender a ascenso de Stalin ao poder supremo, como este adquirira um carter autocrtico, 
a perrmanncia do tirano por to longos anos e, mais do que tudo, o carter de massa que o terror assumira. 
Apesar das insuficincias e das lacunas do informe, abriiram-se novas margens de liberdade que ensejavam situaes ammbguas: euforia entre os anistiados, atordoamento 
entre os que sinceramente admiravam e amavam o tirano, inquietao e medo entre os responsveis ou beneficirios diretos dos atos arbitrrios. Muitos aprovaram Kruchov, 
mas pensavam que fora longe deemais. Foi por isso decidido que o informe no seria impresso na Unio Sovitica, cujos cidados s puderam l-Io na ntegra trinta 
anos mais tarde, embora, seis meses depois, o segredo j estivesse publicado nas pginas de toda a imprensa mundial. 
O degelo, no entanto, foi mais forte do que a censura. 
Havia perguntas que no queriam e no poderiam ser caladas. Alguns intelectuais tomariam a vanguarda, tentando exprimir o mal-estar difuso de aspiraes insatisfeitas 
e elaborar um pennsamento crtico que fosse alm do discurso oficial do Partido. 
Entre muitos outros, o livro de V. Dudintsev (Nem s de po), publicado em 1956, formulava a questo de que talvez no fosse o tirano o nico responsvel pelos problemas 
da sociedaade sovitica, talvez houvesse ali um problema maior, estrutural. O personagem-chave, Drozdov, encarnaria um mundo de drozdovs, burocratas insensveis, 
vinculados a um sistema antiidemocrtico e impopular, em contraste com a sociedade vitiimizada e oprimida. 
Uma outra obra causaria igualmente um grande impacto: 
Dr. Jivago, de Boris Pasternak, ia ainda mais longe ao sugerir que o sistema criticado era produto da revoluo e no de um desvio autoritrio. O livro foi censurado, 
mas, contrabandeado, alcanou sucesso estrondoso na Europa e nos Estados Unidos, conferindo ao autor nada menos do que o Prmio Nobel. Pasternak foi expulso da Unio 
dos Escritores, perdeu as regalias que tinha e foi para o ostracismo. O episdio tornou-se simblico por uma dupla razo: evidenciou fronteiras que os intelecctuais 
no podiam ultrapassar (no podiam questionar a revooluo, nem publicar sem a autorizao do Partido) e punies que no seriam retomadas: Pasternak morreria deprimido, 
anos mais tarde, mas no fuzilado ... 
As agitaes na Europa central das democracias populaares constituiriam contestaes de outra natureza e viriam tammbm abalar os novos rumos que Kruchov desejava 
imprimir. J em 1953, logo aps a morte de Stalin, houvera uma insurreio popular na parte oriental de Berlim, exigindo uma dura repressso que desgastara o prestgio 
sovitico na regio e no mundo. Em 1956, o descontentamento transbordou novamente em dois pases da Europa central. Na Polnia, foi possvel,  custa de muitas presses 
e concesses, contornar os protestos, mas os mtodos persuasrios no funcionaram na Hungria.1ntelectuais, liideranas polticas e setores populares exigiam democracia, 
reforrmas sociais e independncia nacional. O processo desembocou na exploso de uma insurreio popular de grandes propores, esmagada, afinal, a ferro e fogo 
pelos tanques soviticos. 
o estrago s no foi maior para a Unio Sovitica porrque, na mesma conjuntura, uma fora expedicionria angloofrancesa, em aliana com Israel, invadiu o Canal de 
Suez no Egito, tentando deter o nacionalismo radical de Gamal Abdel Nasser, um lder militar rabe que ento se projetava. A Unio Sovitica, que procurava sintonia 
com as aspiraes do Terceiro Mundo emergente, deu apoio incondicional ao Egito agredido. Em conjunto com os EUA, obrigaram os anglo-franceses a se retirarem. No 
fogo cruzado da propaganda e da contrapropaaganda, fora possvel, de certa forma, compensar o desgaste da ao repressiva na Hungria com a ao libertadora no Egito. 
Os riscos de derrapagem, entretanto, haviam sido perceebidos, gerando inquietao na alta cpula do Partido Comuunista, onde surgiu uma conspirao para apear N. 
Kruchov do poder supremo. A tentativa de golpe realizou-se em julho de 1957. Numa reunio do mais alto centro de poder, o Presidium (novo nome do Bureau poltico), 
a maioria votou pelo afastaamento do primeiro-secretrio. Entretanto, em gil contramaanobra, com o auxlio do ministro da Defesa, Zhukov, reuniu-se o Comit Central 
que, de forma indita, desaprovou a deciso do Presidium, abortando o golpe e demitindo as lideranas da conspirao. Como Pasternak, elas tambm no seriam fuzilaadas, 
apenas recicladas em postos inexpressivos do aparelho de Estado, com direito a dignas aposentadorias ... 
o DEGELO NA SOCIEDADE E NO PARTIDO: 
AVANOS E LIMITES DO REFORMISMO SOVITICO 
Com a perspectiva de vencer as oposies que se expriimiram na tentativa de golpe, o impulso reformista, desde 1958, ganharia um novo impulso. 
Na agricultura, notrio ponto fraco do sistema, houve uma ampliao enorme das superfcies cultivadas, com a exxplorao de terras virgens; um esforo considervel 
em moderrnizar a produo (fertilizantes e inseticidas, eletrificao, desslocamento de tcnicos e agrnomos); reconcentrao dos kollkhozes, passando de 125 mil 
para 69 mil unidades; afrouxamento 
dos controles sobre os pequenos produtores, permitindo-Ihes maiores margens de manobras. Como gostava de dizer Kruuchov, "o socialismo  muito bom, mas ser melhl'lr 
ainda com manteiga': 
Na organizao da economia, houve a aprovao de uma poltica descentralizante, com a criao de 105 Conselhos Regioonais de Economia (sovnarkhozes), responsveis 
pela coordenao de todas as atividades em suas respectivas reas de jurisdio. 
Os xitos da poltica espacial (lanamento do primeiro satlite artificial, o Sputinik, do primeiro homem ao espao, Iuri Gagarin), a partir de 1957, e da poltica 
externa, com a visita de Kruchov aos Estados Unidos (primeira de um dirigente mximo sovitico), em 1959, pareciam indicar a consolidao de uma nova orientao 
para o processo sovitico de modernizao. 
A partir de 1960, comearam, no entanto, a aparecer disssonncias e sinais contraditrios. 
No mundo socialista, comunistas italianos e chineses diivergiam entre si e com os soviticos. O policentrismo socialista saa dos trilhos, ensejando ataques mtuos 
e discrdias. O triunnfo da revoluo cubana e sua definio como revoluo sociaalista desde 1961, de um lado, fortalecera o campo socialista, mas, de outro, aprofundara 
a cacofonia existente em seu interior. 
A coexistncia pacfica com os EUA e os pases capitalisstas avanados tambm no era aceita como positiva por todos: sucediam-se as crises no Oriente Mdio (Lbano) 
e na Mrica (Congo), registrando-se recuos nas pretenses soviticas, acusaada agora por setores radicais de conciliadora, incapaz de enfrenntar com xito as agresses 
imperialistas. 
No plano interno, as reformas no funcionavam. A prooposta de encontrar dosagens timas, suscetveis de beneficiar todos os setores, encontrava dificuldades imprevistas. 
A agriicultura, mais uma vez, apesar de todos os esforos, no responndia aos estmulos, obrigando a Unio Sovitica a comear immportaes macias para abastecer 
o mercado interno em contnua expanso. Os sovnarkhozes, criados para organizar melhor e aumentar a eficcia da economia, no cumpriam a contento 
suas funes. Por dificuldades prprias e, talvez, tambm por sabotagem das instituies centrais, que resistiam s medidas descentralizantes, estavam aprofundando 
a desorganizao e a balbrdia na rea do planejamento e da coordenao das ativiidades econmicas. 
Diante de tais contradies e impasses, o XXII Congresso do Partido, liderado por Kruchov, resolveu acelerar o impulso reformista, numa espcie de fuga para a frente. 
O processo de desestalinizao foi levado s ltimas connseqncias: retirou-se o corpo de Stalin do mausolu onde desscansava ao lado de Lenin; rebatizou-se Stalingrado, 
smbolo maior da Grande Guerra Ptria, atribuindo-lhe o prosaico nome de Volgogrado; abriram-se novos dossis  pesquisa histrica, profundamente comprometedores 
para o prestgio do tirano defunto. 
Tambm por iniciativa de Kruchov, aprovou-se uma pooltica indita de democratizao do Partido Comunista, estabeelecendo-se o voto secreto para a eleio dos dirigentes, 
as canndidaturas mltiplas e um limite para a reeleio: um choque desestabilizante para uma organizao que, livre do terror, se imaginava garantida. 
No plano da sociedade, sucediam-se denncias e controovrsias sobre o legado de Stalin e sobre as caractersticas do sisstema sovitico. A obra de Soljenitsin (Um 
dia na vida de Iv Denissovitch), denunciando um sistema concentracionrio na Unio Sovitica, encerrava uma poca de inocncia quando ainnda era possvel alegar 
ou fingir ignorncia. 
A resistncia s reformas, porm, comeou a ganhar corrpo e fora. Nos altos escales, alguns as consideravam muito radicais e conseguiram aprovar medidas que reconcentravam 
o poder, como a reduo dos sovnarkhozes e a recriao de miinistrios e comits estatais centrais. Alm disso, as medidas deemocratizantes no interior do Partido 
simplesmente no eram aplicadas. O estilo de Kruchov, que parecia animado de um mooto-continuo, inquietava e assustava. Aonde levaria aquele vooluntarismo? 
Havia, no entanto, os que pensavam que era preciso avannar mais, e mais rpido: apareceu uma dissidncia sob a forma de jornais e revistas que circulavam clandestinamente 
(Sintaxis, Boomerang, Fenix, Spiral etc.), feitos pelos prprios autores (samizdat), com crticas contundentes ao regime em vigor. Alm disso, no incio dos anos 
60, registraram-se tambm movimenntos sociais de protesto em vrias cidades soviticas: Grosny, Drasnodra, Donetsk, Yaroslava, Zhdanov, Gorki, Alexandrov, Muron, 
Ninney, Tangil, Odessa, Kuybichev, Timerdam. O mais importante ocorreu em Novotcherkassk, no comeo de junho de 1962: comcios, manifestaes e greves tiveram que, 
afinal, ser reprimidos  bala pela polcia poltica e pelo exrcito, geranndo dezenas de mortes. Quando essas tenses conjugaram-se com fracassos espetaculares na 
poltica externa (exploso pblica das divergncias sino-soviticas, entre 1960 e 1963, derrrota humilhante por ocasio da crise dos foguetes em Cuba em outubro 
de 1962), criou-se um quadro propcio a mudannas conservadoras. 
Um novo golpe foi ento tramado, dessa vez com sucessso. Acusado de inmeros e graves erros de avaliao e conduta, agora pelos prprios discpulos e homens de confiana, 
incluusive de fomentar o prprio culto  personalidade, Kruchov foi apeado do poder pelo Presidium e pelo Comit Central do Partido Comunista. Restou para ele o 
caminho da aposentadooria vigiada. Como para outros, um sinal dos novos tempos, que ele prprio, mais do que ningum, ajudara a criar. 
OS TEMPOS DE EQUILBRIO .INSTVEL: 
AS BATALHAS HISTORIOGRFICAS 
Entre 1964, quando Kruchov foi destitudo, at 1985, data do incio da perestroika, transcorreu um perodo que, at hoje,  objeto de vivas controvrsias. 
No discurso oficial foi o tempo do socialismo desenvolvido. 
A Unio Sovitica parecia, a seus dirigentes, ter alcanado o mximo de sua glria, superpotncia mundial respeitada em todo o mundo, garantindo a seus cidados 
sempre melhores condi- 
es de vida e de trabalho. Uma nova Constitutio, aprovada em 1977, celebrava e consagrava juridicamente esse patamar. 
OS EUA e os pases capitalistas avanados, em grande meedida, reconheciam e se assustavam com os avanos obtidos pela URSS. Desde meados dos anos 70, cresciam tendncias 
conserrvadoras que, escorando-se no conceito de totalitarismo, commparando comunismo e nazismo, defendiam polticas abertaamente agressivas contra a Unio Sovitica, 
considerada um immprio do mal. A Inglaterra de Margareth Thatcher e os EUA de Ronald Reagan exprimiam os medos e as angstias de sociedaades que se sentiam ameaadas. 
Os comunistas chineses consideravam a URSS o inimigo mais perigoso, um imprio em expanso. OS EUA, sobretudo deepois da derrota definitiva no Vietn, em 1975, eram 
percebidos como um imprio decadente. Entre os socialistas e comunistas, muitos continuavam questionando o carter socialista da Unio Sovitica, mas outros, embora 
crticos, j se resignavam a tomIa como um dado incontornvel da realidade contempornea e inevitvel a longo prazo: o socialismo realmente existente. 
Na frica, na sia e na Amrica Latina, a URSS era vista como um contrapeso importante, s vezes, decisivo, aos intuitos dominadores dos EUA e das ex-metrpoles 
coloniais europias. No poucos governos, muitos provenientes de golpes de Estado, aproximavam-se do Estado sovitico  procura de alianas poolticas e diplomticas, 
de apoio econmico e de auxlio militar. 
No entanto, depois da emergncia da perestroika, Mikhail Gorbatchov, talvez para legitimar suas polticas reformistas, denominaria o perodo como um tempo de estagnao, 
quando a Unio Sovitica teria acumulado contradies e impasses, e perdido pontos decisivos na competio cientfico-tecnolgica com o Ocidente capitalista e, em 
particular, com os EUA. 
Diante dessas divergncias, seria possvel alcanar uma viso clara dos acontecimentos ou elaborar uma sntese entre pontos de vista to diferenciados? 
A UNIO SOVITICA ENTRE DESENVOLVIMENTO E ESTAGNAO 
O perodo, a rigor, foi marcado por ambigidades. Em muitos campos houve desenvolvimento e expanso. Contudo, em certos aspectos estratgicos,  indelvel a marca 
da estagnaao, ou mesmo, em alguns setores, do retrocesso. 
Foi inegvel a expanso poltico-militar do Estado sovitico, e impressiona a relao de vitrias e avanos no chamado Terceiro Mundo, sobretudo na segunda metade 
dos anos 70: no Vietn, no Laos e nas principais ex-colnias portuguesas (Angola e Moambique), partidos comunistas ou frentes de liibertao hegemonizadas por comunistas 
prximos ou aliados de Moscou chegavam ao poder com armas - soviticas - na mo. Na frica, na sia e na Amrica Latina, uma nova onda de Estados e movimentos nacional-estatistas 
alimentava crticas radicais ao liberalismo ocidental e se aproximava do Estado soovitico ou da China comunista. Em muitos pases (Etipia, Somlia, Congo-Brazzaville, 
Benin, Yemen), estabeleciam-se reegimes ditatoriais de partido nico. Diziam-se socialistas e procuuravam aliana com os soviticos. At o regime cubano, que paarecia 
destinado a uma rebeldia incurvel, depois da morte de Che Guevara, tinha evoludo gradativamente para posies connsideradas mais sensatas, tornando-se membro disciplinado 
das organizaes militares e econmicas regidas pela URSS. Como se no bastasse, no final dos anos 70, no chamado quintal dos EUA, as guerrilhas sandinistas assumiram 
o poder na Nicargua (1979) e pensava-se que algo semelhante pudesse ocorrer em El Salvador. Tambm em 1979, na sia, um golpe de Estaado aproximou o regime instalado 
em Cabul de Moscou. Soliciitado, o Estado sovitico no hesitou em correr em auxlio de uma repblica popular ameaada, e invadiu o Afeganisto. 
O mundo encolhia-se ante o imprio sovitico, cuja Maarinha de Guerra marcava presena em mares nunca dantes naveegados, como o Mediterrneo oriental, o Mar Vermelho, 
o Atlnntico, o ndico etc. 
Na Europa, a invaso da Checoslovquia, em 1968, e a connseqente doutrina Brejnev da soberania limitada, interditando mudanas de regime na rea da Europa central, 
pareciam ter amarrado definitivamente as democracias populares na rbita de Moscou. O episdio mereceu apenas protestos formais das principais potncias capitalistas 
e, de fato, no perturbou as relaes com os Estados europeus, particularmente com a Frana e a Alemanha, que se tornaram parceiros econmicos importantes da Unio 
Sovitica. Na verdade, numa perspectiva mais ampla e no contexto da guerra fria, o domnio da URSS na Europa central e as sucessivas intervenes e invases eram 
percebidos como "contrapartidas" s ingerncias, intervenes e verdadeiras invases, diretas ou indiretas, que os EUA e seus principais aliados promoviam ou patrocinavam 
em seus "quinntais", sobretudo na Amrica Latina e na frica. 
O reconhecimento internacional da Repblica Democrtica Alem (RDA) e o acordo final da Conferncia sobre a Seguurana e a Cooperao na Europa (CSCE), em Helsinqui, 
consaagram as fronteiras negociadas em Ialta, uma antiga reivindicao da diplomacia sovitica. 
A conseqncia disso tudo era a afirmao do Estado soovitico nas relaes internacionais, o que se traduzia por enconntros diplomticos regulares no mais alto 
nvel e por tratados e acordos firmados com os EUA nos mais diferentes campos. Faalava-se na montagem de um ambicioso condomnio internaacional entre os EUA e a 
URSS para dominar o mundo, repartido entre esferas de influncia pelas superpotncias. 
Do ponto de vista interno  URSS, a anlise das suas esstruturas sociais revelava mutaes considerveis. Em menos de meio sculo, a populao urbana havia dado 
um salto de 59 milhes para 180 milhes de pessoas. Em termos proporcionais, no incio dos anos 80, cerca de 66% da populao total vivia nas cidades, um crescimento 
de dezessete pontos percentuais em vinte anos. Nos anos 80, a URSS tinha 23 cidades com mais de um milho de habitantes (nos anos 3D, eram apenas trs), 
concentrando mais de 25% da populao, registrando um afluxo de 35 milhes de migrantes. 
A mo-de-obra sofisticara-se numa escala vertiginosa. 
Nos anos 50, 69% dos dirigentes de fbrica e 33% dos engeenheiros-chefes eram formados na prtica (os praktiki). A grande maioria no ia alm do diploma do curso 
secundrio. Uma gerao mais tarde, nos anos 80, 40% da populao urbana economicamente ativa tinha diplomas de segundo grau (cerca de dezoito milhes) ou universitrios 
(13,5 milhes). 
Nessa sociedade crescentemente urbanizada, multiplicaavam-se as redes de sociabilidade, cada vez mais insuscetveis de controle centralizado, pelo alto. Os sovietes 
locais mobilizavam 2,27 milhes de deputados. Havia 250 mil comits de controle popular. O prprio Partido, com quinhentos mil novos recrutas por ano, alcanara 
a soma de dezessete milhes de miados. Deetinham poderes muito limitados, sem dvida, mas constituam plos de atividades geradoras de interesses especficos. 
Nas prprias instituies oficiais, constituiam-se estrutuuras clientelsticas, legais, paralegais ou francamente ilegais (as chamadas mfias), afirmando autonomias 
perante um Estado cuja onipotncia s existia no discurso oficial e nas teorias do totalitarismo. 
Uma sociedade complexa, produto do salto para a frente dos anos 30 e da reconstruo do ps-guerra, cada vez mais diferenciada, sensvel  crtica e  rebeldia aos 
padres centraalistas e autoritrios da economia mobilizada. De nada adiantaava medir e quantificar os inegveis progressos realizados desde a revoluo de 1917 
e os mais recentes, desde os anos 50. Os cidados soviticos, cada vez mais, comparavam-se com os euroopeus ocidentais e os norte-americanos. No se sentiam consoolados 
por haver distanciado a ndia e outras naes do Terceiro Mundo. Pensavam estar em condies de desejar e queriam allcanar padres de consumo equivalentes aos das 
sociedades capitalistas avanadas. 
No alto, na cpula, estabilizada e segura depois da queda de Kruchov, um gradativo esclerosamento. No comeo dos anos 
80, a mdia de idade do Comit Central atingira sessenta anos, e a do Bureaux poltico, que recuperara o antigo nome, 71, dez a mais do que no incio dos anos 70. 
Embaixo, a sociedade movimentava-se, tateando  proocura de novos caminhos. As naes no-russas, sobretudo as do extremo-ocidente, mas tambm as do Cucaso e da 
sia cenntral, reclamavam graus de autonomia considerados excessivos. Ao contrrio dos mais velhos, que tendiam a valorizar as aquiisies do socialismo sovitico 
e a re1ativizar as dificuldades e os problemas, por constatarem que se inseriam num contexto de me1horias graduais, a juventude no ouvia as conclamaes padronizadas 
do Partido, parecendo seduzida pelos valores deecadentes do Ocidente, sua msica, maneiras de vestir e de ser. Mesmo entre os trabalhadores, a KGB registrava movimentos 
de protesto e tentativas de formao de sindicatos livres do conntrole estatal. Exprimindo o descontentamento, fortaleciam-se as dissidncias, jornais e revistas, 
grupos de mulheres e homens dispostos a tudo, a qualquer sacrifcio, na luta pelas liberdades, contra a tutela e a opresso do Estado todo-poderoso. Uma antiga tradio, 
remontando  intelligentsia russa do sculo XIX, revivida agora nos embates contra o Estado sovitico. 
DESAFIOS E SINAIS DE cmSE 
Entre 1965 e 1970, ainda foi possvel registrar um cresciimento industrial mdio de 8,4%. Mesmo descontadas as distores e falsificaes, um resultado aprecivel. 
Contudo, entre 1981 e 1985, a mdia cara para 3,5%. Os resultados no correspondiam mais s metas anunciadas. No X Plano Qinnqenal, entre 1981 e 1985, somente 
a produo de gs natural conseguiu superar as estimativas. A agricultura, apesar dos maacios investimentos, continuava a se arrastar, no alcanando, para o mesmo 
perodo, mdias anuais superiores a 1,4%, bem abaixo dos ndices de crescimento demogrfico. Problemas de todo tipo continuavam sem soluo: armazenamento, transporrtes, 
organizao da produo. Se no fosse o petrleo siberiano, que fizera da URSS um dos maiores exportadores mundiais do 
ouro negro, viabilizando importaes colossais de cereais (cem bilhes de rublos entre 1976 e 1980), a populao sovitica urrbanizada teria que voltar ao racionamento. 
Em vinte anos, a produtividade cara de 6,3% para menos de 3% ao ano, e os investimentos, de 7,8% para 1,8%. Aumenntavam os estoques de produtos invendveis e a 
poupana forrada dos consumidores. A inflao camuflada dos preos oficiais (aumento de apenas 7% da cesta bsica de consumo em trinta anos) no correspondia aos 
preos praticados nos mercados livres (elevao de cerca de 100% no mesmo perodo). 
Enquanto o capitalismo dava saltos de produtividade no quadro de uma nova revoluo cientfico-tecnolgica, a Unio Sovitica se deixava distanciar em quase todos 
os setores teccnolgicos de ponta. Apesar de algumas experincias piloto bemmsucedidas e de uma poltica de reforma da gesto das empresas formulada desde 1965 (E. 
Lieberman), as foras mais conservaadoras na economia e nas instituies polticas pareciam levar a melhor, resistindo a mudanas mais substantivas. 
Como enfrentar aquelas contradies e aqueles impasses? Quando Brejnev morreu, em 1982, devastado pela seniliidade, j era uma sombra do que fora em seus melhores 
dias. Os sucessores, I. Andropov e N. Tchernenko, em seus curtos perodos, no mais do que um ano, cada um, pareciam mais esperar a morte do que governar. 
O desenvolvimento sovitico chegara mesmo a um immpasse? Na equao entre expanso e estagnao, tenderia a preevalecer o segundo termo? O fato  que a Unio Sovitica, 
na sua condio de superpotncia, no podia esperar muito ... 
6. A PERESTROIKA E A DESAGREGAO DA UNIO SOVITICA 
Entre 1985 e 1991, a Unio Sovitica, tentando enfrentar desafios internos e externos que se acumulavam, passou por um perodo de profundas turbulncias: a perestroika 
e a glasnost. A sociedade e o Partido, num contexto de amplas liberdades, cedo dividiram-se entre reformistas e conservadores. O sistema no podia continuar como 
estava, todos concordavam, mas foi diifcil definir e trilhar caminhos que levassem  superao dos problemas. Diante dos impasses, num jogo poltico cerrado e exacerbado 
por tenses crescentes, a segunda superpotncia mundial desintegrou-se. 
A PERESTROIKA E A GLASNOST 
Foi muito rpida a sucesso de K. Tchernenko, como se o Comit Central do Partido Comunista j tivesse amadurecido a opo pelo novo secretrio-geral, Mikhail S. 
Gorbatchov, esscolhido em 11 de maro de 1985. 
Em larga medida, Gorbatchov exprimia as presses diiversificadas por mudanas. De um lado, as mutaes sociais verificadas nos ltimos trinta anos, que se acomodavam 
mal s tradies centralistas e autoritrias do Estado sovitico. De ouutro, os desafios impostos pela competio internacional que, no bojo de uma nova revoluo 
cientfico-tecnolgica, transformaava profundamente a paisagem econmico-social dos pases caapitalistas avanados, registrando o aparecimento de novos seetores 
(informtica, biotecnologia, novos materiais etc.), novas fronteiras econmicas, de sofisticada tecnologia e alta produtiividade. A Unio Sovitica poderia perder 
a condio de superrpotncia se no respondesse  altura, adequando a sociedade e a economia aos novos parmetros. O desafio, que poucos na 
URSS ento consideraram, era saber at que ponto uma sociedaade comprometida com valores prprios, como o pleno emprego, poderia assumir dinmicas e feies caractersticas 
de um regiime de tipo capitalista, essencialmente diverso. 
Muito rapidamente, Gorbatchov imps-se na cena interrnacional. O bom humor, o charme, a disposio para o dilogo e, acima de tudo, as propostas concretas conciliatrias 
no mmbito das relaes internacionais: moratria unilateral dos testes nucleares, reduo imediata de 50% dos armamentos estratgicos e dos msseis de alcance 
mdio, liquidao, at o ano 2000, de todas as armas nucleares, diminuies igualmente radicais. dos armamentos e das tropas convencionais. 
A mesma lgica que animara propostas semelhantes forrmuladas em seu tempo por Kruchov. Os gastos militares gravaavam enormemente o oramento sovitico. A URSS, com 
uma economia bem menor do que a dos EUA, tinha de competir de igual para igual na rea militar, o que dificultava ou impedia que recursos considerveis disponveis 
- humanos e materiais - fossem canalizados para outras direes e sobretudo para o atendimento das demandas da sociedade em servios pblicos de qualidade e em bens 
de consumo sofisticados (automveis, eletrodomsticos etc.). O complexo militar sovitico, alm disso, erigira-se num verdadeiro Estado dentro do Estado, com sisteemas 
prprios de fornecimento e abastecimento, quadros espeecficos de carreira, como se fosse um circuito fechado sobre si mesmo, com escassas conexes com a sociedade 
envolvente. 
Numa outra dimenso, a simpatia da opinio pblica internacional rendia dividendos internos, legitimando aos olhos da sociedade sovitica a liderana do novo secretrio-geral. 
No entanto, em relao a reformas concretas, parecia haver uma certa hesitao. Ao contrrio da ousadia evidenciada no jogo diplomtico internacional, o governo 
sovitico limitava-se a retomar campanhas ideolgicas tpicas dos perodos anteriores, com apelos  honestidade,  assiduidade,  disciplina, aos cuiidados necessrios 
com os bens pblicos etc. Era preciso acelerar (uskorienie) os ritmos e superar o tempo da estagnao (zastoi), 
como passaram a ser (des)qualificadas as dcadas anteriores. Ganhou na poca grande expresso uma campanha j lanada pelo falecido I. Andropov contra o alcoolismo 
e, especialmente, contra o consumo imoderado da vodca, responsvel por enorrmes gastos em sade, alm de prejuzos de toda ordem - morais e econmicos - para o conjunto 
da sociedade. 
Embora pudessem ter alguma repercusso e eficcia, as campanhas ideolgicas tendiam a frustrar as expectativas, pois o enfrentamento de desafios histricos exigia 
algo bem mais profundo e consistente. Assim, desde outubro de 1985, apareceu uma perspectiva mais ambiciosa, traduzida numa outra palaavra russa, a perestroika (reestruturao). 
No se tratava mais de acelerar simplesmente os ritmos de um sistema, mas de reform10 em profundidade, reestrutur-Io. 
Um livro de autoria do prprio Gorbatchov, com a palaavra no ttulo, virou um best-seller na Unio Sovitica e em todo o mundo. Em linguagem simples e clara, didtica, 
formulava uma anlise sem concesses do socialismo sovitico e de seus impasses. O pas modernizara-se e se transformara numa superrpotncia,  verdade, mas havia 
problemas estruturais que se acuumulavam: desperdcios colossais, excessivo centralismo, critrios de avaliao exclusivamente quantitativistas, privilgios inconcebveis, 
negligncia e mesmo desrespeito em relao s demandas sociais, doses elevadas de arbtrio e conseqente fraagilidade do Estado de direito. A dureza e a preciso 
do diaggnstico no eram acompanhadas, no entanto, por uma clareza equivalente de solues e de alternativas. O autor limitava-se a propor uma sociedade ideal: produtiva, 
pacfica, justa, livre e democrtica. Era preciso, argumentava, reconquistar a alma dos soviticos para o socialismo que devia recuperar o charme e mobilizar as 
pessoas pela seduo do convencimento e no pela fora dos tanques. 
Para alm desses nobres propsitos, porm, o texto no apontava propostas de polticas concretas, legislaes especficas, capazes de desatar os ns e de superar 
os estrangulamentos e os problemas denunciados. 
No Partido perfilavam-se j correntes e lideranas reforrmistas, mais preocupadas com as mudanas consideradas necesssrias, e conservadoras, apegadas  situao 
existente, temerosas de que reformas mal elaboradas pudessem conduzir  desorgaanizao e ao retrocesso. No entanto, os debates ocorriam num nvel alto de abstrao, 
desenhando-se um consenso enganoso. 
Quando se realizou o XXVII Congresso do Partido Coomunista, realizado em fevereiro-maro de 1986, quase trinta anos depois do incio da desestalinizao, causou 
grande reperrcusso o discurso de Gorbatchov, propondo mudanas radicais na economia, nas instituies polticas e na poltica externa. Anunciou-se ento a glasnost 
(transparncia), uma outra palaavra russa que correria mundo. Evidenciava a perspectiva de subbmeter a administrao pblica ao controle da sociedade, o que suscitou 
expectativas de democratizao do Estado. Entretanto, foi sintomtico, apesar de todos os debates, que no tenham sido definidas propostas polticas claras no sentido 
de reformas prticas baseadas nos princpios com os quais, pelo menos apaarentemente, todos diziam concordar. 
Ampliavam-se, contudo, as margens de liberdade na soociedade. Nos jornais, revistas e televises, acendiam-se as conntrovrsias em torno do que muitos viam como 
as mazelas do regime existente. Gorbatchov, retomando o estilo de Kruchov, corria o pas, ouvindo reivindicaes, discursando, mobilizando e agitando as conscincias 
e as vontades. 
Foi ento que, em 26 de abril de 1986, ocorreu a exploso do reator nuclear de Chernobyl, na Ucrnia. Uma exposio de feridas, um trauma. Ao contrrio da tradio 
de tentar tudo esconder, e manter em segredo, sobretudo os problemas, o gooverno, depois de uma certa hesitao e de denncias provindas da Sucia, deu ampla publicidade 
ao assunto, notificando as agncias e a opinio pblica internacionais. Nada a esconder, ao contrrio, dar a pblico, reforando-se a orientao favorvel  glasnost. 
Chernobyl, denunciava Gorbatchov, procurando extrair vantagens polticas do episdio,. era a prpria sntese da modernidade problemtica e inacabada da Unio Sovitica. 
Para 
evitar a possibilidade de tragdias semelhantes no futuro, era preciso avanar com a perestroika. 
Mas em que direes exatamente? Como se traduziriam na prtica os altos propsitos da perestroika? 
O governo fizera aprovar as primeiras leis que anunciaavam caminhos. Em novembro de 1986, o trabalho individual privado, j existente no mercado informal, foi reconhecido 
e regulamentado. Seis meses depois, aprovou-se um novo estaatuto autorizando a existncia de cooperativas autnomas. Entre outros objetivos, tinha a perspectiva 
de conferir dinamismo aos kolkhozes, sempre muito dependentes e controlados pelo Estaado. Um pouco mais tarde, em junho de 1987, para entrar em vigor a partir de 
10 de janeiro de 1988, uma nova lei consagrava juridicamente a autonomia das empresas. Visava substituir os mtodos administrativos tradicionais por critrios econmicos. 
As empresas ganhavam maiores margens de liberdade para esscolher fornecedores e clientes, fixar preos para os produtos e remunerao para os trabalhadores. Os planos 
centrais tendeeriam, gradativamente, a adquirir um carter apenas indicativo. 
As novas leis retomavam na prtica princpios e refernncias das reformas econmicas sugeridas desde os anos 60, tenntando combinar os critrios e as vantagens da 
economia de plaanejamento e da economia de mercado, segundo os termos deefendidos desde o incio da perestroika por A. Iakvolev, um dos principais assessores de 
Gorbatchov. 
Para que fossem realmente aplicadas e ganhassem eficcia, era, entretanto, necessrio complement-Ias com outras medidas e polticas: uma profunda reforma bancria 
e financeira, agiilizando e viabilizando o crdito, uma reforma geral dos preos e dos subsdios tradicionais, uma lei geral de falncias, em que se previsse o destino 
de empresas que no conseguissem obter luucros (25% dos casos, segundo as prprias autoridades), uma prooposta de formao e de reatualizao do pessoal das empresas 
que, eventualmente, tivessem de fechar etc. Ora, como nada disso foi feito, as leis aprovadas tenderam a ficar no papel, smmbolos de uma vontade ainda no muito 
amadurecida ... 
A perestroika parecia entravada. No entanto, num conntexto cada vez mais livre de restries e censura, fluam crticas e reivindicaes. 
o MODELO SOVITICO SOB O FOGO DA CRTICA: 
REFORMISTAS VERSUS CONSERVADORES 
A modernizao sovitica comeou a ser questionada do ponto de vista ecolgico. Algumas experincias exemplarmente negativas tornaram-se conhecidas para o grande 
pblico: o ressecamento do Mar Aral, a poluio extrema do Lago Lagoda, uma das maiores reservas europias de gua doce. Outros granndes projetos eram reavaliados 
e criticados, como o do redireecionamento de rios siberianos, sem uma estimativa criteriosa do impacto ambiental conseqente. O desenvolvimento sovitico tinha 
uma dinmica predatria porque baseada em critrios produtivistas. Era preciso formular novas concepes que respeitassem a natureza e os interesses das geraes 
futuras. 
Problemas de outra natureza, aparentemente superados, mas apenas censurados, ou ocultados pela propaganda positiiva, apareciam agora  luz do dia: deficincias dos 
sistemas de educao e de sade, questes relativas  prostituio e ao connsumo de drogas pesadas, tradies machistas persistentes, obriigando as mulheres a cumprir 
a chamada dupla jornada de traabalho, profissional e domstica. 
Os privilgios de todo tipo das autoridades administraativas e polticas eram contrastados com a dureza das condies de vida e de trabalho dos cidados comuns. 
Boris Ieltsin, noomeado por Gorbatchov para dirigir o Partido Comunista em Moscou, em fins de 1985, adquiriu sbita notoriedade e ampla simpatia popular por denunciar 
a prevaricao e os abusos dos burocratas, homens de poder e de prestgio, dispondo de lojas especiais, colnias de frias, transporte particular, informaes privilegiadas, 
direito de viajar ao estrangeiro. Uma verdadeira casta que precisava ser controlada e apontada  execrao pblica. 
Sucediam-se escndalos de corrupo, alguns de ampla repercusso, como o ocorrido no Usbequisto, envolvendo o genro de Brejnev, Y. Tchurbanov, acusado de ter desviado, 
no 
contrabando de algodo, cerca de U$ 1 bilho, em cumplicidaade com C. Rachidov, ex-dirigente daquela repblica sovitica asitica, j falecido. O caso tornou-se 
emblemtico, envolvenndo milhares de pessoas. A chamada mfia do Usbequisto, a rigor, no era um caso isolado. Processos similares foram deetectados na Moldvia, 
no Casaquisto. Disseminavam-se por todo o Estado sovitico, ramificando-se a partir de Moscou. Na cpula do poder, no existira durante dcadas a chamada mfia 
de Dniepropetrovski, encabeada por Brejnev em pessoa? 
Estruturas paralelas, clientelsticas, grassavam nos interssticios institucionais, nas fronteiras entre o legal e o ilegal, driblanndo as diretrizes e as convenes 
centralistas, aparentemente resspeitadas, mas demasiadamente rgidas para serem eficazes. Na verdade, embora informais, ou talvez por causa disso mesmo, eram fatores 
muitas vezes essenciais  realizao das metas plaanejadas,faziam as coisas funcionarem, ao arrepio ou mesmo conntra as leis existentes. Nas empresas, no aparelho 
do Estado, nas instituies de todo tipo, formava-se uma contra-sociedade, orrganizando-se em crculos concntricos. No havia cidado sovitico que pudesse (sobre)viver 
sem o recurso aos expedientes desssas redes informais que, de algum modo, burlavam as normas e a legislao. Com o passar do tempo, considerando-se as oporrtunidades 
abertas, muitas se transformariam em estruturas perrmanentes, hierarquizadas, praticando o crime organizado, mfias propriamente ditas. 
O debate das denncias revigorava a sociedade, revitaliizava os meios de comunicao. Os questionamentos e as crtiicas, recalcados e censurados, apareciam muitas 
vezes com uma virulncia insuspeitada, propondo revises desesperadoras do passado sovitico. Nada se salvava daquele incndio. Alguns no hesitavam em dizer que, 
desde a revoluo em 1917, a Unio Sovitica estava num desvio de rota, no podia seno desemmbocar num fracasso histrico colossal. Era preciso, portanto, aprofundar 
e acelerar as reformas, enfraquecer ou destruir os ncleos conservadores, contrrios s mudanas, como gostava de dizer Boris Ieltsin, o dinmico chefe do Partido 
em Moscou. 
Nem todos, entretanto, concordavam com essas apreciaaes, consideradas negativistas. Eram muitos os que defendiam as tradies soviticas. Articulavam-se nas instituies 
polticas, nos ministrios centrais, nas altas instncias do Partido Comuunista, contando com, e estimulando, os reflexos conservadores largamente disseminados na 
sociedade. De fato, a insatisfao era palpvel, mas mudar como, com que ritmos e em que direeo? O chefe aparente da corrente conservadora, extremamennte heterognea, 
era E. Ligatchev, que se encontrava no centro do poder, responsvel pela ideologia, considerado nmero dois do Partido, logo abaixo do prprio Gorbatchov. 
Em meados de 1987, os conservadores pareciam estar ganhando posies importantes. Em outubro, duramente criiticado por um reformismo excessivo, Boris Ieltsin perdeu 
os postos que detinha na administrao do Partido e do Estado. Pouco depois, por ocasio dos setenta anos da revoluo sovitica, Gorbatchov permitiu-se um elogio 
a Stalin, antes j duraamente criticado, agora louvado por sua capacidade em manter a unidade do Partido e da sociedade. O que parecia uma escaalada dos conservadores 
culminou, em 13 de maro de 1988, com a publicao, pelo jornal Sovietskaia Rossia, de um artigo conntendo crticas contundentes  perestroika e aos partidrios 
das reformas. Ningum poderia discutir a sinceridade das convicces da autora, uma professora de Leningrado, Nina Andreeva, mas era claro que ela exprimia e se 
apoiava em altos escales do poder. 
A sociedade e a opinio pblica internacional ficaram perplexas, na expectativa, iria encerrar-se a experincia da peerestroika e da glasnost? 
GLASNOST E DEMOCRATIZAO DO ESTADO 
Foi preciso esperar um pouco mais de trs semanas para que o Pravda, rgo oficial do Partido, publicasse uma nota crtica ao destempero da professora, reafirmando 
e defendenndo os princpios da perestroika como uma revoluo no pensaamento e na ao e formulando crticas  passividade com que a 
sociedade em geral e a imprensa em particular haviam reagido ao ataque orquestrado pela Sovietskaia Rossia. 
O real significado desse episdio ficou relativamente obscuro. Entretanto, o debate foi reatado e as reformas pareceeram retomar flego. O cenrio para o prximo 
enfrentamento entre reformistas e conservadores seria, agora, a XIX Confernncia Pau-Russa do Partido Comunista, convocada para junho de 1988, reunindo milhares 
de delegados de toda a Unio Sovitica. 
O povo sovitico foi ento brindado com um debate raro na histria do pas. Opinies contraditrias, vaias, aplausos, interrupes, fazendo lembrar tempos pretritos, 
quando os sovietes tinham sido criados como autnticos parlamentos pleebeus, sem regras e normas rgidas, palcos de intensas discussses, geis e volteis. A sociedade 
acompanhava o processo, televisionado ao vivo, devorando jornais e revistas, debatendo em toda a parte as grandes questes ento consideradas. 
Prevaleceu a proposta de criao de uma nova instituiio, o Congresso dos Deputados do Povo. Teria 2.250 deputaados, escolhidos por trs colgios eleitorais distintos: 
um primeiiro tero seria eleito por todos os cidados, em circunscries territoriais; um outro tero seria escolhido, proporcionalmente, pels diferentes naes 
soviticas. Finalmente, um ltimo tero seria designado por determinadas instituies: o Partido Comuunista, os sindicatos, as instituies acadmicas, as organizaes 
populares etc. A esse Congresso competiria escolher um soviete supremo, de cerca de quinhentos deputados, e, diretamente, o presidente do Estado sovitico, a quem 
seriam delegados pooderes extraordinrios. 
Desenhava-se assim uma instituio estatal autnoma em relao ao Partido Comunista. O seu presidente, com amplos poderes, tambm ganharia uma fora considervel, 
apenas reeferida aos seus eleitores, e no mais, pelo menos formalmente, ao Partido at ento todo-poderoso. Amadurecia a viso, no ocultada por Gorbatchov e seus 
correligionrios mais prximos, de que a perestroika deveria ser precedida pelo aprofundamento da glasnosfou, em outras palavras, de que a reforma econmica 
deveria ser antecedida e, de certo modo presidida, pela reforma poltica. 
A campanha eleitoral empolgou o pas durante o inverno de 1988-1989, mesmo porque, em muitas circunscries, mlltiplas candidaturas, ento autorizadas, disputavam 
o voto dos cidados, promovendo debates contraditrios e mobilizando as conscincias. Para quase todos, um processo indito, em que tudo era possvel discutir e 
questionar, at mesmo o regime soocialista e a modernidade sovitica. 
o SOCIALISMO EM QUESTO 
Desde a vitria da revoluo, ao lado das cerradas crtiicas dos conservadores de todos os bordos, que associavam o comunismo ao terror,  ineficincia e  morte, 
apareceram no interior das prprias correntes socialistas questionamentos ao carter do regime instaurado na Unio Sovitica. 
Na social-democracia ocidental, Kautsky, hesitando, reecorreu a vrias categorias para tentar decifrar o enigma: sociaalismo de quartel, capitalismo de Estado, contra-revoluo 
terrmidoriana, bonapartismo, fascismo ... Aquela experincia origiinal, hertica, podia ser tudo, menos socialismo. 
Outras correntes radicais, depois de aliarem-se brevemennte aos bolcheviques ao longo do ano vermelho de 1917, no aceiitaram a ditadura bolchevique em nome do proletariado. 
Connselhistas, comunistas de esquerda, anarquistas, desde o incio dos anos 20, e mesmo antes, denunciaram os bolcheviques como usurpadores e o seu regime como uma 
tirania regida por um sistema de capitalismo de Estado. Essa interpretao seria retomada, muitos anos mais tarde, e com diversas angulaes, por outras correntes, 
inclusive pelo maosmo chins e por acadmicos a ele associados. 
Trotski, desde antes de sua expulso da Unio Sovitica, embora reconhecendo o carter socialista da revoluo, defennderia a tese de um processo degenerativo burocrtico. 
Era necesssria uma nova revoluo, poltica, para recolocar o pas no rumo de um socialismo autntico. 
Depois da Segunda Guerra Mundial, no quadro da guerra fria, uma certa sovietologia acadmica, basicamente nortericana, retomaria o conceito de totalitarismo, j 
empregado por dissidncias dos anos 3D, para caracterizar o regime sovitico, igualando-o ao fascismo e ao nazismo. Nessa anlise privilegiaava-se a instncia poltica, 
aparecendo o Estado como onipotente, um verdadeiro demiurgo da histria. A sociedade, vitimizada e atomizada, no teria foras para rebelar-se, nem para reformar 
o Estado e a economia. Da se conclua, quase sempre, que s uma guerra externa poderia conduzir a mudanas na URSS, o que agradava s correntes belicistas, os falces 
da guerra fria. 
Num outro registro, interpetaes diversas tentavam encontrar outras chaves, como a de privilegiar comparaes enntre a URSS e antigos regimes asiticos, ou a de 
cunhar novos termos para um regime que no seria socialista, tampouco capiitalista, mas tecno-burocrtico. 
Finalmente, a tese de que o regime sovitico, embora fugindo das previses dos grandes tericos socialistas do sculo XIX e apesar de todas as distores e deformaes, 
afirmara uma modernidade alternativa, socialista: o socialismo realmente existennte. Apesar de tautolgica, a idia encontrou muito eco e aceitao. 
Todas essas idias e teorias voltavam agora com fora, agiitadas no grande debate em que mergulhava a sociedade sovitiica, reaprendendo os encantos e as incertezas 
das liberdades de pensamento e de expresso. Mas havia sombras naquele cenrio. 
CONTRADIOES E IMPASSES DA PERESTROIKA 
A economia, em seus distintos setores, no deslanchava, ao contrrio. Os ndices de produo e produtividade almejaados em 1986, quando se definiu o XX Plano Qinqenal, 
no se realizavam. A agricultura continuava apresentando rendimentos insuficientes. Em 1988 a colheita de cereais alcanou 195 milhes de toneladas, quase 20% a 
menos do que em 1978, dez anos anntes. Acumulavam-se problemas no abastecimento de gneros de toda a espcie, gerando escassez, filas, prateleiras e geladeiras vaazias. 
O racionamento da carne atingia oito das quinze repblicas 
e 26 regies na Federao Russa. O de acar e de manteiga allcanava 32 e 53 regies da Rssia, respectivamente. 
Numa outra dimenso, surgia, com uma fora imprevista, a questo nacional. No livro sobre a perestroika, Gorbatchov mal tocara no assunto, no o considerando um 
elemento crtico. No entanto, contradies nacionais comearam a tomar vulto. Em fins de 1986, uma revolta popular no Csaquisto, contra a nomeao de um russo 
para o posto de primeiro-secretrio do Partido naquela repblica, produzira dois mortos e duzentos feridos. No vero de 1987, houve manifestaes dos trtaros da 
Crimia em Moscou reivindicando autorizao para voltarem para as terras de. origem, de onde haviam sido deportados na fase final da Segunda Guerra Mundial, e agitaes 
nacionalistas nos pases blticos e na Moldvia, questionando as anexaes 
realizadas em fins dos anos 30 (pacto germano-sovitico) e reiteeradas depois da derrota nazista. Finalmente, e mais importante, a partir de fevereiro de 1988, e 
se estendendo por todo o ano 
de forma incontrolvel, ocorreram graves conflitos (saques e progrooms) entre armnios e azerbaidjanos pelo controle da reepblica autnoma do Alto Karabakh, de 
maioria armnia, mas inserida administrativa e juridicamente na repblica sovitica do Azerbaidjo. 
A rigor, como vimos, desde outubro de 1917, e da fundaao da URSS, em 1922, o poder revolucionrio teve que se haver com a multiplicidade de povos, lnguas e religies 
que h sculos haviam caracterizado a histria do imprio tsarista. O prprio nome do novo pas indicava um caminho, o do reconhecimento das identidades culturais 
e polticas nacionais. E com efeito, ao longo da histria sovitica, certos aspectos culturais, alguns absolutamente cruciais, foram bastante valorizados, aprofunndando 
as identidades de tipo nacional. Pequenas naes chegaaram a ganhar pela primeira vez em sua histria lnguas escritas, devidamente reconhecidas e sistematizadas 
em dicionrios. 
I 
I I Ao mesmo tempo, segundo as conjunturas, o poder cen- 
tral no conseguiu evitar as tentaes centralistas e russificantes, sobretudo no plano poltico, embora at mesmo a cpula do 
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poder fosse permevel  ascenso de "algenos" no-russos, feita a ressalva de que eram sempre profundamente "russificados" (casos, entre outros, do prprio Stalin 
- georgiano de origem e de Khruchov, ucraniano). 
O fato inegvel, contudo,  que, para alm dos avanos substanciais em certas reas, as contradies nacionais eram bastante subestimadas, se no ignoradas. E por 
isso mesmo, no contexto da crise que se avizinhava, explodiriam com um vigor inesperado. 
Reivindicaes de tipo nacionalistas tambm voltaram a agitar as democracias populares na Europa central. Na Polnia, em 1989, depois de quase sete anos de ditadura 
militar, o geneeral Jaruzelski foi obrigado a reabrir conversaes com o Solidaariedade, movimento que conjugava dimenses sindicais e polticas, alm de forte conotao 
nacionalista e religiosa (caatlica). O processo desembocou em eleies, realizadas em junho daquele ano, amplamente vencidas pelo Solidariedade, cujos representantes 
passaram a compartilhar o poder com os comunistas. 
Na Hungria, desde maio de 1988, K. Groz substitura o envelhecido J. Kadar, acelerando e aprofundandoum programa de reformas no sentido da descentralizao e da 
desestatizao da economia. No plano poltico, quebrou-se o dogma do partido nico, autorizando-se a formao de novos partidos (Aliana dos Democratas Livres e 
Frum Democrtico). 
Diante desses processos e acontecimentos que subvertiam a ordem instaurada na regio desde a conferncia de falta, quesstionando as determinaes da doutrina Brejnev 
de soberania limitada, Gorbatchov e o Estado sovitico nada faziam, pareecendo desinteressar-se do destino daqueles pases e povos. Os conservadores de todos os 
bordos, especialmente nas Foras Armadas, alarmavam-se, inquietos e desorientados. 
Nada conseguia, porm, abalar a autoconfiana de Gorrbatchov e as reservas de apoio que aparentava ter na sociedade. 
Com efeito, as eleies para o Congresso dos Deputados do Povo tinham sido um grande sucesso para a sua liderana 
pessoal e poltica. Antes que elas se realizassem, em fins de 1988, conseguira afastar Ligatchev dos postos que ocupava, consoliidando ainda mais o controle dos 
aparelhos centrais do Partido e do Estado. Depois das eleies, presidira uma vez mais os debates acalorados, dando demonstraes de serenidade e equiilbrio. Fizera 
aprovar um conjunto de reformas, ganhando amplos poderes para implement-Ias, agora como presidente eleito. Em 1990, na segunda sesso do Congresso, conseguiu mesmo 
aprovar a quebra do monoplio poltico do Partido Coomunista, garantido at ento por dispositivo constitucional. As instituies estatais ganhavam decisiva autonomia 
em relaao ao partido-guia. 
o FIM DO SOCIALISMO NA EUROPA CENTRAL 
No plano internacional, Gorbatchov alcanou o apogeu de sua popularidade em 1989-1990. A retirada das tropas soviticas do Afeganisto, consumada em 1989, consagrava 
uma poltica destinada a atenuar ou eliminar, onde fosse possvel, conflitos regionais que, embora com causas especficas e autnomas (Nicargua, Angola, Camboja), 
tinham sido sempre alimenntados e estimulados pelas rivalidades entre as superpotncias. 
O mais impressionante, no entanto, fora o fulminante desmoronamento do socialismo na rea da Europa central. Deepois dos acontecimentos na Polnia e na Hungria, 
j referidos, o process ganhou ritmo e fora. Em abril de 1990, em eleies livres, os comunistas foram fragorosamente derrotados pelo Frum Democrtico na Hungria. 
Em dezembro do mesmo ano, os poloneses elegeram Lech Walesa, o lder histrico do Solidaariedade, como presidente da Repblica. Em seguida, os aconteecimentos precipitaram-se 
na Repblica Democrtica Alem, considerada a democracia popular de economia mais prspera e slida na rea. Movimentos sociais considerveis enfraqueceeram decisivamente 
o governo. Os comunistas ainda tentaram manobrar, substituindo o encanecido E. Honecker por E. Krenz, aberto e disposto a concesses. Mas j era tarde: a abertura 
e posterior destruio do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 
1989, liquidaram as possibilidades do socialismo no pas. Uma ltima tentativa, com H. Modrow como primeiro-ministro, tambm no funcionou. Eleies realizadas em 
maro de 1990, atriburam ampla vitria  Aliana pela Alemanha, coalizo anticomunista formada por diversas tendncias, com apoio exxplcito do primeiro-ministro 
H. Kohl, da Repblica Federal Aleem, e comprometida com um programa de reunificao da Alemanha sob hegemonia e controle da Alemanha ocidental. 
Na sequncia, foi a vez da Checoslovquia. As manifesstaes comearam apenas uma semana depois da queda do Muro de Berlim, em 17 de novembro de 1989. Em pouco mais 
de dois meses, uma agitao social crescente levaria  derrubaada do governo comunista e a eleies que designaram V. Havel, famoso teatrlogo e conhecido dissidente, 
presidente da Repblica. Num processo pacfico, a revoluo de veludo, o pas liivrava-se do socialismo realmente existente. A Romnia passaria, no mesmo perodo, 
por um processo anlogo de protestos macios contra o governo comunista, mas a no houve uma transio pacfica. Episdios de represso brutal e revoltas popuulares 
conduziram finalmente  priso, julgamento sumrio e execuo do ditador N. Ceausescu e de sua mulher. Na Bulgria, a retirada dos comunistas ocorreu em melhores 
condies com a substituio do velho lder, T. Zhikov, em fins de 1989. No ano seguinte, em junho, com novo nome e totalmente aggiorrnados, os comunistas conseguiram 
ganhar as eleies, mas deecididos a fazer as concesses necessrias que assegurariam uma transio pacfica para um novo regime social. 
De sorte que, entre 1988 e 1990, em pouco mais de dois anos, e  exceo da Albnia, I todo o chamado Leste Europeu, considerado por muitos como uma rea destinada 
indefinidaamente ao domnio sovitico, no apenas sara da rbita de Moscou, como abandonara o socialismo como projeto de socieedade. E a URSS nada fizera para det-Jo. 
I A A1bnia, no entanto, no escapou do processo. Em 1992, consumou-se ali tambm a transio para uma sociedade no-socialista. 
A DESINTEGRAO DA UNio SOVITICA 
A guerra fria terminara. Mais uma prova disso, e definiitiva, fora a atuao conjunta dos Estados Unidos e da Unio Sovitica na guerra contra o Iraque, em 1990-1991. 
A reunifiicao da Alemanha conferira a Gorbatchov o Prmio Nobel da Paz. A popularidade do lder sovitico junto  opinio pblica internacional, sobretudo nos 
pases capitalistas mais avanados, alcanava recordes histricos. No entanto, na Unio Sovitica, em contraste, o mesmo no se verificava. 
Multiplicavam-se as tenses sociais, o descontentamento. 
No vero de 1989, houve um importante movimento grevista entre os mineiros do carvo da Ucrnia. Novas greves explodiiram no vero seguinte, reclamando contra os 
salrios defasaados e a escassez de gneros bsicos. O discurso da eficcia, que fundamentava a perestroika, no se concretizava na prtica. Os funcionrios do Estado 
e do Partido, os militares, os trabalhaadores urbanos e os camponeses, todos tinham reivindicaes no atendidas e protestavam. Havia uma atmosfera de decanntao, 
esperanas cultivadas que no se realizavam, acumulando frustraes. 
Na realidade, as cartas pareciam embaralhar-se num conntexto de crise de referncias. No incio, a sociedade parecia unnime e coesa em torno das linhas mestras 
desenhadas por Gorbatchov: era preciso reformar o socialismo para melhorar o sistema. No entanto, numa etapa seguinte, ncleos conservaadores comearam a se desenhar, 
sobretudo nos aparelhos do Estado e do Partido. Sob crtica crescente, tendiam a cultivar reflexos conservadores. Os estratos mais velhos da sociedade, por sua vez, 
tambm tendiam a recusar as crticas destrutivas que se multiplicavam, negando, s vezes radicalmente, qualquer positividade  experincia socialista sovitica. 
Tambm comeaaram a se manifestar contra o reformismo gorbatchoviano. Entre os trabalhadores de empresas notoriamente deficitrias, surgia da mesma forma o receio 
do eventual' desemprego, acenado por vezes como "inevitvel" num processo de "reestruturao" geral da economia. Apesar disso, em amplos setores, sobretudo entre 
os jovens, mas mesmo dentro dos prprios aparelhos polticos, em razo do profundo desgaste do poder e da influncia decliinante da ideologia e do Partido comunistas, 
expandia-se a simmpatia por um reformismo cada vez mais radical, que passou, a partir de um determinado momento, a questionar as prprias bases do socialismo. 
A sociedade estava de ponta-cabea. As idias reformisstas, abrigando desde os que ainda se mantinham fiis ao sociaalismo aos que j se colocavam como perspectiva 
a economia "de mercado", atravessavam transversalmente a sociedade, conntaminando diferentes categorias sociais. Mas seria imprprio imaginar que apenas os aparatchiks 
lutavam para conservar a ordem, vista como razovel, embora imperfeita, por muitos esstratos intermedirios e de trabalhadores. 
O governo, apesar dos poderes extraordinrios com que fora investido pelo Parlamento eleito, parecia desorientado. A constante troca de responsveis econmicos exprimia 
dvidas e incertezas bsicas. No incio, confiara-se no grupo do Instituto de Novossibirsk, dirigido por A. Aganbeguian e 1. Zaslavskaia. Os diagnsticos da economia 
sovitica, de seus impasses, insspirariam e informariam a formulao da perestroika. Em seguiida, veio a equipe do Instituto de Economia da Academia de Cincias, 
dirigida por L. Abalkin. Depois, foi a vez de S. Chatalin e N. Petrakov. Finalmente, G. Iavlinsky e os assessores norteeamericanos. Cada qual com sua prpria plataforma 
de reforrmas. Mas os projetos no conseguiam gerar os efeitos esperados. 
Ao longo do tempo, Gorbatchov primara pela clareza no diagnstico dos problemas estruturais do sistema sovitico. Mostrara igualmente uma grande habilidade em afastar 
inimiigos e concentrar poderes, um gnio da manobra poltica curta. Em relao, porm, a polticas concretas, capazes de produzir efetivas e rpidas transformaes 
na sociedade e na economia, o fracasso era claro. 
Nas brechas de uma crise que se aprofundava, como semmpre acontecia, desde os tempos do velho imprio tsarista, as naaes no-russas apareciam com seus programas 
e reivindica- 
es de autonomia cultural e poltica. Algumas j falavam aberrtamente em secesso. Nos pases blticos, na sia central, no Cucaso, at mesmo na Rssia e nas duas 
outras naes eslavas (Ucrnia e Bielo-Rssia [ou Belarus]), consideradas o ncleo bsico de sustentao da Unio Sovitica, os parlamentos nacioonais proclamavam 
a prpria soberania em relao ao poder cenntral da Unio, ou seja, a primazia das leis nacionais sobre as leis soviticas. Num contexto de predomnio de foras 
centrfugas, qual seria o destino do poder central? Surgiu ento, no segunndo semestre de 1990, a idia da formulao de um novo pacto federativo, uma Unio das 
Repblicas Soberanas, em que, sinntomaticamente, j no apareciam mais as menes ao socialissmo e aos sovietes. 
Os discursos de Gorbatchov pareciam contraditrios. Ora insistia, persuasivamente, na elaborao de um amplo acordo negociado, ora, em declaraes apocalpticas, 
anunciava a possiibilidade de uma desagregao catica. A renovao do socialissmo continuava como referncia, mas combinada com o elogio das virtudes do mercado. 
Seria vivel estruturar um sistema que pudesse contar com os aspectos positivos do plano centralizado e do mercado desregulado? Um socialismo possvel? 
O fato  que Gorbatchov nomeou, em fins de 1990, um governo formado por homens decididos a qualquer custo a impedir a imploso da Unio Sovitica, muito mais ligados 
s correntes conservadoras, que at ento s haviam colhido derrootas, do que ao programa reformista que gerara a perestroika e com o qual Gorbatchov se identificara. 
Em 17 de maro de 1991, os resultados de um referendo organizado pelo poder central pareceu fortalecer a tese dos que defendiam a permanncia da Unio, aprovada 
por 76,4% dos votos. Entretanto, seis repblicas retiraram-se da consulta: 
Litunia, Letnia, Estnia, Gergia, Moldvia e Armnia. Os liituanos, em fevereiro, j haviam aprovado a independncia por 90,5% dos votos. Pouco depois, em abril, 
o Parlamento da Gergia tomou o mesmo caminho. Alm disso, em outras repblicas, como na Ucrnia, o referendo inclura outras questes 
sobre a soberania local e regional, respondidas afirmativamente por ampla maioria, o que relativizava um pretenso acordo sobre a manuteno do poder central e da 
Unio. 
Por outro lado, viriam da prpria Rssia, uma vez mais, claras indicaes da fora do processo de desagregao. Boris leltsin, comprometido com a soberania russa, 
em eleies diretas, inditas, em 12 de junho de 1991, foi escolhido presidente da Repblica, com votao consagradora (57,3% dos votos), logo no primeiro turno. 
Ao mesmo tempo, em Leningrado e Mosscou, A. Sobtchak e G. Popov, seus correligionrios, tambm eram eleitos como prefeitos por amplas maiorias. Nascera uma espcie 
de poder paralelo ao da Unio, amparado e legitimado por eleies democrticas. 
As contradies aproximavam-se agora de um desfecho, embora a maioria dos analistas continuasse considerando a deesagregao da Unio Sovitica como improvvel, 
porque impreevista. Mas, de fato, era isso mesmo o que estava acontecendo. 
As conversaes lideradas por Gorbatchov para um novo tratado da Unio no chegavam a resultados. Afinal, aprovouuse um texto, publicado em 14 de agosto de 1991, 
para ser assiinado uma semana depois. Aparecia, porm, marcad por tantas barganhas e compromissos que no parecia oferecer alternativa segura para nenhuma fora 
poltica em particular. 
Criou-se ento uma atmosfera de golpe de Estado. Os connservadores, entronizados em postos importantes da Unio pelo prprio Gorbatchov, pregavam o emprego de mecanismos 
de fora para conter as foras da desagregao. Conspiraes golpistas eram denunciadas pela imprensa e por lideranas reformistas. 
Gorbatchov ainda tentou um ltimo recurso: compareceu  reunio do Grupo dos 7, o G-7, uma espcie de diretrio dos pases capitalistas mais ricos do mundo, para 
solicitar um auuxlio econmico de emergncia para socorrer a combalida ecoonomia sovitica. Se fosse concedido, comprovaria, uma vez mais, seu prestgio internacional 
e poderia utiliz-Io como trunfo nas negociaes no pas. Mas a tentativa fracassou, obrigando o lder sovitico a voltar para seu pas humilhado e enfraquecido. 
E ento houve o golpe anunciado, desferido pelos homens que estavam no governo da Unio. Muito sintomaticamente, no falavam nem na defesa do socialismo, nem em 
nome do Partido, mas em salvar a Unio d~ uma desintegrao catica. Mostrando fraqueza, tambm no assumiam estar derrubando Gorbatchov, mas alegavam que este solicitara 
afastamento por motivo de sade ... 
Ante a perplexidade geral, Boris Ieltsin, agora presidente eleito da Rssia, teve a coragem de tomar a liderana de um movimento para defender a legalidade. No Parlamento 
russo, em torno de alguns milhares de correligionrios, conclamou o no-reconhecimento das lideranas golpistas e da resistncia. Foi o que bastou para vencer, pois 
o esquema golpista desinteegrou-se de modo fulminante, desmantelando-se como um casstelo de areia, sem que fosse necessrio travar um enfrentamento decisivo, nem 
dar um nico tiro. 
No contexto da confuso que se estabeleceu, aproveitanndo-se dela, atropelaram-se as proclamaes formais de indepenndncia das repblicas no-russas: Estnia (20 
de agosto), Letnia (21 de agosto), Ucrnia (24 de agosto), Bielo-Rssia (25 de agossto), Moldvia (27 de agosto), Casaquisto e Quirguzia (28 de agosto), Azerbaijo 
(30 de agosto), Usbequisto (31 de agosto), Tajiquisto (9 de setembro), Armnia (21 de setembro) e Turrcomenisto (26 de outubro). Mais a Litunia e a Gergia, 
que j haviam proclamado as respectivas independncias em feveereiro e abril; completava-se o quadro da desagregao da seegunda superpotncia mundial. 
Em rpidos movimentos, Ieltsin consolidou seu poder, dissolvendo o KGB e o prprio Partido Comunista, acusado de cumplicidade' na operao golpista e posto na ilegalidade. 
Em nome da Rssia, apropriou-se do Krernlin e do Ministrio das Relaes Exteriores. No incio de dezembro de 1991, apoiado pelos presidentes da Bielo-Rssia e da 
Ucrnia, anunciou a funndao de uma Comunidade de Estados Independentes (CEI). 
Pouco depois, em 21 de dezembro de 1991, em Alma Ata, capital do Casaquisto, onze repblicas ex-soviticas formaliza- 
ram a constituio da CEI. A Gorbatchov no restou mais do que a renncia, assinada finalmente em 25 de dezembro de 1991. 
O inacreditvel acontecera: a Unio Sovitica simplessmente deixara de existir. 
7. A RSSIA POS-SOCIALISTA: 
APOGEU E CRISE DA UTOPIA DO MERCADO 
Os anos 90 na Rssia, ainda dominados pela perspectiva de reformar em profundidade o sistema socialista, podem ser compreendidos em dois tempos. Numa primeira etapa, 
prevaaleceu a proposta de uma transio rpida em direo ao capiitalismo: foi a chamada terapia de choque, aplicada basicamente em 1992 e 1993. Nesses dois anos, 
contradies crescentes entre o presidente Boris Ieltsin e o Parlamento russo levariam a um choque frontal e a um desfecho violento: o Parlamento foi disssolvido 
e se aprovou uma nova Constituio. A partir da inauugurou-se um segundo momento. Sem abandonar a meta de instaurar uma economia de mercado, adotaram-se polticas 
pragmticas, mais ajustadas s tradies ,histricas russas, em que o papel do Estado sempre foi preponderante. Em todos esses anos, a sociedade russa compreendeu, 
uma vez mais  prpria custa, que a histria no d saltos acrobticos no curto prazo e que as transformaes profundas eventualmente desejadas s podem tomar corpo 
ao longo do tempo, produto da vontade, do trabalho e da determinao de grandes maiorias. 
A UTOPIA DO CAPITALISMO A CURTO PRAZO E A TERAPIA DE CHOQUE 
Extinta formalmente a Unio Sovitica, em 31 de dezemmbro de 1999, a maioria da sociedade russa foi tomada por uma profunda expectativa de que seria possvel, a 
curto prazo, alcan-' ar os padres de organizao poltica, de desenvolvimento ecoonmico e de bem-estar das sociedades capitalistas mais avannadas da Europa ocidental 
e dos Estados Unidos. Disseminada em toda a sociedade, havia uma admirao sem limites pelas realizaes da modernidade ocidental, um mundo considerado
civilizado, em contraste com a Rssia desestimada como anaacrnica e brbara. 
O presidente Boris Ieltsin, eleito em junho de 1991, no auge da popularidade e da glria, exprimiu essas esperanas quando nomeou como primeiro-ministro E. Gaidar 
e sua equiipe de economistas, assessorada por norte-americanos, como J. Sachs. A idia era desencadear uma carga de cavalaria - em rpidos movimentos, desmontar 
o sistema anterior, rasgar novos horizontes e permitir o advento de uma economia de mercado, liberada de entraves histricos, capaz de realizar as imensas pootencialidades 
- humanas e materias - da sociedade russa. 
Com o apoio e as bnos do Fundo Monetrio Internaacional e do Banco Mundial, aplicou-se a conhecida receita: liiberao total dos preos, suspenso imediata dos 
subsdios estaatais s atividades econmicas, combate rigoroso ao deficit pblico, aperto no crdito, verdade cambial, poltica acelerada de privatizao das empresas 
estatais. 
Os resultados foram desastrosos. 
Os preos dispararam: no fim do ano, em mdia, estavam trinta vezes maiores do que em janeiro, enquanto os salrios apenas haviam dobrado. A atividade industrial, 
que j vinha declinando desde 1987, deu um salto para trs. Com as fronteiiras praticamente abertas, do ponto de vista fiscal, o mercado russo foi invadido pelos 
produtos ocidentais, melhores e mais baratos, com as quais os russos no tinham condies de commpetir. Declinaram de forma brutal os investimentos (8% do Produto 
Nacional Bruto em 1995, comparados com 20%, em mdia, nos tempos do socialismo sovitico). O desemprego, praga desconhecida na sociedade sovitica, cresceu de forma 
descontrolada, atingindo cerca de dez milhes de pessoas, sem contar o emprego informal e o subemprego, e no foram cria- 
dos, nem se pretendiam criar, servios e redes de apoio e pro- I .' 
teo sociais. 
,Houve um processo brusco de concentrao de renda, favorecendo regies e grupos determinados. Entre as primeiras, Moscou e So Petersburgo (a populao da cidade, 
em plebis- 
cito, resolvera recuperar o antigo nome), com servios admiinistrativos, comerciais e financeiros, beneficiaram-se largamennte. Na sociedade, dirigentes polticos 
e administrativos, a grande maioria constituda de ex-comunistas, passaram muito rapidaamente a acumular grandes fortunas, provenientes da canalizaao irregular 
de subsdios remanescentes e dos mecanismos de privatizao denunciados como fraudulentos. Apesar das estaatsticas imprecisas, h um certo consenso de que se destacou 
uma camada de cerca de 10% da populao, os mais ricos, que passou a concentrar algo em torno de 40% da renda nacional, os novos russos (novi ruskii). Entre os que 
sofriam mais negativaamente o impacto das reformas estavam os pensionistas, os assaalariados de setores que permaneciam estatizados, como grandes segmentos da sade 
e da educao, os que viviam de rendimenntos fixos, os desempregados. Na base da pirmide, os 10% mais pobres deteriam apenas 1,5% da renda disponvel. Segundo um 
relatrio da Academia de Cincias, em 1993, um tero da poopulao vegetava num nvel abaixo da subsistncia, enquanto se estimava que 10%, ou seja, cerca de 15 
milhes de pessoas, estariam abaixo mesmo do nvel de sobrevivncia fsica. 
O pas parecia ter passado por uma guerra civil. A espeerana de vida ao nascer, de 64 anos para os homens e de 74,4 anos para as mulheres em 1990 (j ento em queda, 
em compaarao a 1985-1986), caiu ainda mais, para 58 anos e 68 anos, para homens e mulheres, respectivamente. 
A populao estava atordoada pelo contraste entre as expectativas positivas suscitadas e os resultados efetivos de uma situao catastrfica. 
O Parlamento russo, eleito em 1990, passou a exprimir as insatisfaes. Entre os oposicionistas, dois fiis aliados de Ieltsin, o vice-presidente, Alexander Rutskoi 
e o presidente do Parlamento, Ruslan Khasbulatov. Segundo eles, era preciso susspender imediatamente a terapia de choque, porque o doente, no caso, a sociedade russa, 
estava agonizante. O processo de priivatizaes necessitava igualmente ser encaminhado com critrios mais definidos, evitando-se o descalabro e a corrupo que 
o caracterizavam, provocando escndalos e mal-estar. A transsferncia macia de bens do Estado e da sociedade para mos privadas explicitara e potencializara o fenmeno 
das mfias, produto da desorganizao institucional e fator de agravamennto de um processo catico de desagregao com suas milcias privadas, fraudes escandalosas, 
contrabando de armas e matrias-primas estratgicas, exportao de riquezas colossais para parasos fiscais. 
a problema  que, para no poucos, o Parlamento, eleito em 1990, anda era muito representativo do passado sovitico para merecer confiana. Ielstin, apesar de tudo, 
continuava senndo uma referncia nas denncias e na luta contra um sistema que visivelmente a sociedade no desejava ressuscitar. 
a enfrentamento entre o presidente e o Parlamento proolongou-se ao longo de 1993, radicalizando-se. Em abril, apesar de toda a insatisfao, um plebiscito reafirmou 
a confiana da populao no presidente (58%) e em sua poltica (53%), mas os deputados mantiveram a presso. Quando Ieltsin, evidencianndo tendncias autoritrias 
que antes tanto denunciara, dissollveu o Parlamento, em setembro, os deputados recusaram-se a aceitar o fato consumado. Prepararam-se para a luta, acusando Ieltsin 
de golpista, tentando reeditar, a seu favor, os termos e a situao de conflito provocado pelo golpe de agosto de 1991. Mas os tempos eram outros. A populao, talvez 
exausta de proovaes, no se mobilizou. As Foras Armadas, embora no incio hesitantes, acabaram ficando com o presidente e, assim, depois de alguns dias de ameaas 
e contra-ameaas, bombardearam o Parlamento, em 4 de outubro, destruindo parcialmente o prdio, a chamada Casa Branca. Segundo dados oficiais, morreram duzentas 
pessoas e cerca de oitocentas ficaram feridas. a Parlaamento foi temporariamente fechado, seus lderes, presos, a opoosio sovitica, aniquilada. 
No se instaurou, no entanto, a ditadura, como alguns, mais pessimistas, previram. Em 12 de dezembro de 1993, o preesidente Ieltsin submeteu  sociedade uma nova 
Consituio, conferindo poderes extraordinrios  presidncia e enfraque- 
cendo decisivamente o poder dos deputados. O povo a aprovou por maioria. Trs dias mais tarde" eleies gerais designaram uma novo Parlamento, a Duma do Estado. 
Surgiu ento com fora eleitoral um novo Partido Comuunista da Federao Russa, em funcionamento desde o ano annterior, legalizado, afinal, depois de uma longa batalha 
jurdica. Com seus aliados, alcanaram votao expressiva, cerca de 25% dos sufrgios. Do mesmo modo, trabalhando com temas patriticos e propostas de justia social, 
um partido nacionalista, curiosamente auto denominado liberal-democrtico, obtivera 22% dos eleitores. Quanto aos liberais de E. Gaidar, apesar dos imensos meios 
financeiros empregados, no alcanaram, com seus aliados, mais do que 25% dos votos, quando esperavam, no mnimo, metade dos sufrgios. Uma derrota poltica para 
o presidente, relativizada, por~, pelo enfraquecimento constiitucional dos poderes do Parlamento. No entanto, boa parte da sociedade passara claramente a mensagem 
de uma insatisfao crescente com os rumos da poltica governamental, de desenncanto com a subservincia s potncias e aos modelos ocidentais. Parecia ter se desgastado 
a crena ingnua na utopia a curto prazo de um regime capitalista que pudesse salvar o pas da deeriva em que se encontrava. 
A RSSIA  PROCURA DE CAMINHOS: 
REVIGORAMENTO DO PODER CENTRAL E ECONOMIA MISTA 
Desde antes das eleies de 1993, sensvel s presses sociais e ao descalabro em que se encontrava a economia, o gooverno j se empenhava em reorientar suas polticas. 
A equipe responsvel pela terapia de choque fora substituda por um veeterano administrador do setor estatal da energia (petrleo e gs), V. Chernomyrdin. Um homem 
do Estado. Reunia as virtudes da tradio da intelectocracia russa e sovitica: sobriedade, pragmatismo, sentido do papel do Estado, identificado como um instrumento 
fundamental para a sobrevivncia e a moderni- 
zao da nao. 
Depois da derrota poltica eleitoral dos liberais, e no quaadro do fortalecimento do poder estatal central, consagrado pela nova Constituio, o governo moderou 
o ritmo e, progressivaamente, abandonou o radicalismo da ortodoxia liberal. No se colocou em questo a perspectiva geral de instaurar uma econoomia de mercado, 
mas mudaram claramente as prioridades e as nfases. Em vez de uma liberao descontrolada, uma poltica de regulamentao. No lugar de uma rpida privatizao, uma 
poltica mais cautelosa, baseada na concepo de uma economia mista, reunindo empresas estatais, um setor onde se combinasssem a participao estatal e os capitais 
privados, cooperativas e empresas totalmente privatizadas, nacionais e estrangeiras. 
Procurou-se avanar na formulao de um quadro instiitucional e de legislaes que permitissem alcanar um certo nvel de previsibilidade poltica e econmica, 
essencial para atrair capitais externos e mesmo para recuperar o potencial de investiimento da prpria economia russa. Uma outra preocupao foi determinar uma poltica 
fiscal e disciplinar a arrecadao de impostos, conferindo ao Estado margens de interveno e ao na economia e pa sociedade. Finalmente, mas no menos immportante, 
continuar com o processo de privatizao (em 1995, o Estado j vendera cerca de 80% dos seus ativos), mas tentando deter e controlar os efeitos deletrios e nefastos 
ocorridos no perodo anterior. No plano da poltica externa, o governo consoolidara relaes amistosas com os pases capitalistas avanados e, sobretudo, com os 
EUA. No entanto, a perspectiva de uma aceiitao sem reservas da Rssia no quadro das instituies interrnacionais reunindo os pases mais ricos do mundo enfrentou 
conntradies imprevistas. Tanto no chamado Grupo dos 7 quanto na Otan, houve resistncias mais ou menos ostensivas. Numa outra dimenso, os investimentos internacionais 
no afluram na intennsidade e nos ritmos esperados. Certos setores da sociedade russa reclamavam de um bOlcote deliberado, algo maquiavlico, destiinado a destruir 
o pas, mas no podiam deixar de reconhecer que 
a situao geral em que se encontrava a Rssia no era propriaamente encorajadora para os que desejavam arriscar seus capitais. 
Quando, apesar de tudo, o pas retomava um certo nvel de estabilidade, comeou a guerra da Chechnia, em dezembro de 1994. 
A GUERRA DA CHECHNIA 
Desde agosto de 1991, aproveitando-se do processo de desagregao resultante do golpe fracassado para derrubar Gorbatchov, que desembocou na dissoluo da Unio 
Sovitica, vrios pequenos povos do Cucaso tinham proclamado tambm a prpria independncia, fazendo brotar um conjunto de miniirepblicas no flanco sul da Federao 
Russa: Dniestr, Abkhazia, Karabakh, Ossetia do Sul e Chechnia. Nenhum desses Estados, porm, ao contrrio das ex-repblicas soviticas, obteve reco- 
nhecimento internacional. I . 
Depois do fim da Unio Sovitica, o governo russo traatou, desde 1992, de negociar a reincorporao dessas pequenas naes, no que obteve xito,  exceo da Chechnia, 
cujos diriigentes recusaram-se a aceitar um acordo que, embora conceedendo margens apreciveis de autonomia, mantinha a subordiinao poltica a Moscou. Seguiu-se 
uma queda-de-brao de presses e contrapresses, envolvendo interesses econmicos e geoestratgicos: o governo presidido por Ieltsin argumentava que seria um perigo 
o reconhecimento da independncia da Chechnia pelos riscos de contaminao que poderiam advir para os inmeros povos no-russos que continuavam a habitar nas fronteiras 
da Federao. Alm disso, negcios e negociatas ainda obscuros, embora insistentemente denunciados pela mdia russa independente, envolvendo altos escales do Estado 
e a chamada mfia chechena, teriam constitudo fatores noonegligenciveis para explicar o conflito. 
O fato  que, em dezembro de 1994, as Foras Armadas russas, reunindo cerca de quarenta mil homens, passaram  ofensiva na Chechnia com o objetivo de aniquilar 
o movimennto independentista. Imaginou-se uma guerra curta e vitoriosa, capaz de fortalecer o prestgio poltico do governo, mas os cheechenos, com grande tradio 
de luta e de rebeldia, resolveram 
resistir. Depois de um comeo fulminante, quando, apesar de perdas considerveis, conseguiram tomar a capital do pas, Grozny, as tropas russas passaram a enfrentar 
uma desgastante guerra de guerrilhas. As perdas avolumavam-se, suscitando questionamentos e oposies. A sombra do fracasso da intervenno no Meganisto comeou 
a inquietar e assustar. 
Um ano depois, em dezembro de 1995, as eleies para renovar a Duma do Estado atestaram a crescente impopulariidade do governo. O partido formado por Chernomyrdin, 
apesar dos meios financeiros e miditicos, elegeu apenas 65 parlamenntares em 450 cadeiras em disputa. Somando todos os apoios, o presidente, mais uma vez, ficara 
apenas com cerca de um quarto da Duma, enquanto os comunistas e seus aliados elegiam 186 deputados, 32% da Assemblia. 
O governo resolveu ento iniciar conversaes de paz com os chechenos, estabelecendo uma trgua. O conflito aberto era suspenso, as partes mantinham suas posies 
respectivas e, num prazo de cinco anos, a questo da independncia voltaria a ser debatida. leltsin pensava j em reeleger-se, contrariando o connselho dos correligionrios, 
dos mdicos, que apontavam sua sade debilitada, e as previses sombrias das pesquisas de opinio pblica que lhe conferiam apenas 5% das preferncias em jaaneiro 
de 1996. Entretanto, numa campanha memorvel, reverteu as expectativas. Ganhou o primeiro turno com uma maioria apertada - 35% a 32% dos votos atribudos ao lder 
comunista G. Zyuganov -, e o segundo, fruto de uma hbil poltica de aliannas, por 54% a 40% dos sufrgios, reafirmando a fora de sua liderana carismtica. 
Na campanha eleitoral e nas urnas, uma vez mais, a maiooria da sociedade, entretanto, pareceu distanciar-se das miragens e dos discursos delirantes da ortodoxia 
liberal, mas tambm no desejava voltar ao passado sovitico. Os prprios comunistas, que reiteraram seu prestgio como segunda fora poltica do pas, embora reivindicando 
algumas tradies importantes do passado (defesa de uma slida seguridade social, de um papel relevante do Estado na economia e da Rssia no plano interna- 
cional etc.), rejeitavam as acusaes de que seriam candidatos a promover a ressurreio da Unio Sovitica e da guerra fria. Desse ponto de vista, as freqentes 
menes do candidato coomunista, G. Zyuganov, a Stalin, se puderam contentar faixas de veteranos nostlgicos, acabaram prejudicando uma proposta de alianas mais 
amplas, essenciais para vencer Ieltsin. 
A RSSIA E OS DESAFIOS DE UM NOVO SCULO 
Para o incio do segundo mandato, o presidente eleito, apesar de minoritrio na Duma do Estado, insistiu no pragmaatis mo de V. Chernomyrdin. A Rssia continuaria 
buscando estruturar um modelo de economia mista, com um Estado cenntral forte e revigorado. Ao mesmo tempo, era reafirmado o commpromisso com o fim da guerra fria 
e a proposta de consolidar a insero da Rssia nas instituies internacionais reconhecidas. 
Embora as condies de vida registrassem melhoras, com a inflao descendo a menos de 2% ao ms, a situao contiinuava muito difcil, principalmente para os segmentos 
que se encontravam na base da pirmide social. No entanto, uma poltica interna deliberada de preos baixos para a energia, alm da manuteno de um conjunto de 
subsdios, conseguiu manter em funcionamento considerveis setores do parque industrial remanescente, impedindo a elevao das taxas de desemprego. Por sua vez, 
as cotaes internacionais relativamente altas do petrleo, principal produto de exportao da Rssia, conferiram margens de manobra ao governo para negociar dvidas 
e commpromissos com as potncias capitalistas e as agncias internaacionais (FMI e Banco Mundial). 
A Rssia recobrava o flego, mas as expectativas favorveis em relao  retomada de um crescimento continuado a partir de 1997 foram afastadas de modo brusco pela 
irrupo da crise financeira de 1998. 
Desencadeada por dificuldades nas economias aparente- 
mente slidas dos chamados tigres asiticos (Cingapura, Hong Kong, Coreia do Sul e Taiwan), a crise foi um vendaval, fazendo despencar bolsas de valores em todo 
o mundo e os preos das matrias-primas industriais e agrcolas, entre as quais o petrleo. 
A queda do preo mdio do barril, de 40 para 10 dlares, teve um impacto devastador sobre as esperanas moderadamente otimistas que prevaleciam ento na Rssia. 
Houve uma desvaloorizao abrupta do rublo, produzindo uma reacelerao do proocesso inflacionrio. 
O governo pareceu desorientado. Em cerca de um ano e meio, Ieltsin nomeou nada menos do que trs primeirosnistros (S. Kirienko, 1. Primakov e S. Stepashin). Ora, 
inclinavaase pelo retorno a polticas liberais, ora, ao contrrio, no caso da nomeao de Primakov, por uma proposta de orientao nacioonalista, com nfase na preponderncia 
do Estado e de polticas de interveno e regulao do mercado. Comearam a aparecer protestos sociais, vocalizados e estimulados por presses da Duma de Estado, 
em que se agitavam de modo cada vez mais articulado os comunistas e os nacionalistas de todos os bordos. 
Novos desafios polticos perfIlavam-se no horizonte: as eleies para a Duma, em dezembro de 1999 e as presidenciais, para junho de 2000. Ieltsin no mais poderia 
se candidatar. A Constituio o impedia formalmente de postular uma nova reeleio, mas outros aspectos pesavam ainda mais. A rigor, o velho lder ex-sovitico e 
ex-comunista, sempre energtico e diinmico, j no era mais o mesmo, com elevados ndices de reejeio poltica e com a sade extremamente combalida. 
Em agosto de 1999, depois de muito hesitar, nomeou, em manobra poltica surpreendente, V. Putin para a chefia de goverrno. Veterano funcionrio da comunidade de 
informaes, o novo primeiro-ministro era a imagem da perseverana e da discrio. Bem poucos acreditaram que tivesse sucesso poltico ou que permanecesse no cargo 
por muito tempo. Putin, no entanto, surgiu no cenrio poltico como um homem seguro e aetermiinado. Na tradio da intelectocracia russa, retomou as grandes linhas 
das polticas plasmadas por Chernomyrdin e Primakov. Sem romper com uma poltica internacional de insero da Rsssia nas instituies internacionais, adotou uma 
nfase nacioonalista. Em termos da poltica interna, afirmou-se a prepondeerncia de um Estado centralizado, interventor e regulador. 
Logo depois de sua nomeao, em setembro, uma srie de brutais atentados a bomba, fazendo dezenas de vtimas em Moscou, e atribuda pelo governo aos chechenos, confirmou 
as qualidades de Putin de lidar e enfrentar situaes de crise. Uma nova ofensiva contra a Chechnia, em larga escala, contou agora com a simpatia de boa parte da 
populao, traumatizada pelos ataques terroristas. 
Nas eleies para a Duma de Estado, em dezembro, Putin manteve a marca dos predecessores, um quarto das cadeiras, um resultado medocre, mas, nas circunstncias, 
foi considerado um incio promissor, sobretudo porque a principal oposio, formada pelos comunistas, tambm no cresceu, ao contrrio, registrou ligeira queda, 
no ultrapassando 25% das cadeiras. 
No ltimo dia do ano, quando se iniciava o novo sculo, em discurso emocionado transmitido para todo o pas, Ieltsin renunciou  presidncia e aos seis meses de 
mandato que lhe restavam. De acordo com a Constituio, cabia agora a Putin, como primeiro-ministro, assumir interinamente a presidncia e organizar em trs meses 
novas eleies. Foi uma manobra acertada, pois, na atmosfera de crise e de nova guerra contra a Chechnia, a candidatura de Putin surgiu com excelentes condiies: 
um lder sem desgastes e compromissos com as tricas e futricas da poltica, discreto e sbrio, aparentando fora e deterrminao. 
Nas eleies de maro de 2000, Putin ganhou logo no primeiro turno, alcanando 53% dos votos, reeditando a perrformance de Ieltsin em 1991 e batendo Zyuganov (comunista), 
Zhirinovsky (nacionalista radical) e Yavlinsky (liberal moderaado). No fim do ano, a economia registrou, pela primeira vez desde o incio da perestroika, um ndice 
de crescimento aprecivel: 7%. A Rssia encontrara, afinal, uma alternativa vivel? 
Nos primeiros anos deste novo sculo, a Rssia oferece um panorama de contrastes. Permanece, apesar de toda crise por que passou e ainda vem: passando, como potncia 
nuclear. Em larga medida por essa razo, mantm seu lugar no Conselho de Segurana da Organizao das Naes Unidas (ONU) e foi 
admitida no diretrio dos pases mais ricos do mundo, agora rebatizado como Grupo dos Oito (G-8). Manteve igualmente uma poderosa indstria de armamentos convencionais 
e tem feito disso, inclusive nos ltimos anos, uma fonte importante de divisas, disputando vrios mercados em todo o mundo com os EUA e outras potncias exportadoras 
de armas e munies. 
O pas conserva trunfos apreciveis: territrio imenso, recursos naturais excepcionais, populao importante (cerca de 150 milhes de habitantes) e altamente instruda, 
considerandoose os padres internacionais. Alm disso, do ponto de vista geooestratgico, em sua posio-chave, entre a Europa e a sia, conntinua em condies potenciais 
de desempenhar papel decisivo na configurao na Europa oriental e na articulao poltica e econmica de quase todas as ex-repblicas soviticas,  exceeo das 
mais ocidentais (pases blticos), j alcanando padres de integrao avanada com a Europa ocidental, particularmennte com a Escandinvia. 
Na conferncia de outros ndices, entretanto, a Rssia parece com alguns grandes pases do bloco agora chamado de em vias de desenvolvimento. Insero subordinada 
no comrcio internacional (exportadora de produtos primrios e matriassprimas, principalmente o petrleo; importadora de tecnologia de ponta); dependncia financeira 
das agncias e dos investiimentos privados internacionais; vulnerabilidade bsica em relaao aos fluxos dos capitais especulativos (crise de 1998); cresscentes 
desigualdades sociais, traduzi das na constituio de uma pirmide social semelhante  de muitos pases da frica, da sia e da Amrica Latina. No topo, os novos 
russos, que fazem recorrdar, cada vez mais, os nababos dos velhos tempos do tsarismo, visveis nos circuitos mais sofisticados do turismo internacional; na base, 
amplos segmentos de gentes desamparadas, vivendo em padres mnimos de subsistncia, ou mesmo abaixo desses padres. 
Na discusso de alternativas, retornam referncias que paareciam sepultadas pelo tempo e que animavam os ferozes deebates entre ocidentalistas e eslavfilos do sculo 
X1X. A sorte da 
Rssia depender de sua integrao ao Ocidente civilizado? Seu progresso e desenvolvimento devero ser necessariamente mediidos pela capacidade em alcanar os patamares 
e as condies materiais j atingidas pelos pases mais ricos do mundo? Ou haver alternativas possveis de modernidade a serem desentraanhadas das tradies e das 
condies especifcas da sociedade russa? O futuro da Rssia ser decidido em aliana com a Euuropa ocidental e com os EUA, ou, numa outra direo, em artiiculaes 
com sua periferia prxima e, mais amplamente, com os pases e povos deserdados da Terra? 
Num esforo gigantesco, desde as revolues russas do incio do sculo XX, e mesmo antes, pelo Estado tsarista, os russos tentaram elaborar e empreenderam a consecuo 
de allternativas de modernidade aos padres oferecidos pelo Ocidente, ou seja, pelos pases capitalistas avanados. Fracassaram. A traaduo dramtica dessa derrota 
histrica traduziu-se pela desaagregao da Unio Sovitica, por uma profunda crise de refeerncias, pela desestruturao cultural que se seguiu e pela desorrganizao 
poltica e econmica. 
Agora, em outras condies, radicalmente distintas, resssurgem antigas questes, velhos dilemas. A sociedade russa ter foras e reservas para enfrent-Ios de modo 
original e determiinado, ou se limitar a perseguir as miragens de uma terra proometida, dependente de centros de deciso que escapam a seu controle e condicionam 
sua autonomia? 
As HERANAS DO SOCIALISMO SOVITICO 
No seria razovel terminar sem breves reflexes a respeiito do legado da experincia sovitica. Trata-se de um tema difcil, polmico, j que as revolues russas 
e o socialismo sovitico sempre foram objeto de amargas controvrsias e lutas apaiixonadas. 
Numa perspectiva de sntese, os seguintes aspectos pareecem essenciais. 
As revolues russas desafiaram ordens consagradas: a do tradicional imprio tsarista e a regida pelo capitalismo interna- 
ciona!. A metfora do elo da corrente, empregada por Lenin, era adequada. Quebrou-se um elo, mas no foi possvel quebrar a corrente. Na seqncia, mobilizando-se 
tradies antigas, utopias contemporneas e sonhos de futuro, desencadeou-se um proocesso de modernizao alternativa a que se atribuiu o termo discutvel, e discutido, 
de socialismo. Foi concentrado e brutal, a um custo elevadssimo, humano e material. Rompida a depenndncia em relao ao mercado internacional, conseguiu-se um 
extraordinrio salto para a frente, econmico e socia!. Mas a prpria equao que assegurara o salto, baseada nos planos cenntralizados, na economia estatizada e 
na ditadura poltica, entrou em crise. As tentativas de reforma, depois de alguns xitos parrciais, fracassaram. Quando a sociedade aprofundou o escrutnio, desagregou-se. 
O que restou do imenso esforo? 
Uma sociedade urbanizada, complexa, altamente instruda. Uma potncia nuclear. Em comparao com o mundo mais pobre, avanos substanciais; com os pases mais ricos, 
insufiicincias ainda gritantes, agravadas agora por desigualdades soociais crescentes. Uma crise profunda de identidade ede refeerncias culturais. Depois de dez 
anos da dissoluo da Unio Sovitica, para quase todos ainda  muito difcil lidar com o passado. Boa parte sente nostalgia do que se perdeu e tambm de uma certa 
inocncia, igualmente perdida, e que agora  immpossvel cultivar. Outros, talvez a maioria, tateiam em busca do futuro, de modo nenhum satisfeitos, mas, pelo menos 
por ennquanto, no querem ressuscitar o passado. 
Para o mundo, sobretudo para a Europa, observou Hobssbawm, o socialismo sovitico foi mais generoso do que para os prprios filhos. O Estado de bem-estar social 
deveu-se, nesse registro, e em larga medida, ao medo dos vermelhos e da revoluuo. O mesmo se poderia dizer em relao  decomposio dos imprios coloniais europeus, 
s vitrias das lutas de libertao nacional e  estruturao, desde os anos 30, das correntes nacioonal-estatistas na sia, frica e Amrica Latina, tambm tributrias, 
de algum modo, s presses poltico-diplomticas, ou ao 
auxlio militar, ou ao exemplo (economia planejada) oferecidos pela Unio Sovitica. 
O socialismo sovitico deixou um rastro de intolerncia poltica. Quando se tornou vitorioso, estimulou em toda a parte os valores da igualdade, da solidariedade, 
da cooperao, do primado dos interesses sociais sobre os interesses individuais. No incio dos anos 20 do sculo passado, embora cercada e faaminta, a revoluo 
russa semeava e despertava esperanas. Deepois de dcadas, s era capaz de mobilizar tanques e foguetes. A incapacidade histrica de construir uma alternativa ticoocultural 
 sociedade e aos valores capitalistas  um pesado fardo que deixou para os que tentam reinventar a alternativa sociaalista no sculo XXI. 
Por tudo o isso, os mais amargos no hesitam em dizer que a Rssia ensinou ao mundo caminhos que no devem ser trilhados. Enquanto os mais otimistas ainda sustentam 
que um gigantesco assalto ao cu da ordem constituda tem sempre seu valor e legitimidade, podendo proporcionar importantes refeerncias para a reconstruo do futuro. 
Entre essas alternativas, a aventura humana ter, como sempre, liberdade de escolha e no se pode esquecer que, freeqentemente,  o improvvel que acontece (E. 
Morin). 
Na bibliografia que se segue, nem um pouco exaustiva, e com nfase em trabalhos escritos ou traduzidos em lngua porrtuguesa, gostaria de ressaltar apenas algumas 
referncias. 
Comeo pelas que me so mais caras, e nas quais, em larga medida, me apoiei, ou me inspirei, para elaborar o presente livro. A principal dvida  com Moshe Lewin, 
pesquisador de histria social, aguado esprito crtico, sempre cuidadoso em evitar a prioris e ngulos deformantes que possam mal conduzir a visvel empatia com 
o tema que sempre estudou com paixo e rigor. Em seguida, Nicolas Werth e Marc Ferro, mestres frannceses, procurando sempre trabalhar na interseo da histria poltica 
e cultural, sem esquecer a dimenso econmica, cujas pesquisas, orientaes, manuais e seminrios muito me ajudaaram a pensar os problemas que tentei abordar. E 
a clssica hisstria da revoluo e de seus desdobramentos at os anos 30, de E. Carro Para a informao e a anlise dos dados e estatsticas, so indispensveis 
as histrias econmicas de Alec Nove e Jaccques Sapir, de que me servi amplamente. 
. Para a compreenso das tradies russas, alm dos j refeeridos, so essenciais as obras de Raeff, Kappeler (questo nacioonal) e a clssica de Setton-Watson, 
alm de Venturi com sua incontornvel pesquisa sobre os intelectuais revolucionrios. 
Para as batalhas historiogrficas em torno do carter sociaalista das revolues russas e do regime sovitico, seria importannte considerar a obra coletiva organizada 
por Hobsbawm; a corrrente liberal, com a qual  indispensvel manter o dilogo, em suas duas dimenses: os ensastas mais sofisticados e fecundos (Arendt, Berlin, 
Furet) e os historiadores mais (Pipes) ou menos (Fainsod e Schapiro) dependentes das exigncias da guerra fria; . 
o maosmo acadmico (C. Bettelhein) e as tentativas de construuo de interpretaes alternativas (Claudin, Fernandes, Palmeira, Rodrigues, SegrilIo, Pomar, Netto, 
Neves). 
 preciso destacar ainda, e naturalmente, os autores e atoores russos: os que participaram das revolues e da primeira etapa da construo do socialismo - Lenin, 
StaIin, Trotski, Bukharin, Preobrazhensky, Kollontai, Makhno -; os que se empenharam, em vo, em reform-Io - Kruchov, Gorbatchov, Iakovlev, IeItsin -; e aqueles 
que tentaram compreender o enigma - Agannbeguian, Medvedev, Zaslavskaia, Kagarlitsky, Maidanik. 
 importante ainda mencionar as dissidncias e os mallditos: Babei, Benjamin, Suvarin, Chalamov, Grossman, Serge, entre muitos outros. Suas reflexes e reminiscncias 
no raro ofereceram e ainda oferecem pistas preciosas para a compreennso das aventuras e desventuras do socialismo sovitico. 
Finalmente, um registro enftico para as obras de fico. 
Entre os contemporneos, Babei, Rybakov, Soljenitsin. E tammbm os clssicos, no referidos na presente bibliografia, mas indispensveis para a apreenso das tradies 
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Formato: 10,5 x 19 em Mancha: 18,8 x 42,5 paicas Tipologia: Minion 10,5/12,9 Papel: Plen Soft 80 g/m2 (miolo) Carto Supremo 250 g/m2 (capa) 1 a edio: 2004
1a reimpresso: 2008
Edio de Texto
Nelson Lus Barbosa (Assistente Editorial) Carlos Villarruel (Preparao de Original) Fbio Gonalves e
Carlos Villarruel (Reviso)
Editorao Eletrnica
Lourdes Guaeira da Silva Simonelli (Superviso) Lus Carlos Gomes (Diagramao)
Projeto Visual
Ettore Bottini
Ilustrao de Capa  Bettmann/CORBIS
